Um dos maiores fundos de venture capital do mundo decretou o fim do software como serviço

Priscila Spadinger*

Terça-feira, li um artigo publicado pela Sequoia Capital, uma das gestoras de venture capital mais respeitadas do mundo (investidora da Enter, única LegalTech AI first unicórnio da América Latina), com um título que parece piada, mas é tese de investimento: “Services: The New Software”, ou “Serviço é o novo software”. A primeira frase do texto é ainda mais direta: a próxima empresa de US$ 1 trilhão vai ser uma empresa de software disfarçada de empresa de serviços.
Fechei a leitura, abri o grupo interno da Aleve e escrevi uma única frase: gente, eles acabaram de descrever a gente.
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Porque enquanto o mercado de tecnologia jurídica brasileiro ainda pergunta qual software comprar, o Vale do Silício já decidiu que a pergunta certa é outra: quem entrega o resultado pronto, sem eu precisar operar ferramenta nenhuma?
O que a Sequoia acabou de dizer, em bom português
A tese é simples de entender e incômoda de aceitar. Segundo a Sequoia, existem hoje dois tipos de empresa de inteligência artificial. A copiloto vende ferramenta: você compra o software e continua fazendo o trabalho, só que mais rápido. A auto piloto vende o resultado: você compra o trabalho pronto e nem precisa saber que existe um software por trás.
A diferença entre as duas não é sutileza de marketing. É sobrevivência. Quem vende ferramenta corre uma corrida constante contra a próxima versão do modelo de IA, porque a qualquer momento aquele software vira uma funcionalidade dentro de outro produto maior. Quem vende trabalho fica mais forte a cada modelo novo, porque cada avanço técnico deixa a entrega mais rápida, mais barata e mais difícil de copiar.
Quem vende ferramenta corre contra o modelo. Quem vende trabalho fica mais forte a cada versão nova dele.
A Sequoia também separa dois tipos de trabalho dentro de qualquer profissão: inteligência e julgamento. Inteligência é regra complexa, mas regra: redigir uma minuta padrão, triar um contrato, classificar um documento, montar um checklist de conformidade. Julgamento é outra coisa: é decidir o que fazer com aquela informação, é instinto construído em anos de prática, é a parte do trabalho que exige experiência, não processamento.
A conclusão do artigo é direta: a inteligência artificial já é boa o suficiente para assumir a parte de inteligência em praticamente qualquer profissão. Quanto maior a proporção de inteligência dentro de uma área, mais rápido ela vai deixar de vender ferramenta e passar a vender resultado pronto.
O jurídico já está no raio-x da Sequoia, e o número assusta
O relatório da Sequoia mapeia os maiores mercados de serviços do mundo pela proporção entre inteligência e julgamento, e pelo quanto cada um já é terceirizado hoje. Trabalho jurídico transacional, contratos, NDA, peças regulatórias, aparece nesse mapa como um mercado de US$ 20 a 25 bilhões só nos Estados Unidos, considerado altamente automatizável porque é intensivo em inteligência e já costuma ser terceirizado para fora da empresa.
Empresas como Harvey, Crosby e Lawhive são citadas nominalmente como quem está correndo para transformar cópiloto jurídico em autopiloto jurídico, vendendo direto para quem precisa do contrato pronto, não para o escritório que o redige.
Enquanto isso, o mercado global de legaltechs deve chegar a US$ 68 bilhões até 2034, crescendo 8,7% ao ano, e as legaltechs com inteligência artificial devem crescer 31% ao ano até 2029. No Brasil, já são mais de 600 startups ativas no setor, segundo a AB2L. Isso não é mais nicho de painel de congresso. É tese de investimento validada por quem move os maiores fundos do planeta.
A Aleve nunca vendeu ferramenta. Sempre vendeu resultado.
