Sami Arap: “A Vale aprendeu com a dor – segurança e integridade são inegociáveis”

Sami Arap: “A Vale aprendeu com a dor – segurança e integridade são inegociáveis”
Sami Arap, vice-presidente executivo de Assuntos Jurídicos da Vale, fala sobre inovação, sustentabilidade e o papel estratégico do jurídico na transformação da companhia durante entrevista à LexLegal na Fenalaw 2025, em São Paulo/Fenalaw
Publicado em 22/10/2025 às 13:47

Luciano Teixeira – São Paulo

Ele comanda uma das maiores estruturas jurídicas do país e está à frente de uma das companhias mais influentes do planeta. Sami Arap, vice-presidente executivo de Assuntos Jurídicos da Vale, representa a nova geração de líderes corporativos que enxergam o Direito como parte essencial da estratégia de negócios. À frente de uma equipe de quase 170 advogados e de áreas como Regulação, Licenciamento Ambiental, Propriedade Intelectual, Trade Compliance e Proteção de Dados, Arap tem a missão de consolidar a “mineração do futuro” — um modelo baseado em inovação, sustentabilidade e segurança.

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Para ele, o jurídico deve ser mais do que um centro de defesa: precisa funcionar como o motor de governança e transformação de uma empresa que carrega o peso e a responsabilidade de ser símbolo do Brasil no mundo.

No comando da área desde junho de 2025, Arap lidera uma das estruturas jurídicas mais complexas do país, responsável não só pelo jurídico, mas também pelos setores de Assuntos Regulatórios, Licenciamento Ambiental, Propriedade Intelectual, Trade Compliance e Proteção de Dados. Sua chegada à companhia marca uma nova etapa de integração entre o Direito e a estratégia empresarial, num momento em que a Vale consolida práticas de segurança operacional e reforça seu compromisso com as comunidades onde atua.

Com mais de duas décadas de carreira, Sami Arap construiu uma trajetória no Brasil e no exterior. Antes de ingressar na Vale, foi sócio do Arap Nishi & Uyeda Advogados, em São Paulo, e foreign legal consultant no escritório Fox Horan & Camerini LLP, em Nova York. Também passou pelas diretorias jurídicas de Construtora Norberto OdebrechtEnron América do Sul e Brasil Telecom, além de ter participado de conselhos de administração e comitês de ética e governança em empresas de mineração. Fora do setor jurídico, presidiu a Confederação Brasileira de Rugby e o Conselho de Ética do Comitê Olímpico do Brasil, experiência que reforçou sua visão de liderança e gestão de crises.

Formado em Direito pela PUC-SP, com mestrado em Filosofia do Direito e Direito Asiático pela New York University School of Law e especialização em Direito Comercial pela Harvard Law School, Arap combina técnica e visão estratégica. Essa formação internacional o ajuda a enxergar o papel do advogado corporativo como agente de transformação — alguém que traduz riscos em soluções e antecipa movimentos de mercado.

Durante a conversa com LexLegal, na abertura da Fenalaw 2025 em São Paulo, Sami falou sobre a estrutura do departamento jurídico da Vale, o uso crescente de inteligência artificial em processos internos e as mudanças que vêm moldando a mineração global. Também abordou as lições institucionais deixadas pelos desastres de Mariana e Brumadinho, a corrida mundial por minerais estratégicos e a responsabilidade de comandar a área jurídica de uma empresa do tamanho da Vale. Leia a seguir.

LexLegal: Qual é o tamanho hoje da assessoria jurídica da Vale? Vocês são quantos e quais os principais desafios que enfrentam à luz de 2025?

Sami Arap: Hoje eu ocupo uma vice-presidência executiva, um cargo estatutário dentro da Vale, e tenho sob minha responsabilidade três diretorias que se conectam de forma direta: a Diretoria Jurídica, a Diretoria de Assuntos Regulatórios e a Diretoria de Licenciamento Ambiental. O Jurídico cuida da gestão dos processos judiciais, da governança e das grandes decisões estratégicas da companhia. A Diretoria de Assuntos Regulatórios acompanha de perto as agências — portos, ferrovias, energia, óleo e gás — e toda a relação institucional com o poder público. Já o Licenciamento Ambiental garante que todas as obras da Vale estejam devidamente licenciadas, em conformidade com as normas ambientais e sociais.

