Setor financeiro em 2025: tecnologia virou regra, confiança virou ativo

Setor financeiro em 2025: tecnologia virou regra, confiança virou ativo
Em 2025, tecnologia deixa de ser diferencial e passa a ser exigência central no sistema financeiro brasileiro, redefinindo padrões de inovação, segurança e responsabilidade/Freepik
Publicado em 29/12/2025 às 3:01

Nicolle Asam Katarivas*

O ano de 2025 entrou para a história do sistema financeiro brasileiro como aquele em que a tecnologia deixou definitivamente de ser promessa e passou a ser obrigação. Não foi um salto repentino nem um rompimento brusco com o passado. Foi mais parecido com aquele momento em que todo mundo percebe, ao mesmo tempo, que já não dá para fazer como antes. Bancos, fintechs, reguladores e consumidores foram empurrados para um novo patamar de exigência, em que inovação, segurança e responsabilidade caminham juntas, mesmo quando isso gera desconforto.

O símbolo mais evidente desse movimento continua sendo o Pix. Em 2025, o sistema de pagamentos instantâneos deixou de ser apenas rápido e barato para se tornar sofisticado. A chegada de funcionalidades como contestação automática, Pix por aproximação, Pix parcelado e a integração mais profunda com o Open Finance colocou o Brasil no centro do debate global sobre meios de pagamento. Não é exagero dizer que o Pix virou um produto de exportação institucional. Bancos centrais e autoridades monetárias de outros países passaram a olhar para o modelo brasileiro como referência prática, não como experimento acadêmico.

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Mas esse protagonismo também trouxe novos problemas. Quanto mais o Pix se expandiu, mais evidente ficou a necessidade de controles mais rigorosos contra fraudes, golpes e usos indevidos. A lógica simples do “paga e recebe” deu lugar a um sistema que exige monitoramento constante, inteligência de dados e respostas rápidas. O Pix de 2025 é mais poderoso, mas também mais complexo. E isso vale para todo o setor financeiro.

Outro movimento importante do ano foi a consolidação das stablecoins no debate regulatório e no uso prático. Depois de um período de euforia especulativa com criptoativos mais voláteis, o mercado começou a buscar estabilidade. As stablecoins, atreladas a moedas fortes ou a ativos de referência, ganharam espaço como alternativa para pagamentos internacionais, proteção cambial e até como instrumento de liquidez em operações financeiras. Ao mesmo tempo, o avanço da regulação deixou claro que o Estado brasileiro não pretende abrir mão de supervisionar esse mercado. Cripto deixou de ser terra sem lei e passou a ser território vigiado.

Esse movimento dialoga diretamente com os quatro anos do Open Finance, completados em 2025. O sistema de compartilhamento de dados financeiros amadureceu. Saiu da fase de curiosidade técnica e entrou na rotina de instituições e usuários. O escopo se ampliou para além dos dados bancários tradicionais, incorporando novos produtos, serviços e jornadas mais fluidas.

A experiência sem redirecionamento, por exemplo, tornou o uso menos burocrático e mais próximo do que o consumidor espera de soluções digitais modernas. Ainda assim, o Open Finance segue sendo um projeto em construção. A adesão cresce, mas ainda enfrenta resistência cultural e desafios operacionais, especialmente entre instituições menores.

Para bancos e fintechs, 2025 foi menos um ano de expansão acelerada e mais um ano de ajustes. A chamada Lei das Bets, a Instrução Normativa 2278 e outras normas ampliaram a pressão por controles mais rígidos. Combate à lavagem de dinheiro, prevenção a fraudes e atenção aos crimes contra a ordem tributária deixaram de ser áreas periféricas para ocupar o centro da estratégia de negócios. Quem não se adaptou, ficou para trás. Quem tentou empurrar com a barriga, pagou o preço em fiscalizações, sanções ou perda de credibilidade.

Nesse contexto, a inteligência artificial deixou de ser diferencial competitivo e passou a ser infraestrutura básica. Em 2025, IA virou ferramenta de sobrevivência. Não apenas para atendimento ao cliente ou automação de tarefas repetitivas, mas para análise de riscos, detecção de fraudes, gestão de crédito e tomada de decisões estratégicas.

A discussão deixou de ser “se” usar IA e passou a ser “como” usar, com que limites e com que grau de responsabilidade. A tecnologia avançou mais rápido do que as respostas éticas e regulatórias, e isso gerou um campo de tensão que ainda está longe de ser resolvido.

A agenda de sustentabilidade também ganhou peso real. O fato de a COP ter sido realizada em Belém ajudou a colocar o tema no centro do debate financeiro. Não se tratou apenas de discurso ou marketing verde. Instituições financeiras passaram a ser cobradas por coerência entre o que financiam e o que dizem defender.

Projetos, investimentos e políticas internas começaram a ser analisados sob a lente do impacto ambiental e social. Ainda há muito de retórico nesse processo, mas 2025 marcou um ponto de virada: sustentabilidade deixou de ser acessório reputacional e passou a integrar a lógica de risco e de negócio.

No campo da segurança cibernética, o aperto foi claro. O Banco Central ampliou as exigências para contratações de serviços de armazenamento e processamento de dados, com prazo de adequação até março de 2026. Não foi uma medida simbólica. Foi uma resposta direta ao aumento dos ataques, vazamentos e incidentes digitais.

A adesão do Brasil à Convenção das Nações Unidas contra o Crime Cibernético, em outubro de 2025, reforçou essa direção. O recado é simples: o sistema financeiro pode ser digital, mas não pode ser ingênuo.

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Olhando para 2026, o cenário não é de ruptura, mas de aprofundamento. Tecnologia, segurança e sustentabilidade tendem a permanecer no centro da agenda. A diferença é que o discurso da inovação fácil perdeu espaço. O que se busca agora é confiança. Confiança do consumidor, do regulador e do próprio mercado. Inclusão financeira, diversidade e acesso seguem como objetivos, mas passam a ser tratados com mais cautela e menos improviso.

O setor financeiro brasileiro saiu de 2025 mais maduro, mais vigiado e mais exposto. Isso não é necessariamente ruim. Em um ambiente de transformações sociais e tecnológicas aceleradas, estabilidade virou ativo estratégico. Quem entender isso cedo terá vantagem. Quem insistir em tratar inovação como moda passageira corre o risco de ficar preso a um sistema que já não existe mais.

*Nicolle Asam Katarivas é advogada da Manesco Advogados, especialista em operações de M&A pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP) e pós-graduada em direito empresarial.

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