Sanções norte-americanas contra esposa de Moraes ampliam crise Brasil-EUA

Sanções norte-americanas contra esposa de Moraes ampliam crise Brasil-EUA
Sanções dos EUA contra Viviane Barci de Moraes ampliam a crise diplomática com o Brasil e levantam debate sobre soberania e uso político da Lei Magnitsky/PR
Publicado em 22/09/2025 às 16:05

Da redação de LexLegal

O governo de Donald Trump anunciou nesta segunda-feira (22) a inclusão de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, na lista de alvos da Lei Magnitsky. O mecanismo jurídico norte-americano, criado em 2012, prevê o bloqueio de bens e restrições financeiras a estrangeiros acusados de corrupção ou violações graves de direitos humanos. Com o tempo, a legislação ganhou alcance global e passou a ser aplicada também em cenários de disputa política.

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Segundo o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC), todos os ativos de Viviane nos Estados Unidos foram bloqueados, assim como qualquer empresa ligada a ela, incluindo a Lex Instituto de Estudos Jurídicos, em São Paulo. Na prática, a medida impede que Viviane e Alexandre de Moraes realizem transações financeiras com bancos norte-americanos, utilizem cartões de crédito internacionais vinculados a instituições dos EUA ou mantenham relações comerciais com empresas daquele país.

A decisão se soma à sanção já imposta ao próprio Moraes em julho, quando o secretário do Tesouro, Scott Bessent, acusou o ministro de ser “violador de direitos humanos” e de comandar “uma campanha opressiva de censura” no Brasil — alegações feitas sem a apresentação de provas. No caso de Viviane, o Departamento do Tesouro limitou-se a justificar que a penalidade decorre de sua ligação direta com o magistrado brasileiro.

Retaliação política e impactos diplomáticos

A escolha de incluir a esposa do ministro reforçou a leitura de que as sanções assumem caráter de retaliação política. O episódio ocorre semanas após o STF condenar o ex-presidente Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado. Moraes, relator das ações penais da trama golpista, tornou-se figura central desse processo.

Diplomatas brasileiros ouvidos reservadamente avaliam que a medida representa “uma escalada inédita” na relação entre Brasil e Estados Unidos. Para fontes do Itamaraty, a utilização da Lei Magnitsky nesse caso equivale a uma forma de pressão internacional em favor de Bolsonaro.

A tensão bilateral vinha se intensificando desde julho, quando o secretário de Estado Marco Rubio anunciou a revogação de vistos para ministros do STF e seus familiares. Pouco depois, o Washington Post revelou que membros do governo Trump discutiam com aliados brasileiros a extensão de sanções para pessoas próximas ao magistrado. Um funcionário do Departamento de Estado norte-americano, em condição de anonimato, chegou a afirmar que a decisão “mina a credibilidade dos EUA como defensores da democracia”, ao punir um juiz de Suprema Corte estrangeira por razões essencialmente políticas.

Entenda a Lei Magnitsky

A Lei Magnitsky foi aprovada pelo Congresso americano em 2012, após a morte do advogado russo Sergei Magnitsky, em uma prisão de Moscou, em 2009. Ele havia denunciado um esquema de corrupção bilionário e foi encarcerado após acusações forjadas. A legislação foi concebida para punir oligarcas e agentes estatais envolvidos em sua morte, impondo bloqueio de bens e impedindo o acesso ao sistema financeiro internacional.

Em 2016, a norma foi ampliada e transformada na Global Magnitsky Act, estendendo sua aplicação a qualquer pessoa estrangeira acusada de corrupção sistêmica ou violações de direitos humanos. Desde então, tornou-se um dos instrumentos mais poderosos da política externa americana, sendo aplicada contra autoridades de países como Rússia, Venezuela, Arábia Saudita e China.

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Por bloquear o acesso ao sistema financeiro internacional, altamente dependente do dólar, a lei passou a ser apelidada de “pena de morte financeira”. Como lembrou o advogado Thúlio Guilherme Nogueira, especialista em Direito Penal Econômico, “as sanções bancárias se tornaram a arma preferencial dos EUA. Mais do que tanques ou mísseis, é o bloqueio ao sistema financeiro internacional que enfraquece governos e indivíduos considerados inimigos estratégicos”.

Reações institucionais no Brasil

Supremo Tribunal Federal reagiu às sanções em nota oficial, classificando a medida como injusta. “Infelizmente, as autoridades norte-americanas foram convencidas de uma narrativa que não corresponde aos fatos: estamos diante de um julgamento que respeitou o devido processo legal e o amplo direito de defesa, com total publicidade”, declarou a Corte.

