Sustentabilidade real exige ação imediata de instituições, empresas e cidadãos

Sustentabilidade real exige ação imediata de instituições, empresas e cidadãos
Muitas questões da pauta ambiental e social são globais, atravessam fronteiras e dependem de negociações internacionais. Mas nenhuma política mundial funciona se não houver ação local/Freepik
Publicado em 06/03/2026 às 3:00

Leonardo Barém Leite*

Fala-se muito em consciência social, ambiental e climática, mas a verdade é que seguimos tropeçando no básico. Para que esses temas realmente avancem, não basta adotar um discurso alinhado às exigências do momento. É preciso coerência, consistência e verdade — começando pelo que acontece ao nosso redor, nos espaços que frequentamos e nas instituições das quais fazemos parte.

Se não conseguimos, ao menos, reconhecer se estamos inseridos em ambientes que levam a sustentabilidade a sério — o tempo todo, em tudo, e não apenas quando é conveniente — já começamos mal. E, pior, frequentemente ficamos presos a promessas vagas, compromissos protocolados e planos que nunca saem do papel.

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A desculpa mais comum? “Não temos orçamento”. E esse é justamente o ponto: se não entra na lista de prioridades, nunca entrará no orçamento. E, se seguimos ligados a grupos que não tratam esse tema com seriedade, a responsabilidade é compartilhada.

É óbvio que muitas questões da pauta ambiental e social são globais, atravessam fronteiras e dependem de negociações internacionais. Mas nenhuma política mundial funciona se não houver ação local. País, estado, cidade, bairro, rua, quadra, família, indivíduo: tudo começa em algum lugar, geralmente bem perto da gente.

É por isso que cobrar coerência das organizações — empresas, conselhos, clubes, escolas, igrejas, condomínios, entidades profissionais — é tão importante. E que encarar o tema com seriedade, urgência e prática é necessário agora, não daqui a dez anos.

Outro problema recorrente é o conforto de achar que “cumprimos a lei”. Além de nem sempre ser verdade, a pauta da sustentabilidade e dos direitos humanos precisa ir além do mínimo legal. Cumprir o obrigatório não é mérito; é o piso. A evolução exige compromisso real, mudança de cultura e atitude.

E aí entra um ponto que costuma escancarar o abismo entre discurso e prática: os ambientes que ainda não são acessíveis, acolhedores ou minimamente preparados para receber todas as pessoas. Lugares sem mobilidade plena, sem sinalização adequada, sem inclusão, sem políticas para participação de grupos sub-representados e sem atenção ao básico — como evitar plásticos descartáveis ou repensar a qualidade dos alimentos servidos — revelam que a sustentabilidade ainda é vista como detalhe, não como eixo central.

O mesmo vale para energia renovável, reuso de água, coleta seletiva, reciclagem e redução de carbono. Se nada disso está no plano, no orçamento, na rotina e na cultura da instituição que você frequenta, o atraso é evidente. E, novamente, a culpa é de todos nós.

Há quem ainda trate o ESG como assunto exclusivo de grandes corporações, como se fosse algo distante da vida real. Não é. Aliás, é justamente nos espaços pouco glamorizados — condomínios, associações de bairro, clubes, pequenos comércios, igrejas, escolas — que a mudança costuma nascer. Só que, por falta de informação ou consciência, muita gente reduz a pauta socioambiental à poluição industrial ou ao desmatamento. É uma visão estreita que trava a evolução da sociedade.

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Também não adianta apontar o dedo para empresas poluidoras se não olhamos “dentro de casa”. Esse movimento de autocrítica é indispensável. Profissionais de todos os setores — jurídico, administrativo, governança, sustentabilidade, compliance, RH — precisam compreender que o papel deles não é apenas exigir mudanças dos outros, mas agir onde estão.

Mesmo cidades vistas como “mais desenvolvidas”, como São Paulo, revelam diariamente o tamanho da incongruência entre discurso e prática. Falta cuidado com áreas verdes, responsabilidade energética, respeito à Lei Brasileira de Inclusão e fiscalização efetiva.

Problemas que, somados, mostram como o descaso institucional pode conviver com discursos de responsabilidade social sem causar grande incômodo — desde que ninguém cobre.

E é justamente aí que está o ponto central: sem cobrança, nada muda. Ambientes que passam por eleições internas, alternância de gestão ou ciclos de tomada de decisão só evoluem quando há pressão real dos participantes. Sem isso, repetimos a mesma inércia por anos.

A verdade é que a mudança depende de um conjunto de atitudes diárias: na escola, no trabalho, no lazer, nas sugestões internas, nos canais de denúncia, na participação em conselhos, nos eventos, nas compras, nos votos, na forma como lidamos com os espaços coletivos. Se cada pessoa assumir essa responsabilidade, a soma se torna potente.

Sem a união dos “pequenos”, não se constrói o coletivo. E, se muita gente ainda não percebeu a urgência da mudança, parte da culpa é de todos nós — que não ajudamos a conscientizar, que não pressionamos, que não registramos descontentamento, que aceitamos ambientes que não evoluem e que, muitas vezes, nem procuramos alternativas melhores.

A sustentabilidade é um tema social, humano, ambiental, corporativo, ético e climático. Exige integridade, consciência e atitude. E não avança sem compromisso cotidiano.

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Se queremos de fato evoluir, individual e coletivamente, temos que agir — sem desculpas, sem adiamentos e sem terceirizar responsabilidade. A evolução depende de todos nós. E começa agora, no lugar mais óbvio: onde estamos.

*Leonardo Barém Leite é sócio sênior do escritório “Almeida Advogados” em SP, especialista em Direito Societário e Contratos, Fusões e Aquisições, Governança Corporativa, Sustentabilidade e ESG,“Compliance”, Projetos e Operações Empresariais, e Direito Corporativo; também é árbitro, professor, conselheiro, e autor de diversas obras. Presidente da Comissão de Direito Societário, Governança Corporativa e ESG da OAB-SP/Pinheiros.

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