Renda do 0,1% mais rico cresce cinco vezes mais rápido que a média dos brasileiros

Renda do 0,1% mais rico cresce cinco vezes mais rápido que a média dos brasileiros
Estudo do FiscalData mostra que o 0,1% mais rico do Brasil concentra cada vez mais renda, impulsionado por dividendos e juros sobre capital próprio, enquanto o restante da população cresce a passos lentos/Marcello Casal JrAgência Brasil
Publicado em 20/08/2025 às 11:30

Da redação de LexLegal

Entre 2017 e 2023, o Brasil registrou um salto expressivo na concentração de renda no topo da pirâmide social. O grupo formado pelos 0,1% mais ricos da população — cerca de 160 mil pessoas — viu sua renda aumentar 6,9% no período, enquanto a renda média dos brasileiros cresceu apenas 1,4%.

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Na prática, isso significa que a parcela mais abastada do país deixou de deter 9,1% da renda nacional em 2017 para concentrar 12,5% em 2023. O levantamento foi realizado pelo FiscalData, grupo de pesquisadores especializados em orçamento público e tributação, com base em informações do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) da Receita Federal.

O estudo foi assinado pelos economistas Frederico Nascimento Dutra, cientista de dados da Minsait; Priscila Kaiser Monteiro, mestre pela PUC-RS; e Sérgio Gobetti, pesquisador do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

Quanto ganha a elite da elite

Para o grupo do 0,1% mais rico, a renda mensal mínima é de R$ 146,1 mil, mas a média chega a R$ 516 mil.

Ainda mais restrito, o grupo do 0,01% mais rico — formado por apenas 16 mil pessoas — passou de 4,3% da renda nacional em 2017 para 6,2% em 2023. Nesse estrato, a renda média é de impressionantes R$ 2,57 milhões por mês.

Já o 1% mais rico, que reúne 1,6 milhão de brasileiros com ganhos a partir de R$ 34,7 mil mensais, aumentou sua participação de 20,4% para 24,3% da renda total no mesmo período, com renda média de R$ 103,8 mil.

Enquanto a economia brasileira cresceu 1,8% ao ano e a renda das famílias 1,4% ao ano, o 1% mais rico teve expansão de 4,4% ao ano.

O motor da desigualdade: dividendos e JCP

Segundo os pesquisadores, a principal explicação para o aumento da concentração de renda está no pagamento de dividendos e juros sobre capital próprio (JCP).

Esses mecanismos são formas de distribuir o lucro das empresas aos seus acionistas. No caso do 1% mais rico, 87,1% do ganho adicional veio desse tipo de rendimento. No 0,1% mais rico, a fatia foi de 66%.

Para Gobetti, fatores como inflação alta no Brasil e a valorização de commodities no mercado internacional — produtos como soja, milho e minério de ferro — ajudaram a ampliar os lucros das grandes empresas e exportadores. “Uma hipótese que aventamos é que a elevada inflação doméstica, somada à alta dos preços internacionais de algumas commodities, possa ter alavancado os lucros obtidos por grandes empresários e exportadores, embora o volume de produção tenha se mantido com crescimento modesto, assim como a massa salarial”, escreveram os autores.

Divergência com os dados do IBGE

Os resultados do FiscalData divergem dos números do IBGE, que apontaram em 2023 a menor desigualdade desde 2012.

A diferença está na forma de coleta: o IBGE utiliza dados da Pnad Contínua, pesquisa feita por amostragem domiciliar com base na autodeclaração dos entrevistados. Já o FiscalData analisou diretamente as declarações de imposto de renda.

“Como já se suspeitava, as pesquisas domiciliares tendem a subestimar a renda, especialmente no topo da distribuição, seja por omissão, seja pelo desconhecimento dos entrevistados quanto à magnitude de seus ganhos, quando se consideram múltiplas fontes de rendimento”, explicam os economistas.

Eles destacam que é comum o entrevistado declarar corretamente o salário, mas ignorar ou não mensurar ganhos adicionais, como dividendos, aplicações financeiras ou ganhos de capital.

Propostas de mudança na tributação

Na conclusão do artigo, os autores defendem que apenas programas sociais e transferências de renda, apesar de fundamentais para reduzir a pobreza, não são suficientes para enfrentar a crescente concentração no topo.

A saída, apontam, está em uma reforma tributária que corrija distorções como a isenção sobre dividendos.

“A boa notícia é que uma reforma da tributação da renda que enfrente esse desafio pode ser positiva, não apenas do ponto de vista distributivo, mas também do ponto de vista da eficiência econômica, na medida em que muitas das brechas e distorções que hoje beneficiam o topo da pirâmide social brasileira também parecem ser prejudiciais à competitividade e ao desenvolvimento econômico”, conclui o estudo.

O debate ocorre em paralelo à análise, na Câmara dos Deputados, do Projeto de Lei 1.087/2025, que prevê isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês e a cobrança de uma alíquota extra de até 10% para rendas acima de R$ 600 mil anuais.

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Gobetti acrescenta que a tributação de dividendos não deveria causar impacto direto nos preços ao consumidor. “O raciocínio sobre repasse para preços pode servir se estivéssemos falando de tributar o lucro das empresas. Mas o que está em discussão é tributar os dividendos distribuídos para os sócios”, afirmou.

SÃO PAULO WEATHER