Aqui está a parte que me fez escrever este artigo com uma pressa que raramente sinto. A Aleve nasceu em 2021 com uma tese que, na época, parecia teimosia: não adianta construir tecnologia sem antes entender a dor de quem vai usar. Sempre fizemos isso ao contrário do que o mercado de software tradicional ensinava. Não vendemos licença de uso. Vendemos serviço com tecnologia embutida dentro.
Cada legaltech que investimos nasce de uma pergunta de negócio, não de uma funcionalidade de produto. A tecnologia que automatiza redação, análise e revisão contratual não foi construída para o jurídico operar mais um sistema. Foi construída para o jurídico parar de fazer o trabalho manual e simplesmente receber o contrato pronto. A mesma lógica vale para a solução que monitora conformidade trabalhista em tempo real dentro do RH, e para a que protege o caixa da empresa checando fornecedor e validando documento no financeiro.
Enquanto o mercado perguntava qual software comprar, a gente sempre perguntou: qual problema o seu time não aguenta mais resolver sozinho?
O que a Sequoia chama de autopilot playbook, a Aleve chama de método. Entender a dor antes de escrever a primeira linha de código. Não é coincidência que isso hoje tenha nome em inglês e vire manchete de fundo de Vale do Silício. É validação de uma tese que a gente já defendia sozinha há cinco anos.
Por que isso não é assunto só de advogado
Se você é dono de empresa, diretor financeiro ou diretor de RH e está lendo este artigo até aqui achando que ele não é para você, pare e reconsidere. A lógica da Sequoia é clara: o trabalho que já é terceirizado hoje é o primeiro a virar autopilot, porque o orçamento já existe, a decisão de comprar de fora já foi tomada e a substituição do fornecedor é simples. Trocar quem faz o contrato, quem monitora a folha, quem audita o fornecedor, é troca de fornecedor. Trocar o quadro interno é reestruturação.
Isso significa que o jurídico terceirizado da sua empresa, o RH que audita compliance trabalhista de fora, o financeiro que paga consultoria para fechar o balanço, são exatamente os pontos onde a inovação vai entrar primeiro, e mais rápido do que a maioria das lideranças está prevendo.
Quem decide comprar tecnologia jurídica hoje não está mais só dentro do departamento jurídico. Está no RH que precisa de compliance automatizado. Está no financeiro que precisa proteger caixa. Está no dono da empresa que já entendeu, em qualquer outra área do negócio, que comprar resultado é mais rápido do que comprar ferramenta e treinar time para usá-la.
O ser humano que sobra depois do software
Aqui mora o ponto que mais me importa, e que o próprio artigo da Sequoia toca sem aprofundar. Se a inteligência artificial assume a parte de inteligência do trabalho, o que sobra para o ser humano é exatamente a parte que faz dele insubstituível: julgamento, relação, decisão sob incerteza, responsabilidade por aquilo que assina.
A inteligência artificial não tira o advogado da sala. Tira da mesa dele a minuta repetitiva, a triagem manual, o contrato que já deveria estar pronto há três dias. E devolve o tempo para a única coisa que nenhum modelo faz sozinho: decidir o que fazer com aquela informação, olhando para o cliente, para o negócio, para as pessoas envolvidas.
A inteligência artificial não tira o advogado da sala. Tira o trabalho repetitivo da mesa dele e devolve o tempo para decisão que só um ser humano sabe tomar.
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A pergunta que fica
A Sequoia Capital, com todo o peso que tem no mercado global de venture capital, acabou de validar em texto o que a Aleve pratica desde a fundação: o futuro não pertence a quem vende mais uma licença de software. Pertence a quem entende a dor de quem compra, embute tecnologia dentro do serviço e entrega resultado, não ferramenta.
A pergunta que fica para você, esteja no jurídico, no RH, no financeiro ou na cadeira de CEO, é simples: sua empresa ainda está comprando software, ou já está comprando resultado?
Eu escolhi construir do jeito que o mercado agora está validando. Convido você a construir junto.
*Priscila Spadinger é CEO da Aleve LegalTech Ventures S/A, advogada, palestrante e professora de M&A e Venture Capital.
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