Trump e a política da mentira em série

Trump e a política da mentira em série
Levantamentos do Washington Post e de verificadores independentes apontam a recorrência de declarações falsas ou enganosas no discurso de Donald Trump, reacendendo o debate sobre desinformação, confiança institucional e o papel da mídia na mediação da verdade factual/Arte/LexLegal
Publicado em 17/02/2026 às 12:01

José Renato Ferraz da Silveira*

Em seu primeiro mandato como presidente dos Estados Unidos (2017–2021), Donald Trump proferiu publicamente 30.573 declarações falsas ou enganosas, o que corresponde a uma média aproximada de 21 por dia, segundo o rigoroso levantamento do Fact Checker do jornal The Washington Post.

Esse número tornou-se um marco na história recente do jornalismo de verificação de fatos, não apenas pelo volume, mas pela sistematicidade com que as distorções se apresentavam no discurso político presidencial.

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No discurso de posse do segundo mandato, Trump manteve a tendência ao afirmar diversas informações contestáveis — estimativas apontaram cerca de 20 declarações falsas ou enganosas apenas naquela ocasião.

Entretanto, diferentemente do que ocorreu ao final do primeiro mandato, não existe até o momento uma contagem consolidada oficial do Washington Post Fact Checker para o segundo mandato. O que há são levantamentos parciais relativos a eventos específicos, como entrevistas e discursos.

Em um exemplo notório, uma única entrevista nos primeiros cem dias do novo mandato registrou 32 declarações classificadas como falsas ou enganosas por verificadores independentes. Assim, o cenário atual é de monitoramento contínuo, porém sem uma soma agregada oficialmente divulgada até o início de 2026.

Esse padrão comunicacional suscita debate acadêmico e político relevante sobre a natureza do discurso público, a erosão da confiança institucional e o papel da mídia na mediação da verdade factual. Episódios concretos reforçam essa preocupação.

Em setembro de 2024, durante um debate presidencial, Trump afirmou que imigrantes ilegais estariam comendo cães e gatos de estimação em cidades americanas, citando especificamente Springfield, Ohio.

A declaração foi amplamente desmentida por autoridades locais e por organizações de checagem de fatos, como BBC Verify, USA Today e NPR, que a classificaram como infundada e desprovida de evidências críveis.

O caso ilustra não apenas a circulação de informações falsas, mas também o impacto social e político que tais narrativas podem produzir.

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Nesse contexto, analistas frequentemente associam essa prática a uma estratégia comunicacional conhecida informalmente como “flood the zone with shit” — expressão atribuída ao conselheiro político Steve Bannon — cujo objetivo seria saturar o ambiente informacional com declarações polêmicas, contraditórias ou imprecisas, de modo a confundir o público e deslocar o foco do debate político.

Em termos práticos, trata-se de uma dinâmica que alterna exageros, ameaças, recuos e reafirmações, produzindo ruído constante e dificultando a formação de consensos informados.

O reflexo desse estilo discursivo também pode ser observado na esfera econômica e comercial. No episódio das tarifas aplicadas ao Brasil, por exemplo, ganhou destaque a alegação de que o país manteria superávit comercial em relação aos Estados Unidos.

Os dados, contudo, indicavam o oposto: o Brasil vinha importando mais dos EUA do que exportando para aquele mercado, resultando em déficit bilateral brasileiro em bens. Em 2025, ainda que o Brasil tenha alcançado recordes históricos de exportação global, tais ganhos não foram suficientes para equilibrar especificamente a balança com os Estados Unidos.

As tarifas e medidas comerciais adotadas afetaram a competitividade de produtos brasileiros e contribuíram para a redução das vendas no mercado norte-americano naquele período.

Sob o ponto de vista acadêmico e institucional, esse conjunto de elementos revela um fenômeno maior do que a simples disputa retórica: evidencia tensões entre política, informação e economia internacional.

O debate não se restringe à veracidade de declarações isoladas, mas envolve a qualidade do espaço público, a responsabilidade discursiva de lideranças e a capacidade das sociedades de distinguir opinião, estratégia e fato verificável.

Em síntese, a questão central não é apenas quantificar declarações falsas, mas compreender os efeitos cumulativos de um ambiente político marcado por controvérsias constantes, disputas narrativas e uso estratégico da informação.

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Para o observador atento — seja no campo jurídico, político ou acadêmico — o desafio contemporâneo reside em preservar critérios de evidência, fortalecer instituições de verificação e promover um debate público que privilegie dados verificáveis em detrimento do ruído retórico.

É nessa intersecção entre comunicação, poder e responsabilidade democrática que se encontra um dos grandes dilemas do nosso tempo.

*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-2).

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