Andy Burnham e a reconstrução estratégica do Reino Unido pós-Brexit
José Renato Ferraz da Silveira*

A ascensão de Andy Burnham ao cargo de primeiro-ministro ocorre em um dos momentos mais delicados da política britânica desde o término da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). O desafio que se apresenta ao novo governo transcende a administração cotidiana do Estado. Trata-se da necessidade de redefinir a posição estratégica do Reino Unido em um sistema internacional marcado pela competição entre as grandes potências, pelo enfraquecimento da globalização liberal e pela crescente fragmentação econômica.
Desde o referendo do Brexit, em 2016, o Reino Unido vive um prolongado período de instabilidade política. A sucessão de sete primeiros-ministros em apenas uma década evidencia que a ruptura com a União Europeia produziu consequências muito mais profundas do que uma simples alteração das regras comerciais. A volatilidade política reduziu a previsibilidade institucional, afetou decisões de investimento e dificultou a formulação de políticas públicas de longo prazo.
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Nesse contexto, Burnham herda uma potência que preserva atributos relevantes de poder — assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, capacidade nuclear, forças armadas altamente profissionalizadas, setor financeiro robusto e expressiva influência diplomática —, mas que enfrenta limitações econômicas e desafios internos consideráveis.
O Brexit permanece como variável estruturante da política britânica. Embora tenha devolvido autonomia legislativa e comercial ao país, também elevou custos de transação, introduziu novas barreiras regulatórias e reduziu a fluidez das cadeias produtivas integradas ao mercado europeu. Em consequência, a política industrial passou a ocupar posição central na agenda governamental.
O governo Burnham dificilmente buscará reverter formalmente a saída da União Europeia. A tendência mais plausível é uma estratégia de aproximação pragmática, baseada em cooperação setorial em áreas como defesa, energia, pesquisa científica, tecnologia e comércio. Trata-se de reduzir os custos econômicos do Brexit sem reabrir um debate político que continua profundamente polarizador.
No plano geopolítico, o cenário revela complexidade ainda maior. O Reino Unido permanece comprometido com o fortalecimento da OTAN e com o apoio militar à Ucrânia, ao mesmo tempo em que procura preservar sua tradicional parceria estratégica com os Estados Unidos (Special Relationship).
A recente autorização para utilização de bases britânicas em operações norte-americanas relacionadas ao conflito com o Irã demonstra que Londres continua privilegiando sua relação especial com Washington, ainda que isso implique maior exposição aos riscos decorrentes das tensões no Oriente Médio. E isso pode afetar as relações britânicas com países europeus e do Golfo.
Paralelamente, a rivalidade sino-americana impõe um exercício permanente de equilíbrio. É o verdadeiro “between the devil and the deep blue sea” (entre o diabo e o profundo mar azul). É o equivalente português entre a cruz e a espada.
Pois, a China representa importante parceiro econômico, mas também é percebida como competidor estratégico em áreas sensíveis como infraestrutura crítica, inteligência artificial, semicondutores e telecomunicações. O governo britânico precisará administrar simultaneamente interesses econômicos e imperativos de segurança nacional.
No âmbito interno, dois desafios permanecem particularmente sensíveis. O primeiro refere-se à Irlanda do Norte, cuja estabilidade continua condicionada ao delicado equilíbrio estabelecido pelo Acordo da Sexta-Feira Santa e pelas soluções institucionais construídas após o Brexit. O segundo envolve o fortalecimento das reivindicações autonomistas escocesas, potencialmente alimentadas pelas diferenças políticas entre Edimburgo e Londres.
A reconstrução econômica também exigirá respostas consistentes. O elevado custo de vida, a baixa produtividade e o reduzido ritmo de crescimento limitam a capacidade fiscal do governo justamente quando aumentam as pressões por investimentos em defesa, infraestrutura, inovação e serviços públicos.
Nesse contexto, o sucesso de Burnham dependerá menos da adoção de medidas isoladas e mais da capacidade de formular uma estratégia nacional coerente que articule crescimento econômico, reindustrialização, estabilidade institucional e inserção internacional.
A grande questão colocada ao novo governo pode ser sintetizada em um dilema central: como preservar a autonomia política conquistada pelo Brexit sem comprometer a prosperidade econômica construída durante décadas de integração europeia?
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Essa talvez seja a principal equação estratégica do Reino Unido contemporâneo. A história demonstrará se Andy Burnham será lembrado como o líder que iniciou a reconstrução britânica no século XXI ou apenas como mais um gestor de uma longa transição ainda inconclusa.
*José Renato Ferraz da Silveira é Professor Titular da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Doutor e Mestre em Ciência Política pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Editor-chefe da Revista InterAção e pesquisador nas áreas de Política Internacional, Geopolítica e Teoria das Relações Internacionais.
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