Trump 2.0 e o risco real de um golpe de Estado nos EUA

Trump 2.0 e o risco real de um golpe de Estado nos EUA
Trump 2.0 é mais calculista, mas também mais ressentido. Em seu retorno ao poder, ele busca vingar-se de antigos aliados e corrigir o que considera “traições” — de juízes, da imprensa, do establishment republicano e das próprias instituições que o contiveram/Reprodução
Publicado em 04/10/2025 às 18:23

José Renato Ferraz da Silveira*

A história parece repetir-se em câmera lenta. Quando Donald Trump, já em seu segundo mandato, ameaçou usar o Exército para intervir em cidades governadas por democratas, o gesto soou como bravata para uns, mas como alerta vermelho para quem enxerga os sinais de uma possível ruptura institucional. A ameaça de empregar tropas contra cidadãos norte-americanos – sob o pretexto de “restaurar a ordem” – reabre feridas profundas da política dos Estados Unidos e ecoa o que a história romana ensinou há mais de dois mil anos: regimes ruem quando líderes confundem poder militar com poder civil.

A aparente apatia dos democratas e de boa parte do eleitorado moderado, que assiste às ações erráticas do presidente sem uma reação coordenada, amplifica o risco. O país que construiu a mais longeva democracia representativa do planeta, modelo de equilíbrio entre os poderes e de respeito às instituições, dá sinais de fadiga moral e de desconfiança interna.

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Trump age como quem se considera acima dos limites constitucionais. Seu estilo impulsivo e suas decisões econômicas e políticas — incluindo o tarifaço que isolou os EUA de aliados estratégicos e reacendeu tensões comerciais com a Europa, o México e a China — demonstram o mesmo padrão: o de um governo que age por instinto e revanchismo. O impacto já é visível nos índices de inflação e nos alertas do Fundo Monetário Internacional sobre os riscos da política comercial protecionista.

Mais do que consequências econômicas, o “Trump 2.0” projeta um novo tipo de ameaça — menos ruidosa, mais institucional.

A sombra do militarismo e o eco romano

Os romanos antigos sabiam dos riscos de misturar tropas e política. O recado daquela época é um alerta: generais que cruzam fronteiras com exércitos atrás de si tendem a cruzar também o limite da legalidade. Por isso, criaram uma lei que proibia os governadores militares de adentrar a Península Itálica com suas legiões. Quando Júlio César atravessou o Rubicão com a 13ª Legião, em 49 a.C., desafiou essa ordem — e, ao declarar “Alea jacta est” (“a sorte está lançada”), inaugurou o fim da República.

Trump parece ter aprendido a lição de César — não a da prudência, mas a da conquista. Ao convocar centenas de oficiais-generais dos seis ramos das Forças Armadas para exigir um “juramento de fidelidade”, ele não apelou à Constituição, mas ao seu projeto político pessoal. O gesto, simbólico e perigoso, representa um rompimento do pacto civil-militar que sustenta a democracia norte-americana desde sua fundação.

A fidelização do poder e a erosão democrática

A tentativa de fidelizar os militares não é uma iniciativa isolada. Ela se soma a uma série de ataques à imprensa, à Suprema Corte, ao Departamento de Justiça e ao Partido Democrata, que compõem uma estratégia mais ampla: minar a credibilidade das instituições para apresentar-se como única alternativa viável.

Nos Estados Unidos, o poder das Forças Armadas sempre foi acompanhado de uma tradição de neutralidade política. Mesmo diante de crises internas, generais e almirantes mantiveram-se como garantidores da Constituição, e não de governos. Essa neutralidade foi rompida parcialmente no primeiro mandato de Trump, quando ele tentou usar o Exército para conter protestos antirracistas. Na ocasião, foi repreendido pelo general Mark Milley, chefe do Estado-Maior Conjunto.

Agora, em seu retorno ao poder, Trump parece determinado a não cometer o mesmo erro. Ele substituiu figuras de perfil técnico por aliados ideológicos e recompensou militares que expressaram lealdade pessoal. A lógica é a do cerco: eliminar resistências dentro do sistema antes de avançar sobre o sistema.

