Tornozeleira, dinastia e poder: o colapso do clã Bolsonaro e a lógica das famílias na política brasileira

José Renato Ferraz da Silveira*

Nesta sexta-feira (18), o Brasil testemunhou mais um capítulo dramático da vida pública nacional: o ex-presidente Jair Bolsonaro foi alvo de uma nova operação da Polícia Federal e passou a ser monitorado por tornozeleira eletrônica, por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). Além da medida, ele está proibido de usar redes sociais, de manter contato com aliados e diplomatas, e deve cumprir recolhimento domiciliar noturno. O motivo? Investigações por obstrução de Justiça, coação e ataque à soberania nacional.
Se o fato é inédito, a dinâmica não é nova: Bolsonaro e seus filhos são parte de um projeto familiar de poder que instrumentaliza o Estado em benefício próprio, com discurso antissistema enquanto se alimenta do sistema.
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O caso Bolsonaro é, talvez, o exemplo mais gritante e recente de dinastia política no Brasil. Atualmente, quatro de seus filhos atuam na política: Carlos Bolsonaro, vereador no Rio de Janeiro; Flávio Bolsonaro, senador da República; Eduardo Bolsonaro, deputado federal; e Jair Renan Bolsonaro, vereador em Balneário Camboriú. Para 2026, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro é cotada a disputar o Senado ou até mesmo a Presidência.
São 30 anos da família “pendurada nos cofres públicos”, como apontam analistas. E, ao contrário do discurso antipolítica de Jair Bolsonaro, sua família consolidou-se como uma das mais eficazes e duradouras máquinas eleitorais do país.
E o que dizer de 2025, quando assistimos o tarifaço de Donald Trump contra o Brasil, comemorado por Eduardo e Flávio Bolsonaro como vitória pessoal? Para eles, salvar o pai, ainda que ao custo da economia nacional, é prioridade. O clã Bolsonaro encarna, em sua forma extrema, a lógica perversa das dinastias políticas brasileiras, nas quais o interesse familiar se sobrepõe ao bem comum.
O fenômeno das famílias com forte influência política — conhecidas como dinastias políticas — está profundamente enraizado na estrutura do poder no Brasil. A presença de políticos com laços de sangue em diversos níveis do Legislativo, do Executivo e até do Judiciário é visível de norte a sul do país. Essa lógica familiar de sucessão e ocupação de cargos se perpetua há décadas, replicando padrões de exclusão, manutenção de privilégios e reprodução de elites políticas. Seja em pequenos municípios do interior ou nos gabinetes de Brasília, o sobrenome ainda é, muitas vezes, mais determinante do que o mérito.
Ao longo da história, o Brasil desenvolveu uma tradição de famílias políticas que vão desde nomes históricos, como os Andrada, até novos grupos familiares que transformaram sua atuação política em projeto de poder hereditário. Arraes, Gomes, Magalhães, Macedo, Maia e, mais recentemente, os Bolsonaro, são exemplos de famílias cuja influência ultrapassa gerações. A entrada de filhos, sobrinhos e cônjuges na vida pública, não raro mantendo o mesmo eleitorado e capital político, revela um sistema que naturaliza a sucessão familiar como regra.
Estudos acadêmicos comprovam essa dinâmica. Um levantamento da Universidade de Brasília (UnB) mostrou que, entre 2002 e 2010, o número de deputados federais com vínculos familiares com outros políticos relevantes cresceu mais de dez pontos percentuais, alcançando 46,6%. O professor Ricardo Costa de Oliveira, da UFPR, destaca que a política brasileira reproduz as mesmas desigualdades estruturais da sociedade, onde famílias brancas e ricas perpetuam posições de poder enquanto as camadas populares — em sua maioria negras e periféricas — seguem à margem das estruturas decisórias.
O caso da família Bolsonaro é paradigmático. A partir de um discurso de ruptura com o “sistema”, a família consolidou uma das mais longevas dinastias políticas contemporâneas. Com quatro filhos ocupando cargos públicos e a ex-primeira-dama cotada para futuras disputas eleitorais, os Bolsonaro demonstram como o capital político pode ser usado para sustentar uma estrutura de poder familiar, aliada a redes de influência que envolvem assessores, militares, empresários e até milicianos. Trata-se de um projeto de poder centrado não em ideias ou partidos, mas em laços familiares e estratégias de dominação institucional.
