Trump, Zelensky e as lições do passado: um jogo de poder à beira do caos…

José Renato Ferraz da Silveira*

O dia 28 de fevereiro de 2025 ficará marcado na História. Um dia sombrio para o mundo. Um dia em que a Diplomacia e o Direito Internacional foram solapados com uma “proposta absurda” dos Estados Unidos. É o dia da chantagem! O dia que a Otan acabou?
O dia em que Rússia e Estados Unidos – rivais históricos – tramaram um acordo “secreto” e não combinaram com a parte mais interessada (Ucrânia).
De fato, o mundo em 2025 – como já escrevi neste espaço – não será entediante.
Pois bem, após uma acalorada discussão, Estados Unidos e Ucrânia não assinaram o acordo sobre a exploração das terras raras ucranianas.
A semiótica da emboscada
As imagens de um Zelenksy acuado (resistente e humilhado) diante de um Trump arrogante sugerem que o governo americano considerava (previamente) o diktat como a única opção na mesa para a Ucrânia.
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Realmente foi uma verdadeira emboscada para causar constrangimento e rendição total ao líder ucraniano. Foi um espetáculo trágico, um reality show regado a gritos, insultos, mentiras e gestos agressivos transmitidos para o mundo todo.
Trump age midiaticamente através da palavra e da imagem. Recorre, aos meios do espetacular, através de uma construção do real pela encenação. A linguagem é oportunista e a retórica ajusta-se às circunstâncias.
Como diz Balandier: “a mediatização intensiva faz da palavra a coisa mais banalizada; a inflação das palavras, das mensagens, enfraquece-as e obriga-os a uma procura intensiva de uma renovação dos meios de expressão. A perda é tal que faz aparecer uma nova e rara profissão ainda que discreta: a do “mediascópio”; um dispositivo técnico que serve para medir o impacto das mensagens numa amostra reduzida de pessoas, uma montagem informática trata as informações, um banco de dados armazena os resultados para uso de futuros utilizadores. Os políticos recorrem a eles para preparar as suas intervenções destinadas ao grande público, admitindo, assim que a forma da mensagem prevalece sobre a sua substância”.
Como alertou Fernanda Magnotta, Trump utiliza a abordagem “flood the zone” no qual “representa a sofisticada da dinâmica da mídia contemporânea (…) sobrecarrega o discurso público com um fluxo constante de declarações, controvérsias e alegações. Trump cria um ambiente no qual a verificação de fatos se torna praticamente impossível, e os mecanismos tradicionais de supervisão entram em colapso. Isso não é apenas sobre espalhar desinformação; é sobre controlar a narrativa por meio do volume e da velocidade”.
Trump tentou através do “poder em cena” no acontecimento de hoje mostrar que é um habilidoso negociador. Será que é?
O apoio dos europeus a Zelenksy
Rapidamente, os líderes europeus reagiram em apoio a Zelenksy. Vale destacar que os encontros de Trump com Macron e Starmer foram cheios de signos e significados. Por exemplo, a correção de Macron – com um leve toque nas pernas de Trump e um sorriso triunfante – em relação aos gastos dos europeus na Guerra entre Ucrânia e Rússia. O que vocês acharam?
A realpolitik de Trump e as cartas
Na visão da realpolitik de Trump (e Putin): Zelenksy não tem cartas para jogar. Na visão do presidente americano, somente líderes e países fortes têm grandes jogadas e mais fichas.Países menores, como a Ucrânia, não têm cartas suficientes e fichas para dobrar a aposta e blefar. O blefe é parte do jogo político e uma astuta tática para se manter no “game”.
Outro ponto a destacar é que Trump ao afirmar que Zelensky não foi “grato o suficiente” e que “ele está apostando com a vida de milhões de pessoas. Você está apostando com a Terceira Guerra Mundial, e o que você está fazendo é muito desrespeitoso com este país, um país que te apoiou muito mais do que muitos disseram que deveriam”. É lógico que Trump fez uma jogada de manipulação, intimidação e chantagem emocional. Trump é um negociador caótico (chaotic negotiator).
