Trump 2.0 reacende guerra comercial com China e disputa por terras raras

José Renato Ferraz da Silveira*

Como no primeiro mandato, quando lançou a Guerra Fria 2.0, Donald Trump 2.0 foca Pequim do ponto de vista econômico.Se em janeiro, analistas viam que a relação entre Washington e Pequim seria estável, hoje em outubro, não podemos corroborar com essa “predição otimista”.
As últimas movimentações entre as duas maiores economias do mundo abalaram os mercados, deixaram as indústrias globais nervosas com os choques de produção e reacenderam os temores de uma repetição de infração tarifária retaliatória de outrora, quando as taxas sobre as importações chinesas e americanas atingiram níveis equivalentes a embargos comerciais. As tensões renovadas também correm o risco de prejudicar o progresso feito durante meses de negociações comerciais.
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O risco e a incerteza de confrontação aberta, com consequências que ultrapassam o comércio e afetam áreas como segurança, tecnologia e política internacional são bem presentes.
Investidores temem a possibilidade de rupturas em cadeias de suprimentos estratégicas. Os setores automotivo e de tecnologia, por exemplo, alertam para possíveis paralisações nos Estados Unidos caso o fornecimento de minerais raros chineses sejam suspensos. O governo da China anunciou, na última quinta-feira, que vai endurecer regras e impor maior controle sobre as exportações de terras raras, minerais essenciais para a produção de tecnologias de ponta.
O incômodo de Trump com a dominância chinesa no setor de terras raras (17 elementos químicos), que apesar do nome, não são exatamente raros na natureza, mas são difíceis de extrair e processar. Eles são essenciais para a fabricação de inúmeros produtos tecnológicos, como ímãs potentes, baterias, telas de LED e são fundamentais para indústrias de alta tecnologia, defesa, energia eólica e veículos elétricos.
A complexidade do processamento é que torna a China um ator dominante na produção global e ela utiliza a sua posição estratégica como instrumento de pressão e barganha. Ao restringir a exportação desses insumos, Pequim busca forçar os Estados Unidos a fazer concessões em futuras negociações comerciais.
Segundo dados da Agência Internacional de Energia, 92% da produção de terras raras acontece na China. A produção e refino de outros minerais críticos, como lítio e cobalto, também é dominada pelo país, ainda que em menor escala. A IEA já classificou, em diversos relatórios, a dominância chinesa no setor como um risco geopolítico.
E se esses produtos são utilizados desde celulares até mísseis e aeronaves, é um ponto sensível para os Estados Unidos, já que a supremacia militar do país, no longo prazo, poderia ser ameaçada caso Pequim tenha maior controle sobre esses insumos.
A aposta chinesa em dominar a cadeia de valor das terras raras criou uma dependência estrutural difícil de romper. Pequim construiu não apenas um setor econômico robusto, mas também uma alavanca geopolítica de enorme alcance. Esse poder se manifesta agora na capacidade de condicionar decisões industriais e diplomáticas de rivais estratégicos.
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É mais um capítulo decisivo da guerra das terras raras, em que a competição não se decide mais apenas em campo de batalha, mas no interior de cadeias produtivas complexas e na disputa por recursos estratégicos que sustentam a economia digital e militar do século XXI.
Texto dedicado a turma da disciplina de História das Relações Internacionais da Guerra Fria 2/2025 – Relações Internacionais- Universidade Federal de Santa Maria – RI/UFSM.
*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-2).
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