Trabalho infantil atinge 1,6 milhão de crianças em 2023, menor índice da série histórica

Trabalho infantil atinge 1,6 milhão de crianças em 2023, menor índice da série histórica
Trabalho infantil no Brasil atinge 1,6 milhão de crianças e adolescentes; desigualdade racial e de gênero permanece evidente/Agência Brasil
Publicado em 24/08/2025 às 15:30

Da redação de LexLegal

O Brasil registrou em 2023 1,607 milhão de crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos em situação de trabalho infantil, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do IBGE. O número representa uma queda de 14,6% em relação a 2022 (1,881 milhão) e é o menor patamar da série histórica iniciada em 2016.

A legislação brasileira proíbe o trabalho para menores de 14 anos, salvo na condição de aprendiz para adolescentes de 14 e 15 anos. Já os jovens de 16 e 17 podem trabalhar, desde que não exerçam atividades insalubres, perigosas ou noturnas. Qualquer situação fora dessas regras é considerada trabalho infantil.

Segundo o pesquisador do IBGE Gustavo Fontes, a melhora registrada em 2023 está ligada ao aumento da renda familiar e à ampliação da cobertura de programas sociais.

“O ano 2023 foi bastante favorável para o mercado de trabalho. Teve um ganho importante na renda domiciliar per capita. Também houve um aumento importante do rendimento médio e do total de domicílios cobertos pelo Bolsa Família. Também pode ter efeitos de políticas públicas voltadas para essa meta de eliminação do trabalho infantil”, explicou.

Faixas etárias mais vulneráveis

O levantamento mostra que a incidência do trabalho infantil cresce conforme a idade:

  • 5 a 13 anos: 346 mil crianças (1,3% do grupo)
  • 14 e 15 anos: 366 mil adolescentes (6,2%)
  • 16 e 17 anos: 895 mil adolescentes (14,6%)

Do total, 1,182 milhão estavam em atividades econômicas para geração de renda e 425 mil trabalhavam apenas para autoconsumo, como agricultura de subsistência e pesca.

região Norte apresentou o maior percentual de crianças em situação de trabalho infantil (6,9%), seguida pelo Centro-Oeste (4,6%) e Nordeste (4,5%). Em números absolutos, o Nordeste lidera com 506 mil casos. Já o Sulapresentou o menor contingente (193 mil) e a maior redução (-28,8%).

Trabalho perigoso

Dos 1,607 milhão de casos, 586 mil crianças e adolescentes estavam em atividades consideradas perigosas, como agricultura pesada, construção civil e comércio em condições de risco. Esse número representa queda de 22,5% em relação a 2022 e é o menor da série.

Entre os mais jovens (5 a 13 anos) envolvidos em trabalho infantil, 65,7% estavam em ocupações de risco. No grupo de 14 e 15 anos, o índice foi de 55,7%.

A pesquisa também mostra desigualdades: meninos representaram 63,8% dos casos, e crianças pretas ou pardas, 65,2%.

Impactos na educação e renda

A frequência escolar cai conforme a idade aumenta:

  • 5 a 13 anos: 99,6% frequentavam a escola
  • 14 e 15 anos: 94% (ante 98,3% da média nacional)
  • 16 e 17 anos: 81,8% (ante 90% da média)

O rendimento médio das crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil foi de R$ 771 por mês, abaixo dos R$ 1.074 recebidos por outros jovens da mesma idade que não trabalham. Entre os que exerciam atividades perigosas, a média foi ainda menor: R$ 735.

As diferenças também aparecem quando considerados sexo e raça: meninos recebiam em média R$ 815, contra R$ 695 das meninas. Já crianças brancas recebiam R$ 875, enquanto pretas e pardas ficavam em R$ 707.

Apesar da queda no índice geral, especialistas alertam que os dados revelam a persistência de desigualdades regionais e sociais, além do risco de que a vulnerabilidade econômica leve famílias a dependerem do trabalho precoce dos filhos.

O IBGE reforça que, mesmo em queda, o trabalho infantil ainda atinge 4,2% das crianças e adolescentes brasileiros e segue como desafio para a efetivação dos direitos da infância no país.

SÃO PAULO WEATHER