Trump e o retorno dos “poderes imperiais” na Casa Branca

José Renato Ferraz da Silveira*

Na história dos Estados Unidos, dois presidentes que exerceram poderes verdadeiramente imperiais foram Lincoln e Franklin Delano Roosevelt. Contudo, foram presidentes em tempos de guerra e em momentos especiais.
Vale destacar que os doze anos de Roosevelt na Casa Branca o destacaram como supremo animal político, começando com a avalanche de medidas contra a depressão em seus primeiros cem dias de governo.
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Para Jonathan Fenby, Roosevelt era “manipulador e visionário, jogava com a opinião pública como o pescador que joga iscas para levar o peixe para a rede. Assegurava o equilíbrio das coalizões de grupos de interesse e assumia pessoalmente o crédito por tudo que beneficiava seu governo, sempre pesando as implicações”.
Relatos de pessoas que trabalharam com Roosevelt diziam que seu caráter era “contraditório no mais alto grau”. Quando dizia “sim, sim” para você, reparou sua esposa, não significava que tinha concordado, mas que tinha ouvido o que você dissera. O vice-presidente Harry Truman o recorda como “o homem mais frio que já conheci. Tanto quanto pude observar, não dava a mínima para mim, para você ou para quem quer fosse no mundo”.
Apesar das suas contradições e incoerências, Franklin Delano Roosevelt, é amplamente considerado como um dos maiores presidentes dos Estados Unidos. Ele liderou o país durante a Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial, implementando o New Deal e desempenhando um papel crucial na vitória aliada. Roosevelt estava convencido de que seu país emergiria vitorioso e aceitou a ideia de que poder global significava responsabilidade global. Quanto maior o primeiro, maior a segunda.
O mundo redesenhado por Roosevelt (e depois Truman), Churchill e Stalin que venceram a maior guerra da história da humanidade já não existe mais. Velhos equilíbrios romperam-se para sempre quando duas superpotências bem distintas, com filosofias rivais, passaram a dominar o globo, e a Inglaterra viu-se a caminho do declínio no crepúsculo dos impérios europeus.
Tivemos o fim da Guerra Fria, a era do Terror e agora presenciamos uma nova era das Relações Internacionais.
Talvez seja a última e desesperada tentativa dos Estados Unidos se manter como protagonista entre as Grandes Potências. Há sinais claros de decadência. Donald Trump personifica o Imperador bufão, histriônico e trágico. Uma das diversas manifestações da decadência de um Império. Não sabemos hoje (ou imaginamos para o futuro) como os livros de História retratarão Trump. Imagino que não estará no panteão dos grandes presidentes estadunidenses.
Donald Trump, em “tempos de paz”, exerce poderes imperiais. Ao que parece, uma lição que trouxe do primeiro mandato e da derrota na disputa pelo segundo, é a de que ele não permite que nada o detenha.
Invade espaços das prerrogativas do Poder Judiciário, agride autonomias estaduais e municipais (ofende prefeitos e governadores), convoca tropas das forças regulares para intervenções domésticas, demite funcionários do Estado que divulgam informações negativas, porém verdadeiras sobre a situação do país.
Ataca e desmantela as autonomias universitárias. Coloca imigrantes em pânico caçando-os em plena rua. Critica duramente o chefão do Federal Reserve. Intimida lideranças do Legislativo, até mesmo algumas de seu próprio partido. E agora, parte para cima dos sem-teto da capital americana e tenta desmoralizar a autoridade da prefeita de Washington.
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No âmbito internacional, instituiu uma política de intimidação e bullying global. As tarifas são a ponta de lança da intimidação. As razoabilidades consagradas – principalmente pela ciência econômica do mainstream – são simplesmente atropeladas e ignoradas. As decisões são baseadas em instintos e no senso comum. Diríamos que é um sinuoso amadorismo salpicado de lampejos superficiais.
O mundo surpreso, atônito e perplexo se mostra vacilante e inseguro com a personalidade instável de Trump e a agressividade do imperialismo americano.
As brumas da incerteza pairam sobre a cena internacional.
*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-2).
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