Atualmente, contamos com uma equipe de aproximadamente 160 a 170 advogados. É uma estrutura robusta, mas que exige uma rede de colaboração com escritórios parceiros. Sempre fiz questão de dizer que não trabalhamos com o critério de menor preço. O que buscamos é uma remuneração justa e, principalmente, profissionais que compreendam o negócio da Vale em profundidade. Esses escritórios precisam mergulhar nos temas e atuar como verdadeiros parceiros. Na prática, funcionam como uma extensão da nossa equipe interna, com total alinhamento de valores, cultura e objetivos. O sentimento de pertencimento é essencial. Eles têm de se sentir parte da Vale.

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LexLegal: Você comentou que as minas estão praticamente autônomas. Como funciona essa estrutura dentro da Vale hoje?

Sami Arap: A Vale vem passando por um processo profundo de reinvenção. Quando falamos em “mineração do futuro”, falamos de um conceito que vai muito além da produção. Trata-se de um modelo de mineração sustentável, responsável e tecnológico. A sustentabilidade, nesse contexto, é atuar de forma mais próxima das comunidades, criar melhores condições de vida, preservar o meio ambiente e mudar a forma de operar.

No passado, a mineração era altamente dependente da água e de barragens de rejeitos — estruturas que, infelizmente, protagonizaram dois dos maiores acidentes da história da empresa. A partir desses eventos, transformamos radicalmente nossa forma de atuar. Hoje, o processamento a seco é uma realidade, o que significa que muitas operações da Vale não utilizam mais água para o beneficiamento do minério.

Além disso, a tecnologia está em tudo. Locomotivas que antes exigiam dois ou três maquinistas agora podem ser operadas por um único profissional, com controle em tempo real a partir de uma sala de comando. E os caminhões fora de estrada — enormes veículos que circulam nas minas — já são automatizados, sem necessidade de motorista. Essa automação traz mais segurança, reduz riscos humanos e amplia a eficiência operacional. A mineração do futuro é isso: inovação, sustentabilidade e segurança trabalhando juntas.

LexLegal: A Vale enfrentou grandes desafios nos últimos anos, especialmente com os desastres ambientais. Como foi passar por isso e quais as lições aprendidas?

Sami Arap: A primeira e mais importante lição é que segurança é um valor inegociável. Nada é mais importante do que a integridade das pessoas. Nenhum investimento é grande demais quando se trata de garantir segurança operacional. É preciso ter humildade para reconhecer os erros, respeitar as vítimas e manter viva a memória dos que se foram. A Vale se estruturou para atuar fortemente em três frentes de reparação: pessoal, patrimonial e ambiental.

Hoje, a empresa é referência em padrões de segurança e em programas de indenização e compensação. Mais do que isso, a Vale passou a investir intensamente em educação, cultura e saúde nas comunidades próximas às suas operações. Muitos desses investimentos ultrapassam as obrigações legais ou contratuais da empresa — são iniciativas de responsabilidade social e de reconstrução de confiança. Em municípios próximos às minas, temos uma atuação direta e contínua, com escuta ativa da população.

Do ponto de vista jurídico, ainda lidamos com milhares de ações, no Brasil e no exterior. No caso de Mariana, por exemplo, tratava-se de uma barragem da Samarco, cuja operação era compartilhada entre Vale e BHP. Ambas as empresas foram chamadas à responsabilidade como acionistas. Já em Brumadinho, a barragem era da própria Vale. Houve um erro técnico, um erro humano, e isso vem sendo analisado com profundidade nos processos. O nosso papel é garantir que as ações avancem, com responsabilidade e respeito, buscando sempre reparação integral e soluções sustentáveis.

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LexLegal: E qual o principal aprendizado para o departamento jurídico?

Sami Arap: O aprendizado foi imenso. O Jurídico precisa ser um guardião da integridade e do patrimônio da companhia, mas também um agente de transformação. Aprendemos que não basta reagir a crises; é preciso prevenir, agir de forma proativa e ética. Escolher bem os parceiros, acompanhar de perto cada decisão e manter o diálogo constante com a sociedade.

