Reviravolta no Grupo Pão de Açúcar: acionista quer destituir todo o comando da empresa

Reviravolta no Grupo Pão de Açúcar: acionista quer destituir todo o comando da empresa
A investida acontece após Tanure adquirir cerca de 9% das ações do GPA em 2024, tornando-se o segundo maior acionista individual da companhia, atrás apenas do grupo francês Casino, que ainda detém 22,5% do capital/GPA
Publicado em 31/03/2025 às 15:41

Da redação de LexLegal

A mais recente movimentação do investidor Nelson Tanure reacendeu os holofotes sobre o Grupo Pão de Açúcar (GPA). O fundo de investimento Saint German, controlado por Tanure, protocolou um pedido formal para que o GPA convoque uma Assembleia Geral Extraordinária (AGE) com o objetivo de destituir o atual conselho de administração e eleger novos membros. A proposta marca um novo capítulo na trajetória do empresário conhecido por assumir posições relevantes em empresas em dificuldade e propor reestruturações profundas.

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A investida acontece após Tanure adquirir cerca de 9% das ações do GPA em 2024, tornando-se o segundo maior acionista individual da companhia, atrás apenas do grupo francês Casino, que ainda detém 22,5% do capital. A proposta apresentada por Tanure inclui a formação de um novo conselho de nove membros, com mandato unificado de dois anos. Três desses nomes seriam indicados diretamente por ele: Pedro de Moraes Borba, Rodrigo Tostes Solon de Pontes e Sebastián Dario Los.

“O foco em um balanço sólido permitirá que a companhia tenha mais flexibilidade em suas operações e uma maior capacidade de crescimento”, afirmou Tanure. Segundo ele, a intenção não é mudar substancialmente a estratégia atual da empresa, mas sim reforçar as medidas de ajuste fiscal e racionalização de investimentos.

Redução da dívida e foco em eficiência

No comunicado enviado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o fundo Saint German justificou a proposta como uma forma de promover uma “avaliação cuidadosa das diretrizes que regem a companhia”. A principal motivação, segundo o fundo, é a necessidade urgente de reduzir o nível de endividamento da varejista.

“O alto nível de endividamento pode comprometer a liquidez e a capacidade da companhia de investir em oportunidades de crescimento”, diz a justificativa encaminhada pelo fundo. O GPA encerrou o quarto trimestre de 2024 com uma dívida líquida de R$ 1,3 bilhão, considerando os recebíveis não antecipados.

Entre as estratégias sugeridas estão a venda de ativos não essenciais (os chamados “non core”), a revisão de investimentos futuros e a otimização do capital de giro. Além disso, o fundo defende uma revisão dos contratos de aluguel, dos custos corporativos e das despesas gerais como forma de “maximizar a rentabilidade”.

Quem são os indicados de Tanure

A proposta do fundo inclui a nomeação de três conselheiros com vínculos diretos ou históricos com Tanure:

  • Pedro de Moraes Borba: conselheiro da Ambipar, empresa de serviços ambientais na qual Tanure tem investimentos;
  • Rodrigo Tostes Solon de Pontes: atual diretor financeiro e de relações com investidores da Light, companhia de energia controlada por Tanure;
  • Sebastián Dario Los: executivo com vasta experiência no setor de varejo e histórico em operações de reestruturação.

Além dos três indicados, o novo conselho proposto também contaria com nomes que já integram o atual colegiado, como Ronaldo Labrudi, Marcelo Pimentel (CEO do GPA) e Cristophe Hidalgo, sinalizando que a mudança não pretende ser uma ruptura completa com a atual gestão.

GPA avalia solicitação e deve convocar AGE

Em fato relevante divulgado no domingo (30), o GPA informou que, após análise do pedido, convocará a assembleia geral extraordinária dentro do prazo legal de até sete dias. A AGE deve ocorrer no início de maio, segundo fontes ligadas à companhia.

Em nota, o grupo informou que o pedido está sendo analisado “nos termos da legislação aplicável” e que a empresa manterá o mercado informado sobre os desdobramentos.

Sem mudanças estratégicas?

Apesar do pedido de substituição do conselho, o fundo Saint German afirmou que não pretende alterar “substancialmente o direcionamento geral dos negócios sociais”. A ideia, segundo o fundo, é manter o plano de negócios da empresa e suas atividades alinhadas às diretrizes da atual administração, focando principalmente na eficiência operacional e financeira.

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Essa postura tem sido vista por analistas como uma tentativa de Tanure de ganhar espaço no processo decisório da companhia sem desencadear uma disputa aberta com os demais acionistas. Ainda assim, o movimento é interpretado como uma pressão clara para acelerar os ajustes financeiros, sobretudo diante da difícil situação do setor varejista brasileiro, afetado por juros altos, baixa confiança do consumidor e aumento da concorrência digital.

Trajetória de Tanure: aposta em reestruturações

Nelson Tanure construiu sua reputação no mercado justamente por assumir empresas em dificuldades e implementar reestruturações ousadas. Já atuou em companhias como Docas Investimentos, Oi, Moinho Dias Branco, Petrobras Distribuidora (BR) e, mais recentemente, Light.

No caso da Light, a empresa entrou com pedido de recuperação judicial em 2023, mas Tanure apostou na reestruturação da dívida e manteve a operação funcionando. Em outros casos, como na área de telecomunicações e infraestrutura, sua atuação foi marcada por reviravoltas estratégicas e disputas societárias intensas.

Segundo especialistas do mercado, sua entrada no GPA pode sinalizar uma nova fase de racionalização e foco em rentabilidade para a varejista, que vem enfrentando margens comprimidas e competição acirrada.

Cenário para a AGE

A assembleia convocada deve testar a força política de Tanure frente aos demais acionistas, sobretudo o Casino, que mesmo com seus desafios financeiros na França, ainda mantém participação significativa no capital do GPA.

O desfecho da votação poderá indicar se Tanure terá êxito em implementar sua agenda de mudanças, mesmo que sob o discurso de continuidade estratégica. Caso sua proposta seja aprovada, o empresário passa a ter influência direta sobre o conselho, o que pode acelerar a adoção das medidas que defende.

Analistas de mercado acompanham com atenção o caso, já que a decisão poderá ditar os rumos da governança da varejista e, consequentemente, sua capacidade de se recuperar financeiramente nos próximos trimestres.

Impactos no varejo e repercussão no mercado

A movimentação de Tanure acontece num momento em que o setor de varejo vive uma fase de reestruturações e consolidação. Diversas redes têm fechado lojas, vendido ativos ou buscado fusões e aquisições como forma de ganhar escala e melhorar rentabilidade. O GPA, por sua vez, enfrenta desafios como alta da inflação, concorrência com o e-commerce e a necessidade de modernização de suas lojas físicas.

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Com cerca de 700 unidades, a maioria delas no Estado de São Paulo, além de operações online, o GPA tem tentado se reposicionar no mercado nos últimos anos, inclusive com a venda de ativos na América Latina e foco em segmentos mais rentáveis.

A proposta de Tanure é mais um capítulo dessa jornada de reestruturação e sinaliza que a pressão por resultados mais consistentes está longe de terminar.

SÃO PAULO WEATHER