O impacto dessa lógica para a democracia é devastador. A hegemonia de famílias no poder impede a renovação política, bloqueia a diversidade representativa e concentra as decisões públicas nas mãos de poucos. Como alertam estudiosos, um sistema dominado por dinastias tende à oligarquização, ao autoritarismo e à estagnação de políticas públicas. Em vez de abrir caminhos para novos projetos coletivos, o sistema político brasileiro continua a se confundir com genealogias, interesses privados e sobrenomes que se repetem há gerações. A superação desse modelo passa por reformas políticas e institucionais que ampliem a participação democrática, fortaleçam partidos e rompam o ciclo da hereditariedade na política.
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Como explicou o professor Ricardo Costa de Oliveira, da UFPR, “ainda hoje, grande parte dos senadores e deputados federais, dos membros da magistratura, da cúcula militar, da diplomacia possuem relações com famílias políticas”. Segundo ele, a estrutura social brasileira se confunde com genealogias: “enquanto os filhos da pobreza […] continuam a seguir os destinos das mães e dos pais, famílias com grande patrimônio […] conseguem reproduzir suas redes sociais, privilégios e boas carreiras ao longo de várias gerações”.
Em artigo publicado pela UnB, um estudo apontou que, de 2002 a 2010, houve crescimento de mais de 10 pontos percentuais no número de deputados federais que são parentes de outras figuras políticas. Em 2010, 46,6% dos deputados federais vinham de famílias com histórico no Executivo ou no Legislativo.
A perpetuação familiar no poder não se limita à política. Tribunais de Contas, Judiciário, Forças Armadas, clubes de futebol, grandes empresas, cartórios, igrejas e até redações jornalísticas funcionam, em muitos casos, como feudos hereditários.
O impacto disso para a democracia é grave: impede a renovação política, bloqueia o acesso de novos grupos sociais ao poder e limita a pluralidade da representação. Como alerta Oliveira, “um sistema organizado a partir de famílias tende à pouca cidadania, poucos direitos trabalhistas e à repetição de autoritarismos”.
Na direita, o capital familiar se traduz em recursos financeiros e empresariais. Na esquerda, é o capital simbólico das lutas e memórias políticas que predomina. Mas a lógica é a mesma: filhos que “respiram política” desde a infância e reproduzem o “habitus de classe política”.
O caso dos Bolsonaros se sobressai porque, além da dinastia, há uma estratégia de domínio total: ocupar o Executivo, o Legislativo, montar redes no Judiciário, nas polícias, nas igrejas e nas mídias alternativas. Como analisou o professor Wilson Gomes, “os Bolsonaros usam quem quer que se preste ao seu projeto de poder familiar”. A ideologia é apenas uma “camuflagem” para os interesses do clã.
Os aliados, por mais fiéis, são descartáveis. Vimos isso com Sara Winter, Sérgio Reis, Zé Trovão e os golpistas do 8 de janeiro. Todos foram usados e abandonados. O que importa é manter o projeto familiar intacto, custe o que custar.
A analogia com os Bórgias, famosa família italiana do Renascimento, é inevitável: poder, corrupção, manipulação, cinismo e apelo religioso. Tudo em nome da perpetuação dinástica.
Como disse o falecido Gustavo Bebianno, ex-aliado e dirigente do PSL: “o Brasil ainda vai enxergar quem são Bolsonaro e seus filhotes”. Os dias atuais são, talvez, o início dessa revelação.
Em tempo: a tornozeleira eletrônica em Bolsonaro não é só uma medida judicial. É também um símbolo do colapso moral de uma família que usou o Estado como trincheira privada e agora vê sua fachada de “mito” desabar diante da realidade.
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Não se trata de punir um homem, mas de entender o mecanismo que transforma a política em herança familiar e a república em propriedade privada. O Brasil não pode ser refém de dinastias. Nem dos Bórgias. Nem dos Bolsonaros.
*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-2).
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