Uso “sem freio” de IA nas escolas preocupa e expõe falta de regras no Brasil

Uso “sem freio” de IA nas escolas preocupa e expõe falta de regras no Brasil
© Ana/Cetic.br
Publicado em 18/01/2026 às 16:30

Da redação de LexLegal

O uso de ferramentas de inteligência artificial por alunos e professores do ensino médio brasileiro ocorre de forma intensa, ampla e praticamente sem qualquer tipo de mediação institucional, segundo aponta o estudo qualitativo “Inteligência Artificial na Educação: usos, oportunidades e riscos no cenário brasileiro”, elaborado pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), do NIC.br. A pesquisa, realizada em escolas públicas e privadas das capitais de São Paulo e Pernambuco, revela que a tecnologia já se incorporou ao cotidiano escolar, mas sem diretrizes claras, protocolos pedagógicos ou políticas públicas que orientem seu uso seguro, ético e pedagógico.

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O levantamento aprofunda dados divulgados anteriormente pela pesquisa TIC Educação, que já havia mostrado que a IA generativa é usada por 70% dos estudantes do ensino médio — cerca de 5,2 milhões de alunos — e por 58% dos professores no país. A diferença agora é que o estudo qualitativo detalha como essa adoção ocorre no cotidiano: de maneira espontânea, sem supervisão e com finalidades que vão muito além do apoio escolar tradicional.

“Um uso quase selvagem, porque eles usam para tudo, desde pesquisar uma palavra, até entender uma dor que estão sentindo, receita, lembrete, para várias atividades escolares, anotações, para fazer resumo, para realizar tarefas inteiras, até para suporte emocional. Eles falam bastante disso também, que usam como terapeuta, como conselheiro. Enfim, um uso bastante diverso e amplo do ponto de vista dos alunos”, afirmou à Agência Brasil a coordenadora da pesquisa, Graziela Castello.

O trabalho de campo foi realizado entre junho e agosto de 2025, e os resultados foram apresentados nesta terça-feira (25), durante o seminário INOVA IA 2025, no Rio de Janeiro. Segundo Graziela, tanto estudantes quanto professores demonstram grande interesse pela tecnologia, mas avançam praticamente sozinhos, sem apoio estruturado das instituições educacionais.

“E eles querem informação, querem saber como usar de maneira ética, segura, sem riscos”.

De acordo com a coordenadora, o ponto comum entre docentes e discentes é justamente a ausência de orientação formal. O uso é massivo, mas ocorre “sem nenhuma mediação, sem orientação, sem supervisão ou regramento dado pelas escolas ou por outras instituições”.

Para o Cetic.br, esse cenário indica a necessidade urgente de criação de políticas públicas, regimentos internos e protocolos pedagógicos que estabeleçam limites mínimos e critérios claros para o uso da inteligência artificial no ambiente educacional. Isso inclui tanto normas quanto programas de formação continuada para professores e ações de letramento digital para estudantes.

“Daí a necessidade de investir em formação, mas também em regulação, como uma maneira de dar normas e orientações para que as pessoas, nesse primeiro momento, saibam como fazer e o que não fazer e ter um pouco mais clareza para começar a navegar nesse universo”, explicou.

O estudo mostra ainda que, ao contrário do processo de entrada da internet na vida cotidiana, que ocorreu de maneira gradual, a IA chegou às escolas de forma abrupta.

“A IA entrou chutando a porta. Entrou e eles usam, e usam mesmo, mas também reconhecem os riscos desse uso”, disse Graziela.

Entre os alunos, apesar do entusiasmo, há receios claros. Eles demonstram medo de perder autonomia intelectual, de “emburrecer”, de se tornarem dependentes das ferramentas e de ver sua criatividade e identidade diluídas.

“(Medo) de que, agora, o processo fique tão pasteurizado que eles percam a nuance daquilo que são.”

Segundo a pesquisa, esse sentimento é relevante porque indica consciência crítica sobre a tecnologia. Os estudantes não rejeitam a IA, mas pedem informação e orientação para usá-la de forma mais responsável.

Do lado dos professores, a relação com a IA também é ambivalente. Eles já utilizam ferramentas generativas para preparar aulas, criar exercícios, organizar conteúdos e reduzir tarefas repetitivas.

“Eles reconhecem que tem um potencial forte para redução de tarefas repetitivas, como suporte para conseguir ter outros recursos, atividades mais alternativas, inclusive para gradações de tarefas.”

A pesquisa aponta que a tecnologia pode favorecer a personalização do ensino, permitindo atividades diferenciadas conforme o nível de aprendizagem dos alunos e ampliando a inclusão de estudantes com deficiência, por meio da adaptação de materiais didáticos.

Ainda assim, esse uso ocorre de maneira experimental, individualizada e sem respaldo institucional. Professores relatam insegurança, falta de formação específica e receio de que a IA esteja prejudicando o aprendizado.

“Eles sabem que os alunos estão usando a IA, mas não sabem como mediar esse uso e, portanto, ficam sem ação.”

Segundo Graziela, os educadores relatam que já percebem impactos negativos, especialmente na escrita, na produção de textos autorais e no domínio da linguagem. Há também preocupação com o uso da IA como suporte emocional, função que não deveria ser desempenhada por sistemas automatizados.

“Eles querem informação. Acham que a escola é lugar para formação de alunos e professores, mas também se sentem sobrecarregados.”

Outro eixo central do estudo é a reprodução de desigualdades. A IA tende a aprofundar disparidades já existentes entre alunos de escolas públicas e privadas. A principal diferença está na infraestrutura digital.

Alunos da rede privada, em geral, têm acesso a computadores, internet de melhor qualidade e versões pagas das ferramentas, que oferecem recursos mais sofisticados. Já estudantes que dependem exclusivamente do celular enfrentam limitações técnicas importantes.

“Fundamentalmente, você tem ainda a reprodução de desigualdades em infraestrutura digital que vão ampliar, se não forem contornadas, ainda mais essa desigualdade de oportunidades entre escolas públicas e privadas.”

A coordenadora também alerta para a necessidade de pensar soberania tecnológica. Uma das questões centrais é saber quem controla os dados utilizados pelas plataformas de IA e se essas ferramentas estão adaptadas ao contexto brasileiro.

“Será que a gente tem tecnologia própria que garanta que estamos sendo fidedignos aos problemas internos do Brasil?”

Segundo Graziela, o letramento digital é a primeira etapa para qualquer política pública eficaz.

“Acho que a primeira fase é dar letramento, conhecimento para a população como um todo sobre o que significa essa tecnologia, como ela é construída, quem detém esses dados hoje em dia, quem são os donos das informações.”

Ela resume o desafio afirmando que a sociedade está sendo obrigada a se adaptar em movimento.

“A questão é que a coisa entrou com uma velocidade e a gente vai ter que trocar a roda do carro com ele andando.”

Por fim, o estudo destaca que a formação crítica dos estudantes é indispensável. Eles precisam aprender a verificar informações, identificar erros factuais, reconhecer vieses e compreender os limites éticos da tecnologia.

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“Eles entendem que há erros factuais, expressões preconceituosas e negativas, que não conseguem gerenciar.”

O desafio, conclui a pesquisa, não é impedir o uso da inteligência artificial, mas construir condições para que ela seja integrada ao processo educacional de forma consciente, crítica, segura e socialmente justa.

SÃO PAULO WEATHER