Super-ricos esgotam em 10 dias a cota anual de carbono, aponta Oxfam

Super-ricos esgotam em 10 dias a cota anual de carbono, aponta Oxfam
Emissões de carbono de jatos particulares e iates de luxo estão entre os principais símbolos do consumo intensivo do 1% mais rico do mundo/Freepik
Publicado em 16/01/2026 às 15:30

Da redação de LexLegal

O 1% mais rico da população mundial consumiu, em apenas dez dias de 2025, toda a sua “cota justa” anual de emissões de carbono. O cálculo leva em conta o volume máximo de gases de efeito estufa que poderia ser lançado na atmosfera sem ultrapassar o limite de 1,5 grau Celsius de aquecimento global, meta central do Acordo de Paris. A constatação é de um estudo divulgado pela organização não governamental Oxfam, que chama atenção para o peso desproporcional da elite econômica na crise climática.

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Segundo a entidade, a marca simbólica fez com que o dia 10 de janeiro fosse batizado de “Dia dos Ricos Poluidores”. A data representa o momento em que a parcela mais abastada da humanidade já teria consumido, sozinha, todo o volume de emissões que lhe caberia ao longo de um ano inteiro. A partir dali, qualquer emissão adicional amplia o desequilíbrio climático e aprofunda as desigualdades ambientais.

A Oxfam estima que as emissões atribuídas ao 1% mais rico podem estar associadas a até 1,3 milhão de mortes relacionadas ao calor extremo até o fim deste século. Ondas de calor mais intensas e frequentes afetam sobretudo populações pobres, que vivem em áreas com menor infraestrutura urbana, menos acesso a serviços de saúde e maior exposição a eventos climáticos extremos.

O impacto econômico também é expressivo. Em países de baixa e média renda, os danos associados ao consumo excessivo de carbono por parte dos super-ricos podem alcançar US$ 44 trilhões até 2050. Isso inclui prejuízos na agricultura, perdas de produtividade, destruição de infraestrutura e gastos crescentes com adaptação climática.

A diretora-executiva da Oxfam Brasil, Viviana Santiago, usa exemplos concretos para demonstrar o abismo entre os estilos de vida. “O uso de um super iate, de super jatinho, por uma semana, equivale, em emissão de carbono, que uma pessoa que tá no 1% mais pobre, vai levar a vida inteira pra emitir. Isso, por si só, é um problema, porque essa pessoa do 1% mais pobre é a pessoa que, hoje, é significativamente mais afetada pelos efeitos das mudanças climáticas”.

Na prática, o estudo mostra que o problema não está apenas no número de pessoas, mas no padrão de consumo. Viagens frequentes em jatos particulares, grandes iates, mansões altamente dependentes de energia e cadeias de consumo intensivas em carbono concentram emissões em uma fatia mínima da população mundial.

Para que o mundo tenha chance real de cumprir a meta de limitar o aquecimento global a 1,5 grau Celsius, a Oxfam afirma que o 1% mais rico precisaria reduzir suas emissões em 97% até 2030. Trata-se de uma mudança radical no padrão de vida e nos modelos de consumo hoje associados à alta renda.

Viviana Santiago defende que a tributação progressiva sobre grandes fortunas e atividades altamente poluentes é uma forma de justiça climática. “É justo que essas pessoas que poluem mais sejam responsáveis por garantir recursos que possam contribuir pra conter os avanços dos impactos pra adaptar, pra mitigar, pra fazer uma transição energética justa”.

Outro ponto levantado pelo relatório é que o peso climático dos super-ricos não se limita ao consumo pessoal. Segundo a Oxfam, cada bilionário mantém, em média, uma carteira de investimentos que responde pela emissão de cerca de 1,9 milhão de toneladas de gás carbônico por ano. Ou seja, além de poluir diretamente, essa elite financia setores altamente emissores, como combustíveis fósseis, mineração e indústrias pesadas.

A influência política também aparece como fator central. A organização aponta que, na COP-30, o número de lobistas ligados a combustíveis fósseis foi maior do que qualquer delegação nacional, com exceção do próprio Brasil, país-sede do evento. Isso indica a capacidade de pressão econômica sobre decisões que deveriam priorizar a transição energética e a redução de emissões.

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Ao relacionar concentração de riqueza, crise climática e desigualdade social, o estudo reforça a ideia de que a mudança climática não é apenas um problema ambiental, mas também político e econômico. O padrão atual, segundo a Oxfam, perpetua um modelo no qual poucos concentram benefícios e muitos arcam com os custos, tanto em termos de renda quanto de sobrevivência.

SÃO PAULO WEATHER