Sanções econômicas e guerras ampliam custos humanos na disputa global

José Renato Ferraz da Silveira e Gabriela Graef*
A formulação de Eduardo Galeano — segundo a qual a guerra, despida de suas justificativas, revela um núcleo de apropriação — oferece um ponto de partida provocativo, mas requer tradução analítica para o vocabulário da política internacional contemporânea. Em vez de tratá-la como um diagnóstico moral absoluto, convém lê-la como uma hipótese sobre os incentivos estruturais que moldam o comportamento das grandes potências.
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Nas últimas décadas, a competição interestatal deixou de se expressar exclusivamente por ocupações territoriais clássicas e passou a operar por mecanismos mais difusos: sanções econômicas, controle de fluxos financeiros, domínio tecnológico e influência institucional.
Nesse ambiente, a fronteira entre coerção e governança torna-se progressivamente menos nítida. Instrumentos formalmente legais, como regimes de sanções, podem produzir efeitos sistêmicos profundos sobre economias inteiras, reconfigurando capacidades estatais sem o emprego direto da força militar.
É nesse contexto que ganham circulação narrativas amplamente difundidas — algumas associadas a leituras do realismo ofensivo de John Mearsheimer — segundo as quais a ordem internacional liderada pelos Estados Unidos teria produzido impactos humanos de larga escala, incluindo alegações de dezenas de milhões de mortes associadas a sanções e intervenções desde os anos 1970.
Esses números são frequentemente contestados do ponto de vista metodológico, por agregarem fenômenos distintos e premissas heterogêneas. Ainda assim, cumprem uma função política relevante: expressam a percepção de que a coerção econômica pode operar como forma indireta de violência.
Essa percepção adquire maior densidade empírica à luz da chamada Guerra ao Terror. Pesquisas do Costs of War Project estimam que os conflitos vinculados a essa campanha resultaram em mais de 4,5 milhões de mortes, incluindo efeitos indiretos decorrentes da degradação de infraestrutura, do colapso de sistemas de saúde e dos deslocamentos massivos.
Tais dados não apenas ampliam a compreensão dos custos humanos da intervenção militar, como também reforçam a necessidade de incorporar externalidades de longo prazo à avaliação estratégica de operações internacionais.
A referência recorrente a 1971 como marco histórico — tanto pela ruptura de Bretton Woods quanto pelo contexto geopolítico da Guerra Fria — sugere uma inflexão decisiva: a crescente centralidade dos instrumentos econômicos na projeção de poder.
A partir desse período, a capacidade de influenciar mercados, moedas e cadeias produtivas passou a complementar e, em certos casos, a substituir o uso direto da força. Nesse sentido, o poder estrutural, tal como formulado por Susan Strange, tornou-se tão decisivo quanto o poder militar.
Isso não significa, contudo, que a política internacional possa ser reduzida a uma lógica unidimensional de extração ou “roubo”. Estados operam sob múltiplos imperativos: segurança, prestígio, estabilidade doméstica e compromissos institucionais.
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Intervenções externas frequentemente combinam motivações estratégicas legítimas, interesses materiais e percepções ideológicas. A simplificação excessiva obscurece essas camadas e empobrece a formulação de políticas eficazes.
Ainda assim, a provocação de Galeano preserva valor heurístico. Ela chama atenção para a persistência de assimetrias na distribuição dos custos e benefícios da ordem internacional. Enquanto as grandes potências dispõem de instrumentos para externalizar custos — por meio de intervenções militares, sanções ou mecanismos financeiros —, os Estados mais frágeis tendem a absorver os impactos mais severos.
Além disso, a sofisticação crescente dos mecanismos de coerção internacional deslocou parte substantiva do debate estratégico para arenas aparentemente técnicas: sistemas de pagamento, padrões regulatórios, regimes de compliance, cadeias tecnológicas e acesso a insumos críticos.
A exclusão de países de circuitos financeiros centrais, a limitação de acesso a semicondutores e a imposição de barreiras tecnológicas revelam que a disputa contemporânea por poder se desenrola, em larga medida, no interior da própria interdependência global.
Nesse cenário, a neutralidade institucional frequentemente invocada por organismos e mecanismos internacionais torna-se objeto de contestação, sobretudo quando seus efeitos recaem de forma assimétrica sobre determinados atores estatais.
Esse deslocamento altera também a própria natureza da legitimidade internacional. Se, no passado, a força militar exigia justificativas públicas imediatas, os instrumentos econômicos e financeiros tendem a operar sob uma aparência técnica que dilui responsabilidades políticas.
O resultado é um ambiente em que decisões com alto impacto humanitário podem ser implementadas sem o mesmo grau de escrutínio normativo aplicado às intervenções armadas tradicionais. Essa dinâmica exige que a análise em Relações Internacionais amplie seus critérios de avaliação, incorporando não apenas a legalidade formal, mas também a proporcionalidade material de seus efeitos.
Para analistas e formuladores de política, o desafio consiste em equilibrar duas exigências fundamentais: reconhecer a complexidade dos incentivos estratégicos sem ignorar os efeitos humanos cumulativos das decisões de poder.
A credibilidade da ordem internacional depende, em última instância, da capacidade de alinhar meios e fins — e de reduzir a distância entre as justificativas normativas e as consequências empíricas das ações estatais.
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Se Galeano oferece a crítica, a disciplina de Relações Internacionais deve oferecer o método: distinguir entre retórica e realidade, entre causalidade e correlação, entre poder legítimo e coerção excessiva. É nesse espaço analítico — e não na polarização — que se constrói a compreensão estratégica.
*José Renato Ferraz da Silveira é professor Titular da Universidade Federal de Santa Maria – UFSM e Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Gabriela Graef é graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Maria -UFSM e membro do Grupo de Teoria, Arte e Política.