Toffoli prorroga inquérito sobre compra do Banco Master pelo BRB por mais 60 dias

Da redação de LexLegal
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli prorrogou por mais 60 dias as investigações do inquérito 5026, que tramita sob sigilo no Distrito Federal e apura irregularidades na tentativa de compra do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB). A decisão atendeu a um pedido da Polícia Federal (PF), responsável pela condução das apurações, e também determinou a intimação da Procuradoria-Geral da República (PGR) para que acompanhe a continuidade do caso.
Leia também: Brasil quita R$ 2,2 bilhões e regulariza pagamentos a organismos internacionais
O inquérito trata de suspeitas de um esquema de desvios financeiros que pode alcançar cifras bilionárias. Segundo a Polícia Federal, há indícios de que o Banco Master tenha emitido Certificados de Depósito Bancário (CDBs) sem lastro real, o que significa, em termos simples, a oferta de títulos financeiros sem a garantia de recursos suficientes para honrar os pagamentos prometidos aos investidores. A prática compromete a solidez do sistema financeiro e pode caracterizar fraude contra clientes e contra o próprio mercado.
As investigações apontam que o montante envolvido pode chegar a R$ 12 bilhões. Para atrair investidores, o banco teria prometido rentabilidades de até 40% acima da taxa básica praticada no mercado, um patamar considerado atípico e de alto risco no sistema financeiro nacional. Na prática, quando um banco oferece retornos muito superiores aos padrões do setor, cresce a suspeita de que não exista lastro financeiro adequado para sustentar tais promessas.
Além do Banco Master, a Polícia Federal também apura possível participação de dirigentes do Banco de Brasília no esquema. Em março do ano passado, o BRB chegou a anunciar oficialmente a compra do Master, operação que contou com o aval político do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha. O negócio, no entanto, foi barrado pelo Banco Central (BC), após a autoridade monetária identificar inconsistências nos documentos apresentados pelo Master para comprovar a saúde financeira da instituição.
O Banco Central exerce no Brasil a função de fiscalizar bancos e garantir a estabilidade do sistema financeiro. Para que uma operação de compra de instituição bancária seja aprovada, é necessário demonstrar que os ativos e a carteira de crédito possuem lastro suficiente, isto é, respaldo econômico real. No caso do Master, o BC concluiu que os papéis apresentados não asseguravam a solidez exigida pela legislação.
Ao justificar a prorrogação do prazo investigativo, o ministro Dias Toffoli registrou expressamente:
“Posto isso, considero que as razões apontadas para prorrogação, por mais 60 (sessenta) dias, devem ser deferidas. Intime-se a Procuradoria-Geral da República”.
Na prática, a decisão mantém abertas as frentes de apuração por mais dois meses, permitindo que a Polícia Federal aprofunde diligências, realize novas perícias e consolide provas que possam sustentar eventuais denúncias criminais. A intimação da PGR garante que o órgão responsável por apresentar acusações ao STF acompanhe de perto os próximos passos da investigação.
O avanço do inquérito ocorre em paralelo à deflagração de mais uma fase da Operação Compliance Zero, realizada na quarta-feira (14), que voltou a ter como foco o Banco Master e o empresário Daniel Vorcaro. A operação busca esclarecer a estrutura do suposto esquema financeiro, suas ramificações e o destino dos recursos movimentados.
De acordo com as autoridades, estão sob apuração crimes como organização criminosa, gestão fraudulenta de instituição financeira, manipulação de mercado e lavagem de dinheiro. Em termos jurídicos, a gestão fraudulenta ocorre quando dirigentes de uma instituição financeira praticam atos que colocam em risco a saúde econômica do banco, em prejuízo de clientes e do sistema financeiro como um todo. Já a manipulação de mercado envolve práticas que distorcem artificialmente o funcionamento normal de ativos financeiros.
Entre as medidas autorizadas pela Justiça estão o sequestro e o bloqueio de bens e valores que ultrapassam R$ 5,7 bilhões. O sequestro de bens é um instrumento jurídico que permite à Justiça impedir que patrimônio suspeito de origem ilícita seja transferido ou ocultado, garantindo eventual ressarcimento aos cofres públicos ou às vítimas.
O caso chama atenção pela combinação de fatores: envolve uma instituição financeira pública regional, uma tentativa de aquisição de banco privado, indícios de fraudes em produtos financeiros amplamente utilizados por investidores e cifras que podem ultrapassar a casa dos bilhões de reais. A complexidade técnica das operações bancárias investigadas também reforça a necessidade de um prazo maior para a coleta e análise de provas.
Do ponto de vista institucional, a apuração reforça o papel do STF na supervisão de inquéritos que envolvem autoridades com foro privilegiado e questões sensíveis ao sistema financeiro. Ao mesmo tempo, evidencia a atuação do Banco Central como órgão de contenção de riscos sistêmicos, ao barrar uma operação que poderia ampliar a instabilidade no setor bancário.
Veja também: Produção de veículos deve crescer 3,7% em 2026, projeta Anfavea
A prorrogação do inquérito mantém em aberto o futuro da investigação sobre a tentativa de compra do Banco Master pelo BRB e pode aprofundar a responsabilização de gestores públicos e privados caso as suspeitas sejam confirmadas. O desfecho do caso tende a ter impactos relevantes sobre a governança bancária, a fiscalização de produtos financeiros e o controle de riscos no mercado de crédito brasileiro.