Unicef aponta 333 cidades com alto risco ambiental para crianças
Da Redação de LexLegal
Crianças e adolescentes enfrentam vulnerabilidade ambiental severa em 333 municípios brasileiros, o equivalente a 6% das cidades do país. Nesses locais, pelo menos dez dos 14 indicadores analisados pelo Unicef foram classificados como de alta prioridade.
O diagnóstico integra o Painel Crianças e Meio Ambiente, desenvolvido pelo Unicef e pela Vital Strategies. A plataforma reúne dados de 2021 a 2025 sobre os 5.571 municípios brasileiros e examina qualidade do ar, infraestrutura urbana, eventos climáticos extremos e ambiente escolar.
Leia também: Stocche Forbes e Demarest assessoram fundos Itaú Infracore de R$ 357,5 mi
Norte concentra cidades mais vulneráveis
Dos 30 municípios com maior número de indicadores críticos, 24 estão na região Norte. Outros quatro ficam no Maranhão e dois em Mato Grosso. O levantamento considera problemas que costumam aparecer simultaneamente, como falta de água tratada, esgoto inadequado, moradias precárias, poluição e exposição a chuvas, secas ou ondas de calor.
Muitas dessas cidades têm população pequena, território extenso e economia dependente de atividades primárias. A combinação dificulta a expansão de redes de saneamento, aumenta a exposição a eventos climáticos e reduz a capacidade financeira das prefeituras para responder às emergências.
“Quando se está falando de eventos extremos, crianças dependem de seus cuidadores para tomar as decisões por elas. Elas não necessariamente têm autonomia ou capacidade para reconhecer situações de perigo, em que elas precisam sair de um determinado lugar e ir para outro. Elas dependem que seus cuidadores façam isso”, afirmou Danilo Moura, especialista em Mudanças Climáticas do Unicef.
Poluição e saneamento ampliam riscos
Na análise da qualidade do ar, 94% dos municípios do Norte foram colocados na faixa de alta prioridade devido à presença de partículas finas acima do limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde. O resultado está associado principalmente às queimadas.
No Sudeste, 39% das cidades apresentam alta prioridade nesse indicador. Embora o percentual seja menor, esses municípios concentram 72% da população infantil da região. Nesse caso, a poluição está ligada principalmente ao transporte rodoviário e às atividades industriais das áreas metropolitanas.
A desigualdade também aparece no acesso aos serviços básicos. A falta de água tratada atinge a faixa de maior prioridade em 60% dos municípios do Norte e 48% do Nordeste. O esgotamento sanitário inadequado coloca em situação crítica 87% das cidades nortistas e 55% das nordestinas.
Chuvas, calor e secas atingem regiões diferentes
Os eventos extremos não seguem um único padrão geográfico. Chuvas intensas colocam em alta prioridade 91% dos municípios do Norte e 68% dos municípios do Sul.
As ondas de calor atingem com maior intensidade o Centro-Oeste, onde 64% das cidades aparecem na faixa crítica, e o Norte, com 60%. Os registros recentes de seca colocaram 38% dos municípios do Sudeste e 28% do Centro-Oeste em alta prioridade.
As escolas também integram o levantamento. No Norte, 71% dos municípios apresentam alta prioridade no indicador que considera estabelecimentos sem água encanada, esgotamento sanitário e coleta de lixo ao mesmo tempo. No Nordeste, o percentual chega a 49%.
A falta de áreas verdes no ambiente escolar coloca 52% das cidades nordestinas em alta prioridade. No Sudeste, o problema aparece em 39% dos municípios, que concentram mais da metade das crianças e dos adolescentes da região.
Painel orienta orçamento municipal
Os indicadores são separados em três níveis. A alta prioridade aponta necessidade de resposta imediata. A classificação média recomenda planejamento e medidas de curto ou médio prazo. A baixa prioridade indica que o município deve manter o acompanhamento.
“Transformar os dados em prioridades ajuda a fortalecer a capacidade dos municípios, entender onde estão os maiores desafios, e como direcionar uma política [pública], um programa, ou um orçamento”, afirmou Layla Saad, representante adjunta do Unicef no Brasil.
A plataforma oferece perfis individuais das cidades e reúne 50 recomendações destinadas aos gestores. As medidas incluem intervenções em escolas, ampliação do saneamento, preparação para eventos extremos e integração entre as áreas de saúde, educação, meio ambiente e assistência social.
“Visando futuros melhores e mais seguros, essa ferramenta permite um olhar qualificado e individualizado para o território”, afirmou Pedro de Paula, vice-presidente de Inovação da Vital Strategies.
Veja também: Lefosse assessora fabricante asiática que avalia fábrica de elétricos no Brasil
Dos 5.571 municípios analisados, somente 108, ou 1,9%, não apresentaram alta prioridade em nenhum indicador. O resultado mostra que os riscos ambientais atingem todo o país, mas se acumulam com maior intensidade em cidades do Norte e do Maranhão.