Trump, Raúl Castro e a nova crise cubana

José Renato Ferraz da Silveira*

A fome raramente derruba regimes. Mas a escuridão, às vezes, derruba. Cuba entrou novamente numa de suas zonas históricas de tensão. Não apenas política. Não apenas econômica. Mas civilizacional. O país vive hoje aquilo que talvez seja o estágio mais perigoso para qualquer governo: a erosão da normalidade cotidiana.
Quando faltam alimentos, sociedades ainda improvisam. Quando falta dinheiro, populações ainda resistem. Mas quando faltam energia, combustível e previsibilidade, o próprio funcionamento da vida social começa lentamente a colapsar. Os recentes acontecimentos envolvendo Washington e Havana simbolizam exatamente essa contradição contemporânea.
Os Estados Unidos acusam criminalmente Raúl Castro de assassinato ao mesmo tempo em que oferecem US$ 100 milhões em ajuda humanitária ao povo cubano. A imagem é quase cinematográfica: uma superpotência que aperta o pescoço econômico da ilha enquanto estende uma mão diplomática carregando alimentos e remédios.
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Em política internacional, porém, contradições frequentemente são instrumentos estratégicos. A lógica americana parece relativamente clara: pressionar o regime, fragilizar a estrutura estatal e simultaneamente tentar preservar uma distinção moral entre o governo cubano e a população cubana.
Não é por acaso que Washington insiste que a ajuda seja distribuída pela Igreja Católica e por organizações humanitárias, e não diretamente pelo Estado cubano. Isso cria canais alternativos de legitimidade social dentro da ilha. Na prática, trata-se também de uma disputa silenciosa por influência política. A crise energética cubana, entretanto, talvez seja hoje mais importante do que qualquer discurso ideológico.
Apagões prolongados possuem um efeito devastador porque destroem algo fundamental para qualquer ordem política: a sensação de continuidade da vida normal.
Sem energia: a economia trava, o transporte entra em colapso, a produção cai, os serviços deterioram e a confiança coletiva evapora lentamente. Foi exatamente isso que ocorreu em diferentes momentos históricos da própria União Soviética e de vários regimes do Leste Europeu antes de seus colapsos políticos.
Ainda assim, a história também ensina outra lição importante: sanções econômicas raramente produzem democratizações automáticas. Cuba sobrevive há décadas sob embargo. Irã sobrevive. Coreia do Norte sobrevive. Venezuela continua resistindo. Estados podem empobrecer profundamente sem necessariamente perder capacidade de controle político.
Donald Trump parece compreender parcialmente essa lógica. Sua estratégia mistura retórica agressiva, pressão econômica máxima e manutenção permanente de uma porta diplomática semiaberta. É uma velha e típica fórmula do poder americano: ameaçar fortemente, negociar seletivamente e manter o adversário permanentemente instável.
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No fundo, a questão cubana ultrapassa Cuba. Ela revela uma das perguntas centrais do século XXI: até que ponto a pressão econômica internacional realmente transforma regimes — ou apenas amplia o sofrimento humano enquanto governos aprendem a sobreviver no caos?
*José Renato Ferraz da Silveira é professor titular da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Doutor e Mestre em Ciência Política pela PUC-SP.
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