Venezuela anuncia diálogo com EUA para retomar relações após crise diplomática

Venezuela anuncia diálogo com EUA para retomar relações após crise diplomática
Presidente interina rejeita ordens de Washington na política interna//Instagram
Publicado em 11/01/2026 às 11:57

Da redação de LexLegal

A Venezuela anunciou que vai iniciar um “processo exploratório diplomático” com os Estados Unidos para tentar restabelecer as relações diplomáticas entre os dois países, rompidas desde 2019. A informação foi divulgada pelo chanceler Yván Gil, que afirmou que o diálogo terá como eixo central a discussão sobre a recente intervenção norte-americana no país, incluindo o que o governo venezuelano chama de “agressão e sequestro do Presidente da República e da Primeira-Dama”, além da construção de uma agenda de trabalho de interesse mútuo.

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O comunicado foi divulgado quase uma semana depois da operação militar dos Estados Unidos em território venezuelano, que resultou na prisão do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, no último sábado (3). Desde então, a crise ganhou dimensão internacional, com reações de governos da América Latina e debates sobre violação de soberania, imunidade de chefes de Estado e uso da força armada em território estrangeiro.

No texto divulgado pelo governo venezuelano, a operação é classificada em termos duros. “O Governo da República Bolivariana da Venezuela reitera a denúncia a nível internacional que foi vítima de uma agressão criminosa, ilegítima e ilegal contra o seu território e o seu povo, ação que deixou mais de uma centena de mortes de civis e militares, que em defesa da Pátria, foram mortos em flagrante violação do direito internacional”.

Na sequência, o comunicado afirma que a prisão do presidente e da primeira-dama viola princípios centrais da ordem jurídica internacional. “Como é de conhecimento, no âmbito desta agressão, ocorreu o sequestro ilegal do Presidente Constitucional da República, Nicolás Maduro Moros, e da Primeira-Dama, Cilia Flores, fato que constitui uma grave violação da imunidade pessoal dos chefes de Estado e dos princípios fundamentais da ordem jurídica internacional”.

O governo venezuelano sustenta que o processo de retomada do diálogo com os Estados Unidos terá como base o direito internacional e a soberania nacional. Segundo o texto, a iniciativa busca tratar da situação “no marco do direito internacional” e em “estrito apego aos princípios da soberania nacional” e da diplomacia de paz defendida pela Venezuela.

Apesar do tom crítico, o anúncio de um processo diplomático indica que Caracas pretende abrir canais institucionais de negociação, mesmo em meio à maior crise política e militar entre os dois países nas últimas décadas. As relações diplomáticas entre Venezuela e Estados Unidos foram rompidas em 2019, quando Washington deixou de reconhecer o governo de Maduro e passou a apoiar a oposição venezuelana.

Desde então, não há embaixadas em funcionamento entre os dois países, e qualquer contato oficial vinha ocorrendo por canais indiretos ou informais. A eventual retomada das relações exige uma série de etapas técnicas, como a definição de representantes diplomáticos, reabertura de missões, garantias de segurança e reconhecimento formal das autoridades envolvidas.

No comunicado, o chanceler Yván Gil afirma que a retomada do diálogo não significa recuo nas acusações feitas contra os Estados Unidos, mas a tentativa de enfrentá-las dentro das regras do direito internacional e por meios diplomáticos. A estratégia busca combinar denúncia política e abertura institucional, sem recorrer a escaladas militares.

O caso ganhou repercussão regional. O governo brasileiro classificou o sequestro de Nicolás Maduro como um fato grave durante reunião extraordinária do Conselho Permanente da Organização dos Estados Americanos. Na ocasião, o embaixador do Brasil junto à entidade, Benoni Belli, afirmou que o momento atual remete a práticas que muitos consideravam superadas na América Latina e no Caribe.

Diante do cenário, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva passou a articular contatos com outros líderes da região. Na quinta-feira (8), Lula recebeu uma ligação do presidente da Colômbia, Gustavo Petro, para discutir a situação. Brasil e Colômbia são os dois países que compartilham as maiores fronteiras terrestres com a Venezuela, com mais de dois mil quilômetros cada uma, o que torna o impacto regional da crise ainda mais sensível.

Em nota, o Palácio do Planalto informou que “os dois mandatários manifestaram grande preocupação com o uso da força contra um país sul-americano, em violação ao direito internacional, à Carta das Nações Unidas e à soberania da Venezuela. E destacaram que tais ações constituem um precedente extremamente perigoso para a paz e a segurança regionais e para a ordem internacional”.

No plano institucional norte-americano, a crise também provocou reações internas. O Senado dos Estados Unidos aprovou uma resolução determinando a interrupção do uso da força contra a Venezuela sem autorização expressa do Congresso. O texto estabelece limites ao poder do Executivo norte-americano para empregar as Forças Armadas em operações militares no exterior sem respaldo legislativo.

“Esta resolução conjunta orienta o Presidente a cessar o uso das Forças Armadas dos EUA em hostilidades dentro ou contra a Venezuela, a menos que uma declaração de guerra ou autorização para o uso da força militar para tal fim tenha sido promulgada”, diz o documento aprovado.

A iniciativa reforça que, além das controvérsias no campo do direito internacional, a intervenção na Venezuela também gera disputas jurídicas dentro do próprio sistema constitucional dos Estados Unidos, envolvendo a separação de poderes e os limites da autoridade presidencial.

Em outro desdobramento, o presidente norte-americano Donald Trump afirmou que seu país pode controlar por anos a receita proveniente da venda de petróleo venezuelano. Em entrevista ao The New York Times, ele disse que os Estados Unidos já se apropriaram de cerca de 50 milhões de barris de petróleo da Venezuela, que seriam destinados ao refino e à venda.

A declaração acrescenta uma dimensão econômica à crise. O controle sobre o petróleo venezuelano, principal fonte de receita externa do país, aparece como um elemento central da disputa geopolítica. Para Caracas, esse tipo de ação representa não apenas uma agressão política, mas também uma tentativa de asfixia econômica.

Nesse contexto, o “processo exploratório diplomático” anunciado pela Venezuela surge como uma tentativa de reconstruir algum grau de previsibilidade institucional em uma relação marcada por confrontos, sanções, acusações de ilegalidade e intervenções diretas.

O uso da expressão “exploratório” indica que ainda não há um formato definido para as negociações. Trata-se de uma fase preliminar, voltada a testar a disposição das partes para retomar canais formais de comunicação e estabelecer uma agenda mínima comum.

A proposta venezuelana combina três eixos principais: a denúncia internacional da operação militar, a exigência de respeito à imunidade de chefes de Estado e a construção de um caminho diplomático para reorganizar as relações bilaterais. É uma tentativa de transformar uma crise militar em um conflito político negociado.

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A depender do desfecho desse processo, a crise entre Venezuela e Estados Unidos pode marcar uma inflexão importante na diplomacia regional. A retomada de relações, mesmo parcial, teria impacto direto sobre temas como sanções econômicas, comércio de petróleo, migração, segurança regional e estabilidade política na América do Sul.

SÃO PAULO WEATHER