Uso de motos cresce no Brasil e expõe problema de mobilidade e segurança no trânsito

Uso de motos cresce no Brasil e expõe problema de mobilidade e segurança no trânsito
O aumento do uso de motos no Brasil, muitas vezes visto como alternativa rápida e acessível, é também um reflexo da falta de opções seguras de transporte coletivo/Tânia Rêgo/Agência Brasil
Publicado em 10/08/2025 às 14:30

Da redação de LexLegal

No início de 2024, a diarista Laura Maria de Oliveira, de 59 anos, vivia um momento de realização profissional: havia acabado de conquistar um emprego com carteira assinada como empregada doméstica. No dia 1º de março, deixou sua casa em Cascadura, na zona norte do Rio de Janeiro, rumo à residência dos patrões na Tijuca. Para economizar tempo, optou por uma corrida em moto de aplicativo — alternativa que costumava reduzir em cerca de uma hora o trajeto por conta da agilidade no trânsito.

No entanto, naquela manhã, o deslocamento terminou em acidente. Um carro mudou de faixa sem sinalizar e atingiu a moto. “Eu cheguei a ver o carro fechando a gente e apaguei. A minha sorte é que o trânsito estava muito parado e ele não estava em alta velocidade. Mas, antes disso, o motoqueiro estava correndo muito. Eu usei muito esse serviço, e, em praticamente todas as vezes, eles corriam muito e ficavam olhando o celular. Um risco muito grande.”

Laura sofreu fraturas no úmero e na clavícula, além de lesão no nervo radial, ficando 14 dias internada aguardando cirurgias. Um ano e cinco meses depois, ainda segue em tratamento no Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into) e se prepara para um terceiro procedimento. “Pra mim, não existe mais esse transporte. Eu tenho um filho que tem moto, e nem com o meu filho eu ando mais. Não quero mais passar por isso na minha vida.”

Motocicletas: solução de mobilidade ou risco constante?

O aumento do uso de motos no Brasil, muitas vezes visto como alternativa rápida e acessível, é também um reflexo da falta de opções seguras de transporte coletivo. Para o especialista da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas)Victor Pavarino, o fenômeno está ligado a um modelo urbano moldado para o carro desde os anos 1950 e hoje em colapso. “É difícil dizer que não se deve usar motos, enquanto, em muitos casos, ela é a única forma de chegar em casa ou garantir o sustento.”

Dados da Abraciclo mostram que a frota nacional de motos cresceu 42% entre 2015 e 2024, chegando a 35 milhões de unidades. Apenas em 2024, houve aumento de 18,6% nas vendas, e a previsão é ultrapassar 2 milhões de emplacamentos em 2025.

Alta mortalidade no trânsito

Atlas da Violência 2025 revela que, em 2023, das 34.881 mortes no trânsito, 13.477 envolveram motocicletas — ou seja, uma em cada três vítimas. Em estados como o Piauí, onde as motos representam mais de 50% da frota, elas estão ligadas a quase 70% dos óbitos.

Para Pavarino, é necessário agir em duas frentes: fortalecer o transporte público e adotar medidas imediatas de segurança, como uso de capacete, roupas refletoras, inspeções veiculares e freios ABS.

“Epidemia” de acidentes

Segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, até 75% das UTIs adultas em hospitais gerais recebem vítimas de trânsito, majoritariamente motociclistas. “Não tem hospital que dê conta se a gente não conseguir enfrentar essa verdadeira epidemia de acidentes de moto.” Ele defende parcerias com aplicativos para reduzir infrações e facilitar o acesso à CNH, já que metade dos condutores não possui habilitação. Com informações da Agência Brasil.

SÃO PAULO WEATHER