O comunicado reforçou que o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro teve importância histórica, ao punir a tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023. “Se já havia injustiça na sanção a um juiz pela sua atuação independente e dentro das leis e da Constituição, ainda mais injusta é a ampliação das medidas para um familiar do magistrado”, acrescentou o STF.

Além de Moraes, outros ministros, como Flávio Dino, Cristiano Zanin, Edson Fachin, Cármen Lúcia, Gilmar Mendes e Luís Roberto Barroso, também tiveram seus vistos suspensos pelos Estados Unidos, ampliando a percepção de ingerência externa.

O fator Bolsonaro e a influência de aliados

Para o professor José Renato Ferraz da Silveira, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), a situação configura “a maior crise entre Brasil e Estados Unidos em 201 anos de relações diplomáticas” e evidencia “uma clara interferência nos assuntos domésticos brasileiros”.

Silveira aponta ainda dois fatores relevantes: o peso político de Eduardo Bolsonaro e de Paulo Figueiredo nas articulações em Washington, e a leitura de Trump sobre o caso Bolsonaro como análogo à sua própria experiência após o ataque ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021. “Trump vê o caso de Bolsonaro como uma situação análoga ao que ele próprio enfrentou. Embora tenha sido alvo de investigação, nunca foi levado a julgamento e venceu a eleição presidencial de 2024. Após a condenação a Bolsonaro, ele afirmou: fizeram com ele o que tentaram fazer comigo e não conseguiram”, disse o professor.

Segundo Silveira, Trump não busca apenas a anistia de Bolsonaro e de seus aliados, mas deseja construir para ele uma trajetória de “redenção política”, espelhada em sua própria volta ao poder.

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Fragilidades jurídicas e soberania brasileira

Do ponto de vista jurídico, especialistas destacam que a medida expõe limites da soberania brasileira diante da força do sistema financeiro global. O ministro Flávio Dino, em decisão recente, já havia afirmado que leis e ordens estrangeiras não produzem efeitos automáticos no Brasil sem homologação ou concordância dos órgãos de soberania previstos na Constituição.

Apesar disso, como lembrou Nogueira, “bancos dificilmente desafiarão Washington, já que o risco é perder acesso ao dólar, ser excluídos de sistemas de compensação internacional e sofrer sanções secundárias capazes de inviabilizar suas operações”. Ou seja, ainda que a sanção não tenha eficácia jurídica no Brasil, seus impactos financeiros e reputacionais podem ser severos.

A dimensão regional e a resposta diplomática

O chanceler brasileiro Mauro Vieira reforçou a defesa da soberania nacional em discurso durante a Reunião de Chanceleres da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), em Nova York. “Não podemos admitir intervenções externas, sob nenhum pretexto. Permitir medidas de intimidação, sem nenhuma reação coletiva, seria um convite permanente a novas ingerências”, afirmou.

Vieira defendeu também a criação de um grupo de trabalho regional para acompanhar o diálogo com outras potências. Para ele, a unidade latino-americana é essencial diante de uma “ressurgência de atitudes insolentes que remontam não só ao século 20 como ao século 19”.

O discurso se insere em um contexto mais amplo, em que países da Celac manifestaram preocupação com movimentações militares dos EUA na região. Para o Brasil, o episódio reforça a necessidade de fortalecer o multilateralismo e criar alternativas de cooperação regional em temas como clima, integração econômica e segurança.

O caso expõe, de um lado, a força coercitiva do sistema financeiro global controlado pelos EUA; de outro, desafia o Brasil a reafirmar sua independência institucional. A aplicação da Lei Magnitsky contra familiares de magistrados abre um precedente que, segundo especialistas, desvirtua o propósito original do mecanismo e fragiliza sua legitimidade internacional.

Como destacou Silveira, trata-se de um episódio que combina pressão política, instrumentalização jurídica e cálculo eleitoral. Já para Nogueira, revela-se mais um exemplo de como sanções financeiras se tornaram uma ferramenta central de política externa, com alcance muito além dos campos de batalha.

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A reação do STF, somada à defesa da soberania feita pelo chanceler Mauro Vieira, indica que o Brasil buscará ampliar a resistência institucional e diplomática. No entanto, até que haja uma pacificação nas relações com os Estados Unidos, o impasse seguirá projetando sombras sobre a estabilidade das relações bilaterais e sobre o futuro das democracias na região.

SÃO PAULO WEATHER