Service as a software: a revolução da IA que está transformando o Direito

Service as a software: a revolução da IA que está transformando o Direito
O service as a software não chegou para substituir o profissional do Direito. Chegou para obrigar cada um de nós a ser mais humano do que nunca. Porque é exatamente isso que a máquina não consegue ser/Freepik
Publicado em 02/04/2026 às 3:00

Priscila Spadinger*

Voltei de Austin com a cabeça cheia e o caderno transbordando. O SXSW 2026 não foi, desta vez, sobre gadgets ou painéis com promessas de futuro distante. Foi sobre reconhecer o presente e perceber que o terreno sob nossos pés já mudou. Em meio a tantas conversas, palestras e conexões que construímos na missão da Aleve por lá, uma frase continuou ressoando: “a questão não é mais o que o software faz por você, mas o que o serviço se torna quando vira software.”

Isso tem nome. E o nome é service as a software, ou seja, o novo SaaS. Não confunda com o antigo modelo de software as a service, aquele que nos acostumou a assinar plataformas, logar em dashboards e torcer para que a ferramenta entregasse o que prometia no slide da proposta comercial. O conceito que emergiu com força total no ecossistema global de inovação é outro, e mais profundo: agora é o serviço em si que se transforma em software.

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A inversão que muda tudo

Durante décadas, o modelo dominante foi relativamente simples: pegava-se um serviço humano (uma consulta jurídica, uma auditoria contábil, uma análise de risco) e criava-se um software para apoiar quem o prestava. O profissional continuava no centro da entrega, e a tecnologia era o suporte. Um bom suporte, mas suporte.

O que está acontecendo agora é uma inversão estrutural. Com o avanço dos agentes de inteligência artificial (sistemas autônomos capazes de raciocinar, decidir e executar sequências complexas de tarefas) o software deixou de ser o meio e passou a ser o próprio resultado. O serviço não é entregue por um humano auxiliado por uma ferramenta; ele é entregue por uma camada inteligente de software que age como se fosse um especialista dedicado, disponível vinte e quatro horas, sem fila, sem fuso, sem fricção.

A Gartner, uma das empresas de consultoria e pesquisa de mercado mais influentes do mundo no setor de tecnologia da informação, estima que, em 2026, 40% dos softwares empresariais já incorporarão capacidades de IA agêntica, um salto vertiginoso frente a menos de 5% registrados há pouco tempo. A Bain & Company, uma das consultoras de gestão estratégica mais prestigiadas e influentes do mundo, avança além e projeta que, em três anos, qualquer tarefa digital rotineira pode migrar do modelo “humano + aplicativo” para o modelo “agente de IA + API”. Estamos no limiar dessa transição.

O Direito na encruzilhada

Para o mercado jurídico, essa transição tem implicações que vão muito além da automação de contratos ou da triagem de petições. O que o service as a software questiona, na essência, é: qual é o valor insubstituível que o profissional do Direito entrega? O que, nessa equação, é genuinamente humano?

A resposta honesta é desafiadora e libertadora ao mesmo tempo. Se o software pode entregar o serviço padrão com velocidade, escala e custo muito menores, o advogado que quiser continuar relevante precisará migrar para onde a máquina ainda não chega: o julgamento ético diante da ambiguidade, a empatia com o cliente em crise, a leitura estratégica de contextos que nenhum dataset captura completamente. Em outras palavras, o profissional do Direito não compete com o software, ele se torna o arquiteto do serviço que o software vai entregar.

Aqui reside uma das maiores oportunidades para as legaltechs brasileiras. Temos um cenário único: mais de 80 milhões de processos em tramitação, um Judiciário digitalmente integrado em nível nacional e uma população que historicamente não acessa a Justiça por conta dos custos e da complexidade. O service as a software, aplicado com responsabilidade e inteligência ao setor jurídico, pode reescrever essa equação de acesso, transformando o Direito em algo que chega onde ele ainda não chegou.

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Humano primeiro, sempre

Na Aleve, essa discussão não é teórica. Ela define como construímos nossas legaltechs. Adotamos um princípio que ficou ainda mais claro depois do SXSW 2026: antes de pensar em tecnologia, pensamos na pessoa.

Qual é a dor real do cliente? Qual é o momento em que ele mais precisa de apoio? Onde o processo atual o desumaniza, o faz esperar, o faz sentir pequeno diante de um sistema opaco? Só depois de responder a essas perguntas é que chegamos à tecnologia. O software vem a serviço do humano, não o contrário.

Essa ordem importa. Importa porque a indústria de software tem um vício histórico: apaixonar-se pela solução antes de entender o problema. Fundar uma startup porque a tecnologia é elegante, não porque a dor é real. Construir features que impressionam em demo, mas que ninguém usa no dia a dia. O service as a software, quando mal aplicado, pode reforçar esse vício em escala industrial, entregando serviços automatizados que resolvem eficientemente o problema errado.

O que aprendemos em Austin, nas conversas com fundadores, investidores e pesquisadores de todo o mundo, é que as empresas que estão liderando essa transição são exatamente aquelas que inverteram a lógica de dentro para fora: ouvem primeiro, constroem depois, e tratam o software como a materialização de um serviço que o ser humano sempre mereceu receber, mas que nunca foi viável oferecer em escala até agora.

O que muda para você

Se você é advogado, gestor jurídico ou empreendedor do setor, a pergunta prática é inevitável: o que faço com isso? A resposta não está em correr para implementar agentes de IA em todos os fluxos amanhã cedo. Está em fazer, primeiro, o exercício de mapear onde o seu serviço é realmente diferenciado pelo componente humano e onde, honestamente, ele é apenas processo repetível.

Essa clareza é estratégica. Porque ela revela ao mesmo tempo onde a tecnologia pode e deve agir com autonomia, e onde o profissional precisa se reposicionar como curador, supervisor e guardião da qualidade do serviço entregue pela máquina. No Direito, onde a responsabilidade é pessoal, intransferível e regulada pela OAB, esse papel de curadoria não é periférico, mas é sim o núcleo da proposta de valor do advogado do futuro.

Veja também: O Direito na era da policrise: como a tecnologia está redesenhando a advocacia global

O service as a software não chegou para substituir o profissional do Direito. Chegou para obrigar cada um de nós a ser mais humano do que nunca. Porque é exatamente isso que a máquina não consegue ser.

Aos negócios sempre.

*Priscila de Oliveira Spadinger é CEO da Aleve LegalTech Ventures S/A, advogada especializada em M&A (OAB/MG 103.190), investidora anjo e colunista do Portal Lex Legal Brasil. Lidera um portfólio de 11 legaltechs e acompanha de perto as transformações globais do ecossistema jurídico.

SÃO PAULO WEATHER