Trump intensifica guerra contra a imprensa nos EUA

Trump intensifica guerra contra a imprensa nos EUA
Presidente norte-americano volta a atacar emissoras NBC e ABC e defende que a FCC revogue suas licenças de transmissão, ampliando sua ofensiva contra a imprensa livre nos Estados Unidos/Freepik
Publicado em 26/08/2025 às 11:00

José Renato Ferraz da Silveira*

A política é – em parte – um teatro de ilusão. Novos nomes e novos conceitos são fáceis de inventar ou de reinventar. No século XX, versões totalitárias do sonho despótico construíram vasto laboratório político em que diferentes versões do projeto de criar uma “sociedade perfeita” foram colocadas à prova.

A essência do despotismo é que não há apelação, prática ou legal, contra o poder irrestrito do senhor. O único objetivo dos “súditos” deve ser o de agradar. Não há parlamento, oposição, imprensa livre, judiciário independente, propriedade privada protegida pela lei contra a rapacidade do poder.

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Com Trump no poder, há sinais evidentes que os Estados Unidos trilham o caminho do despotismo. Com um Congresso fraco e um Judiciário muito mais fraco e sem ação, Trump abusa dos decretos. A Suprema Corte ainda fortaleceu a posição do presidente norte-americano ao limitar a autoridade dos juízes de instâncias inferiores para bloquear ordens dele em todo o país.

Mesmo assim, uma pesquisa do Instituto PRRP (Instituto de Pesquisa de Religião Pública) mostrou que 52% dos cidadãos norte-americanos acreditam que o presidente Donald Trump é um “ditador perigoso cujo poder deve ser limitado antes que ele destrua a democracia”.

Nesta segunda-feira (25/08), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a direcionar fortes críticas contra duas das principais emissoras de televisão no país, NBC e a ABC.

Em postagem no Truth Social, ele afirmou que as redes são “duas das piores e mais tendenciosas da história” e defendeu que a Comissão Federal de Comunicação (FCC, na sigla em inglês) revogue suas licenças de transmissão. A informação foi publicada pela Bloomberg.

De acordo com Trump, as emissoras publicam “97% de histórias ruins” sobre seu governo. E, ainda segundo o presidente: “estamos vivendo entre os maiores oito meses da história presidencial (…) elas (NBC e ABC) são simplesmente um braço do Partido Democrata e deveriam, de acordo com muitos, ter suas licenças revogadas pela FCC. Eu seria totalmente a favor disso porque elas são tão tendenciosas e mentirosas, uma ameaça real à nossa democracia”.

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As declarações agressivas de Trump acontecem em meio a uma série de disputas judiciais do presidente com conglomerados da mídia. No mês de julho, ele fechou um acordo de US$ 16 milhões em uma ação contra a CBS News. Pouco depois, Trump chegou a um acordo de US$ 15 milhões com a ABC, em um processo de difamação.

Trump tem um histórico de ataques à NBC e pesquisas de opinião. Em 2017, durante seu primeiro mandato, ele já havia questionado se a emissora deveria perder sua licença após publicar que o presidente teria pedido aumento do arsenal nuclear norte-americano, declaração que ele negou ter feito.

Por outro lado, o Washington Post – um dos jornalismos mais investigativos dos Estados Unidos e ferozmente independente e responsável direto pela queda do presidente Richard Nixon – adotou desse março desse ano uma postura submissa a Trump.

O bilionário Jeff Bezos – dono do jornal – declarou que a seção de opinião agora será restrita a matérias apoiando “liberdades pessoais e livre mercados”. Bezos disse no X que opiniões divergentes podem “ser deixadas para serem publicadas por outros”.

Outro episódio envolvendo a guerra de Trump contra a imprensa livre nos Estados Unidos foi a ação judicial que ele move contra o Wall Street Journal e o empresário Rupert Murdoch. O Wall Street Journal fez uma matéria sobre o republicano ter enviado uma carta “sexualmente sugestiva” ao milionário Jeffrey Epstein, acusado de tráfico humano e abuso sexual de menores.

Trump não apenas comunicou que estava processando o jornal, como também alegou que a ação busca “responsabilizar os abusos cometidos pela imprensa” e representam uma reação contra o que chamou de “mídia fake News”.

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Não há dúvida que Donald Trump está numa “guerra permanente” contra a imprensa. E como afirmam Gisele Agnelli e Luciana Bauer: “a autocracia pode nascer do cotidiano, de um legislativo inoperante, de uma Suprema Corte omissa, de um partido de oposição perdido ou respeitoso demais diante de atos incivilizados e inconstitucionais. E, principalmente, de uma população anestesiada demais para reagir”.

*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-2).

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