Uma tragédia anunciada no Oriente Médio

Uma tragédia anunciada no Oriente Médio
Há espaço real para a diplomacia quando a alternativa explícita colocada à mesa é o uso da força?/Freepik
Publicado em 27/02/2026 às 11:30

José Renato Ferraz da Silveira*

Uma tragédia anunciada quase nunca começa com explosões ou declarações formais de guerra. Ela se forma em silêncio. Primeiro surgem sinais discretos, depois alertas técnicos, análises cautelosas e inquietações que muitos preferem ignorar.

Quando o inevitável acontece, resta a sensação amarga de que tudo poderia ter sido diferente. A história das relações internacionais é marcada por esse roteiro: crises previsíveis que amadurecem lentamente até o ponto em que a política já não consegue conter a força dos acontecimentos.

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O Irã vive um desses momentos decisivos nas rodadas de negociações nucleares com autoridades dos Estados Unidos. Os encontros ocorrem sob tensão máxima e sob a sombra de uma possibilidade dramática.

O presidente norte-americano, Donald Trump, voltou a sinalizar que uma ação militar pode ser considerada caso a diplomacia fracasse. A ameaça não é lateral nem retórica vazia. Ela integra o cálculo estratégico explicitamente associado ao insucesso das conversas.

Esse padrão não é novo. A política externa de Trump se caracteriza pela combinação entre pressão máxima, linguagem agressiva e a evocação constante do uso da força como instrumento legítimo de negociação. A diplomacia deixa de ser um espaço de construção gradual de consensos e passa a funcionar como uma arena de intimidação permanente. Negocia-se sob ameaça, não sob confiança.

Do lado iraniano, o discurso público segue cautelosamente otimista. O presidente Masoud Pezeshkian afirmou enxergar possibilidades reais de um resultado positivo. O chanceler Abbas Araqchi declarou que um acordo é viável, desde que a diplomacia seja, de fato, priorizada. A mensagem de Teerã é clara: existe disposição para negociar, mas não para aceitar imposições absolutas sob coerção.

O impasse central, portanto, não é apenas técnico. Não se resume a níveis de enriquecimento de urânio, regimes de inspeção ou mecanismos de verificação. O problema é político e estrutural. Há espaço real para a diplomacia quando a alternativa explícita colocada à mesa é o uso da força?

O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, afirmou esperar uma reunião produtiva. Na mesma fala, advertiu que o Irã enfrentará “um grande problema” caso se recuse a discutir o alcance de seus mísseis. A contradição é evidente. O discurso diplomático convive com a lógica da intimidação estratégica, enfraquecendo a própria credibilidade do processo.

Esse modelo de negociação se aproxima perigosamente de uma proposta que não pode ser recusada. O interlocutor é convidado a aceitar termos definidos previamente, sob a sombra de consequências potencialmente devastadoras. Não se trata de persuasão, mas de assimetria de poder aplicada à mesa de negociação. O risco é transformar a diplomacia em um instrumento de coerção, esvaziando sua função essencial.

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Sob essa perspectiva, o atual impasse carrega todos os elementos de uma tragédia anunciada. Os sinais estão visíveis: escalada retórica, desconfiança acumulada, pressão por concessões rápidas e redução do espaço para soluções intermediárias.

Cada rodada é tratada como decisiva, o que paradoxalmente aumenta a chance de fracasso. Quando o tempo político se acelera artificialmente, a diplomacia perde sua capacidade de produzir soluções graduais e sustentáveis.

O aspecto mais inquietante é a previsibilidade do risco. Analistas, diplomatas e estudiosos alertam há anos que a combinação entre o programa nuclear iraniano, as preocupações de segurança regional e a estratégia de pressão máxima poderia produzir um cenário explosivo.

Nada disso surge de forma repentina. Trata-se de um conflito que amadurece lentamente, alimentado por ciclos sucessivos de desconfiança e decisões que, isoladamente, parecem racionais, mas que, juntas, conduzem ao impasse.

Uma eventual ação militar teria consequências que extrapolariam em muito o confronto direto. O impacto geopolítico incluiria a desestabilização mais ampla do Oriente Médio, pressão imediata sobre os preços globais de energia, radicalização política interna no Irã e enfraquecimento duradouro dos mecanismos internacionais de não proliferação nuclear. Em vez de encerrar a questão, um ataque poderia acelerar exatamente o processo que se pretende conter.

Há também uma dimensão jurídica relevante. Uma ação militar preventiva levantaria questionamentos complexos no direito internacional, especialmente quanto ao uso da força sem autorização expressa do Conselho de Segurança da ONU.

O conceito de autodefesa preventiva segue altamente controverso e, se aplicado de forma unilateral, tende a corroer ainda mais as bases normativas do sistema internacional.

Mais do que uma negociação nuclear, o momento atual testa os limites da diplomacia em um mundo marcado por assimetrias de poder e rivalidade estratégica crescente. A pergunta central permanece aberta: a diplomacia ainda é capaz de produzir soluções duradouras quando conduzida sob ameaça constante?

Talvez essa seja a essência das tragédias anunciadas. Não o desastre em si, mas a consciência tardia de que houve tempo para mudar o rumo. Alguém viu os sinais. Alguém alertou. Entre perceber o perigo e agir para evitá-lo, porém, existe uma distância que a política nem sempre consegue atravessar.

A crise poderá ser lembrada como mais um episódio tenso superado pela diplomacia. Se fracassar, pode marcar o início de um novo ciclo de confrontação, cujos efeitos dificilmente ficarão restritos a Washington e Teerã.

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E então, como tantas vezes na história, diremos que os sinais estavam lá desde o início. Que era possível prever. Que era possível evitar. Que foi, no fim, mais uma tragédia anunciada.

*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-2).

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