Violência cai 5,4% no Brasil em 2024, mas desigualdade regional e crimes contra crianças e mulheres disparam

Da redação da LexLegal
Apesar da redução de 5,4% nas mortes violentas intencionais em 2024, que totalizaram 44.127 registros, o Brasil ainda enfrenta graves desigualdades na distribuição da violência, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025. A taxa nacional foi de 20,8 homicídios por 100 mil habitantes, mas estados do Norte e Nordeste seguem com índices muito acima da média.
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O Amapá lidera com 45,1 mortes por 100 mil habitantes, seguido por Bahia (40,6) e Ceará (37,5). Em contraste, Santa Catarina (8,5), Distrito Federal (8,9) e São Paulo (8,2) apresentam as menores taxas do país. As 10 cidades mais violentas estão todas localizadas no Nordeste, como Maranguape (CE), Jequié (BA) e Cabo de Santo Agostinho (PE), onde disputas de facções criminosas agravam o cenário.
Letalidade policial e suicídio entre agentes
A letalidade provocada pelas forças policiais ainda é alarmante: 6.243 pessoas foram mortas em ações policiais em 2024, o que representa uma taxa de 2,9 por 100 mil habitantes. O Amapá, mais uma vez, lidera com 17,1, seguido pela Bahia (10,5) e Pará (7,0). Em cidades como Itabaiana (SE) e Santos (SP), mais da metade dos homicídios foram cometidos por agentes de segurança pública.
O Anuário também aponta uma tragédia silenciosa dentro das corporações: mais policiais civis e militares morreram por suicídio (126) do que em confrontos durante o trabalho (46) ou na folga (124).
Cresce a violência contra crianças e adolescentes
Na contramão da redução geral da violência, os assassinatos de crianças e adolescentes subiram 3,7% em 2024, com 2.356 vítimas entre 0 e 17 anos. Houve aumento em todas as faixas etárias em crimes como maus-tratos, abandono de incapaz e agressões no ambiente doméstico.
Casos de abuso sexual infantil também crescem. A produção e distribuição de material envolvendo crianças vitimou milhares, com 2.543 registros criminais. O bullying, inclusive em ambientes virtuais, e a violência nas escolas também explodiram: o número de escolas que interromperam o calendário letivo por causa da violência cresceu 245,6% em três anos.
Feminicídios e violência doméstica persistem
O feminicídio permanece uma chaga aberta: 1.492 mulheres foram mortas por questões de gênero em 2024, um leve aumento de 0,7% em relação ao ano anterior. A maioria das vítimas era negra (63,6%) e tinha entre 18 e 44 anos (70,5%). Em 97% dos casos, o assassino era homem; em 64,3%, companheiro ou ex-companheiro.
As tentativas de feminicídio cresceram 19%, e os registros de violência psicológica também aumentaram (+6,3%). As forças policiais atenderam 1.067.556 chamadas por violência doméstica no último ano — média de dois chamados por minuto.
Estupros batem recorde histórico
Com 87.545 vítimas registradas, 2024 foi o ano com o maior número de estupros e estupros de vulnerável da história do país. A taxa foi de 41,2 por 100 mil habitantes. A imensa maioria das vítimas (76,8%) é vulnerável — ou seja, crianças, adolescentes ou pessoas incapazes de consentir. Em 45,5% dos casos, o autor do crime era um familiar da vítima.
Crimes digitais crescem e desafiam Justiça
Enquanto os roubos caíram em quase todas as categorias (veículos, comércio, residências, instituições financeiras), os crimes virtuais dispararam. Foram mais de 2,1 milhões de estelionatos em 2024 — uma alta de 408% em relação a 2018. Isso equivale a quatro golpes por minuto no Brasil. São Paulo, Distrito Federal e Paraná lideram as taxas de golpes por habitante.
O crescimento exponencial das fraudes digitais esbarra na baixa capacidade do sistema de Justiça de processar os crimes, favorecendo a impunidade.
Roubo e furto de celulares segue epidemia urbana
Com quase 918 mil celulares roubados ou furtados em 2024, o crime continua a ser uma das principais preocupações nas grandes cidades. A cidade de São Paulo, sozinha, concentra 18,5% dos casos do país. As maiores taxas per capita foram registradas em São Luís, Belém e Salvador. A maioria dos roubos ocorre em via pública e atinge principalmente negros (63,1%) e pessoas entre 20 e 39 anos.
Sistema prisional e gastos com segurança
O Brasil tem hoje mais de 909 mil pessoas privadas de liberdade, com um déficit de 237 mil vagas no sistema prisional. Cerca de 20,3% da população carcerária trabalha e 13,5% cumpre pena em prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica.
Os gastos com segurança pública aumentaram 6,1%, chegando a R$ 153 bilhões em 2024. Os estados foram responsáveis por R$ 118,5 bilhões, seguidos pela União (R$ 21 bilhões) e municípios (R$ 13,5 bilhões).
Tráfico de drogas e armamento sob vigilância
As apreensões de drogas também cresceram: as polícias estaduais recolheram 1,4 milhão de quilos de maconha e 128 mil quilos de cocaína, enquanto a Polícia Federal apreendeu quase 483 mil quilos de maconha.
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Já no controle de armas, houve queda de 79,4% no número de novos registros de CACs (caçadores, atiradores e colecionadores), mas a PF ainda precisa fiscalizar quase 5,4 milhões de armas, sendo 1,5 milhão vinculadas a CACs. O número de armas de fogo sob gestão da Polícia Federal aumentou 78,1% em relação a 2021.