Trump mira humoristas e acende alerta sobre erosão democrática nos EUA

José Renato Ferraz da Silveira*

Regimes democráticos fortes são marcados pela presença de critérios mínimos como eleições livres e justas e a garantia de direitos e liberdades civis, como a liberdade de expressão. Nesse sentido, a liberdade de expressão não pode ser só válida quando é a favor exclusivo de um grupo político. Nos Estados Unidos, a liberdade de expressão só pode valer se não há crítica ao presidente Donald Trump.
Vamos aos fatos! Em 17 de julho, Stephen Colbert anunciou que a CBS, maior emissora de TV aberta dos EUA, não apenas deixaria de renovar seu contrato no final da temporada do “The Late Show”, em maio de 2026, como não o substituiria, pondo fim a 33 anos de um dos talk shows mais populares do país, 10 deles com Colbert à frente.
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O segundo personagem desse “enredo conhecido” é Jimmy Kimmel. Ele foi suspenso por tempo indeterminado, na última quarta, pela rede ABC, com seu “Jimmy Kimmel Live”. Agora o terceiro e quarto personagens dessa trama são Jimmy Fallon e Seth Meyers.
O que há em comum entre estes 4 personagens? Humoristas à frente desses programas noturnos de entrevistas e uma tentativa clara do governo Trump 2.0 de controle de quais informações chegam ao público. Nos primeiros duelos, a investida do governo tem sido bem-sucedida.
Ironicamente, Trump diz prezar pela “liberdade de expressão acima de tudo”. Mas há semelhança da lição de cartilha de Hugo Chávez, que cassou (e não causou) licenças de órgãos de mídia venezuelanos, para fazer valer a sua vontade.
No início deste segundo mandato, o presidente dos Estados Unidos vangloriava-se de podar o tamanho do Estado, mas agora ele usa instrumentos do Estado para propósitos pessoais.
Trump também faz uso de outra “lição da cartilha” de como lidar com os desafetos. Incita a opinião pública contra eles e lança mão do principal órgão de regulação da mídia do país, a FCC, para fazer ameaças veladas.
A agência está sob responsabilidade de Brendan Carr, trumpista simpático à ideia de que comediantes não devem criticar o presidente. Um ponto fulcral é que o atual momento das mídias americanas é caracterizado por fusões e aquisições e é justamente a FCC que pode aprovar ou não. Portanto, desagradar a Trump tornou-se um risco financeiro grave com a agência que distribui essas licenças submetida a seu voluntarismo. A tática de estrangulamento financeiro e regulatório é visível e eficaz.
Curiosamente, hoje, dia 19 de setembro, há 73 anos atrás, Charles Chaplin foi acusado de simpatizar com os ideais comunistas – estava de viagem à Europa – e foi proibido de retornar aos Estados Unidos, apesar de morar no país há mais de 30 anos.
O procurador-geral dos Estados Unidos, James P. McGranery, anunciou que Chaplin só poderia retornar se pudesse provar “valor moral”. Foi o que bastou para Chaplin dizer adeus aos Estados Unidos.
O humor está ligado à crítica e à provocação do poder e dos poderosos desde sempre. As melhores comédias no teatro e no cinema retratam como o riso, a zombaria e o escárnio atingem também os reis, nobres e a elite político-econômica.
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Os programas americanos de fim de noite por muitas décadas refinaram essa arte e difundiram sua fórmula para o mundo. Esse cerceamento é mais um episódio do avanço da erosão democrática nos Estados Unidos.
*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-2).
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