Trump vai declarar guerra comercial ao Brasil? O perigo é real.

José Renato Ferraz da Silveira e João Pedro Bandeira Soares*
Na noite de terça-feira (4), Donald Trump fez seu discurso oficial ao Congresso americano.
O discurso seguiu a “cartilha de sempre”: mentiras, uma sucessão de clichês, bodes expiatórios (Zelensky), culpabilização dos governos anteriores (Obama e Biden) e a demonização de imigrantes e outras minorias. “Acabamos com a tirania das políticas da chamada diversidade, equidade e inclusão em todo governo federal. E, de fato, no setor privado e em nossas Forças Armadas”, afirmou Trump.
Chamou atenção – também – no discurso a questão das tarifas.
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Disse Trump que a partir do dia 2 de abril haverá tarifas recíprocas ao Brasil e outros países. O republicano aposta na ofensiva tarifária e no compromisso com ações drásticas. Quem conhece o empreendedor e agora presidente (pela segunda vez) sabe que isso faz parte do ideário negocial de Trump. A lógica de ação é dividida em três etapas: a) criar um ambiente de conflito; b) propor e exigir absurdos; c) ao final, receber concessões.
Trump utiliza do confronto como estratégia para reforçar a sua retórica nacionalista e de líder messiânico, o “homem providencial” (e escolhido) que fará a “América grande novamente”.
Na realidade, o resultado prático é que os Estados Unidos importarão inflação, juros mais altos “numa espiral de impactos no varejo e para os consumidores de outros países, como o Brasil”.
Soma-se a esse cenário turbulento e nebuloso para os Estados Unidos, Brasil e o mundo, que “o dólar caiu frente as principais moedas e marca menor nível em quase três meses”.
Nesta quinta-feira (6), o vice-presidente Geraldo Alckmin reuniu-se virtualmente com o secretário de comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnick.
O encontro ocorre – como já foi dito – após Donald Trump citar nominalmente o Brasil em seu discurso no Congresso como um exemplo de um país que adota “tarifas injustas” contra os produtos norte-americanos.
O governo brasileiro reagiu rapidamente antes que as tarifas sejam impostas contra os bens exportados. O Brasil busca um canal de diálogo e uma solução antes que a ameaça de Trump se transforme em uma guerra comercial.
O Brasil aposta em dois argumentos (bem plausíveis e adequados):
1°) Há praticamente uma década, os americanos acumularam um superávit comercial de US$ 200 bilhões no fluxo com o Brasil. Não há razões para mudanças para quem já está em vantagem comercial.
2°) O governo aplica uma tarifa de 2,7% aos bens americanos e diversos produtos vendidos pelos Estados Unidos entram no mercado nacional isentos de tarifa.
Qual a chance de êxito nesta negociação?
A resposta depende de como Brasília lidará com a dualidade de Trump: um líder que mistura cálculo empresarial com populismo. Por um lado, os dados brasileiros são irrefutáveis, os EUA já dominam a balança comercial, e as tarifas são baixíssimas. Por outro, Trump não busca equilíbrio, e sim espetáculo. Sua estratégia é inflamar a retórica para depois extrair concessões simbólicas, mesmo que irracionais economicamente.
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O Brasil pode evitar uma guerra comercial se souber oferecer a Trump uma “vitória midiática”, como ajustes cosméticos nas tarifas, sem abrir mão de sua posição estratégica. O risco, no entanto, persiste. Trump é imprevisível: sua mentalidade de “negócio” ignora que relações entre países não são transações de curto prazo.
Ao tratar parceiros como adversários, ele desgasta alianças e fragiliza a própria economia americana. A pergunta que fica é: até que ponto o mundo aceitará ser refém de um teatro onde todos perdem, menos o ego de um homem que confunde nação com empresa?
*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-2). João Pedro Bandeira Soares é graduando em Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Membro do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).
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