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A estratégia do caos de Trump
De certa forma, “a estratégia do caos” de Trump – “ao criar um cenário constante de incerteza e conflito e de vantagem sobre seus oponentes” (Fernanda Magnotta) – fracassou nesta “primeira” reunião entre os Estados Unidos e a Ucrânia. Não esqueçamos que é um erro estratégico subestimar o oponente e contar com uma vitória sem resistência!
Putin – e muitos analistas de Relações Internacionais – devem ter aprendido sobre isso. Trump ao dizer que o ucraniano “não está no direito de ditar nada” colocou o presidente Zelenksy numa encruzilhada trágica: “aceite o acordo ou não conte mais conosco”.Os próximos passos dessa dramática cena política internacional é como Zelenksy e a Europa reagirão a esse “all in” de Trump.
Restam poucas cartas para o líder ucraniano? E como França, Alemanha e Grã-Bretanha lidarão com Trump e Putin? É inegável que teremos um aumento substancial nos gastos de defesa dos países? Estamos à beira da III Guerra Mundial?
Lições da História
A história pode nos ajudar a adquirir sabedoria e também nos sugerir qual será o possível (ou provável) resultado de nossas ações. De fato, não há esquemas predefinidos na história que possam nos ajudar a moldar o futuro que desejamos. Cada evento histórico é um conjunto singular de fatores, pessoas ou cronologia. É inegável que pelo exame do passado podemos tirar lições úteis sobre como proceder e ser alertados acerca do que pode ou não acontecer.
Por essa razão, devemos ser cuidadosos e lançar nossa análise de forma mais ampla possível. Ou seja, se olhamos apenas para as lições que reforçam as que decisões que já tomamos, teremos sérios problemas.
Em maio de 1941, Stalin se recusou a ouvir diversos alertas – o serviço secreto russo enviou mais de 80 avisos ao Kremlin sobre as intenções de Hitler – que chegavam de todos os cantos dizendo que os alemães se preparavam para atacar a União Soviética. Stalin não desejava uma guerra com a Alemanha porque sabia a quão despreparada estava a União Soviética. Stalin dizia a seu círculo de colaboradores: “Hitler e seus generais não são estúpidos de lutar ao mesmo tempo em duas frentes”.
Um mês mais tarde, as tropas alemãs derrotaram as forças soviéticas que tinham ocupado posições defensivas atrás das fronteiras. É fato que Stalin poderia ter encontrado outras lições no passado se quisesse.
Hitler se mostrou um ousado jogador ao tomar a Áustria e a Tchecoslováquia. E a vitória rápida sobre a França em 1940 serviu apenas para a ideia de que “ele estava sempre certo”. Contudo, não era segredo para ninguém, que seu objetivo de longo prazo era o de avançar para o leste e ganhar território para o povo alemão.
A sua obra Mein Kampf já dizia sobre isso. A história, portanto, se utilizada com inteligência e cautela, pode nos apresentar alternativas e nos ensinar a formular perguntas que precisamos fazer no presente, além de nos alertar sobre o que pode dar errado.
O alerta sobre o que pode dar errado
Por fim, esse episódio lamentável de Trump e Zelenksy revela que, muitas vezes, aqueles que mediam situações de conflito não têm como objetivo a busca da conciliação real e justa de interesses e vontades divergentes.
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Na realidade, o mediador quer se isentar e não se comprometer com a parte mais vulnerável.
E quando a parte mais frágil rejeita o acordo de mediação, a “sensação de alívio e de satisfação” do “mediador mal-intencionado” é alcançada e vem da seguinte frase: “Eu tentei”. A partir daí, o agressor e o mediador parcial podem fazer o que quiserem.
Parece que nesta nova era das Relações Internacionais (da supremacia da realpolitik sobre o Direito Internacional e o multilateralismo), Rússia e Estados Unidos são premiados por serem fortes e incontestáveis. Alguém duvida?
*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-2).
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