Do ponto de vista humano, aprendi que cuidar da equipe é cuidar da empresa. Eu sou, antes de tudo, um gestor de pessoas. Tenho que zelar pela segurança, pela integridade e pelo bem-estar dos colaboradores. Esse é o verdadeiro papel de liderança. A cultura de segurança passou a ser transversal na Vale. Hoje, segurança é prioridade absoluta em todas as áreas, inclusive na jurídica.

LexLegal: O mundo vive uma corrida global por minerais estratégicos. Como a Vale se posiciona nesse contexto?

Sami Arap: A Vale está fortemente posicionada em minerais considerados críticos para o desenvolvimento industrial e tecnológico global. Nosso foco principal está em três produtos: minério de ferro de alto teor, cobre e níquel. Esses três elementos são fundamentais para a transição energética e para a produção de tecnologias limpas. O minério de ferro de alto teor é essencial para a siderurgia de baixo carbono; o níquel e o cobre são indispensáveis na fabricação de baterias e componentes elétricos.

De tempos em tempos surgem especulações sobre a entrada da Vale em novos setores, como o lítio ou as terras raras. Mas, neste momento, a estratégia da companhia é consolidar sua excelência nessas três frentes e analisar novas oportunidades com cautela. Entrar em um novo segmento exige considerar aspectos geopolíticos, econômicos, financeiros e técnicos. A Vale olha para isso com responsabilidade e visão de longo prazo.

LexLegal: A inteligência artificial tem transformado os processos na empresa, especialmente na área jurídica?

Sami Arap: Sim, de maneira significativa. A Vale possui uma diretoria de inovação e sistemas ligada à vice-presidência de segurança, e o uso de inteligência artificial é parte dessa transformação. No campo jurídico e regulatório, temos investido fortemente em ferramentas que aumentam a eficiência e a precisão das nossas análises. O investimento é alto, mas o retorno vem com o tempo. A tecnologia permite mapear riscos, automatizar fluxos de contratos e gerar relatórios complexos em minutos. Isso libera os profissionais para pensar estrategicamente.

Pouca gente sabe, mas a Vale também atua como uma grande fomentadora de startups. Mantemos um portfólio de empresas inovadoras nas áreas de engenharia, meio ambiente e até jurídico. Quando identificamos uma tecnologia promissora, avaliamos a possibilidade de investir no seu desenvolvimento. É um ciclo virtuoso de inovação.

LexLegal: Quais são os maiores desafios de ser vice-presidente jurídico de uma das maiores empresas do mundo?

Sami Arap: É, sem dúvida, uma responsabilidade gigantesca. A Vale é a maior empresa brasileira e uma das maiores investidoras do país em cultura, esporte e desenvolvimento social. A cadeira pesa. O paletó é grande. Mas é motivo de muito orgulho. Fazer parte do comitê executivo da Vale é integrar um grupo que busca, todos os dias, entregar um país melhor. O maior desafio é equilibrar as múltiplas dimensões do cargo: lidar com governos, órgãos reguladores, comunidades, tribunais e o próprio mercado internacional. São agendas complexas e interdependentes.

O que me guia é o propósito. Acredito que o Direito é uma ferramenta para melhorar a sociedade. Quero deixar um legado de integridade, cidadania e sustentabilidade. Meu conselho para os jovens advogados e estudantes é: invistam em formação contínua. Participem de cursos no Brasil e no exterior, ampliem horizontes e não tenham medo de desafios. O Brasil é um celeiro de talentos reconhecidos mundialmente. E, para mim e para minha família, é uma honra representar o país e conduzir a vice-presidência executiva da Vale.

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Todos os dias enfrentamos desafios administrativos, operacionais e políticos. Lidar com comunidades, governos e o Congresso exige serenidade, bom senso e transparência. É essencial ser objetivo, falar a verdade e saber dizer “sim” ou “não” com clareza. Não há espaço para meias-palavras. O que faço, o que não faço e sob quais condições — essa é a base da ética e da credibilidade.

SÃO PAULO WEATHER