O golpe que não virá com tanques

A erosão das democracias modernas raramente acontece em um único ato. Não há tanques nas ruas nem censura explícita. O golpe é gradual, jurídico, simbólico — e, portanto, mais difícil de conter. O risco nos Estados Unidos não está em uma tomada repentina do poder, mas na normalização do autoritarismo, na desmoralização das instituiçõese no medo da reação.

O “novo golpe” americano é o da erosão lenta: o que se constrói com decretos, aparelhamento administrativo, narrativas de ódio e manipulação da verdade. A confiança pública se fragmenta e a sociedade perde a capacidade de reagir. Quando perceber a extensão do dano, o país talvez já tenha atravessado o seu próprio Rubicão.

O tarifaço e o isolamento internacional

Se no plano interno o governo Trump flerta com o autoritarismo, no plano externo a política econômica e comercial adotada é uma bomba de efeito retardado. O aumento generalizado das tarifas de importação — apelidado de “tarifaço” — já provocou retaliações de parceiros estratégicos e ameaças de novos embargos.

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A União Europeia, a China e o Canadá reagiram com medidas espelhadas. Economistas preveem queda na competitividade das exportações americanas, inflação importada e pressão sobre a cadeia produtiva interna. A política do medo e do fechamento, ao invés de proteger empregos, já ameaça pequenos produtores e empresas que dependem de insumos estrangeiros.

Além disso, o aumento de tarifas sobre produtos latino-americanos — especialmente sobre o aço, o alumínio e o etanol brasileiro — abre espaço para que a China e a Índia ampliem sua presença econômica na região. Em outras palavras, Trump está enfraquecendo a posição geopolítica dos Estados Unidos, justamente quando tenta reafirmar sua liderança global pela força.

Um líder movido pela revanche

Trump 2.0 é mais calculista, mas também mais ressentido. Em seu retorno ao poder, ele busca vingar-se de antigos aliados e corrigir o que considera “traições” — de juízes, da imprensa, do establishment republicano e das próprias instituições que o contiveram.

Esse movimento é acompanhado por uma retórica incendiária contra governadores democratas e pela tentativa de criar uma narrativa de “guerra interna”, na qual o presidente se coloca como defensor do “povo traído” contra as elites e as “cidades do caos”. O discurso autoritário encontrou terreno fértil em parte da população cansada das divisões políticas e insegura diante da economia.

O perigo, entretanto, é que o excesso de poder concentrado na figura presidencial subverta a lógica do sistema de freios e contrapesos que fez dos Estados Unidos o paradigma institucional do Ocidente.

A omissão como combustível do autoritarismo

A ausência de reação firme por parte dos democratas e de amplos setores da sociedade civil é o elemento mais preocupante do cenário atual. O medo de “alimentar a polarização” se transforma, na prática, em neutralidade diante do autoritarismo.

Quando a normalidade institucional é ameaçada, o silêncio torna-se cúmplice. Juristas, acadêmicos e jornalistas têm alertado que a defesa da democracia não se faz apenas com votos, mas com vigilância constante. A erosão democrática começa quando cidadãos e instituições decidem “esperar para ver”.

O maior paradoxo do Ocidente

Os Estados Unidos sempre se apresentaram como o guardião da democracia liberal. No entanto, o país vive hoje o paradoxo de ter, em seu comando, um presidente que questiona a legitimidade das eleições, ameaça governadores e tenta cooptar as Forças Armadas.

O modelo de separação dos poderes, idealizado pelos fundadores, resiste — mas por quanto tempo? O Judiciário, o Congresso e a imprensa continuam funcionando, mas cada ataque presidencial mina um pouco mais sua autoridade simbólica.

A pergunta que ecoa entre analistas é simples e inquietante: quem cruzará o Rubicão desta vez?

Assim como Roma perdeu sua República aos poucos, corroída por ambição e apatia, os Estados Unidos enfrentam agora o seu teste mais severo. O país que liderou o “mundo livre” durante o século XX, que enviou tropas para garantir eleições em outros continentes (mas que também fomentou golpes de estado na América Latina para garantir seu poder e influência sobre a região) vê sua própria democracia sob ameaça doméstica.

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Donald Trump ainda não atravessou o Rubicão — mas o som dos passos já ressoa no horizonte. A democracia mais rica e representativa do mundo corre o risco de se tornar refém de um líder que se julga maior do que as instituições que o elegeram.

E se os Estados Unidos caírem, quem restará para defender o próprio ideal democrático?

*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-2).

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