Relatório mostra que 66% dos moradores de áreas de risco no Brasil são negros

Relatório mostra que 66% dos moradores de áreas de risco no Brasil são negros
© Arquivo/Fernando Frazão/Agência Brasil
Publicado em 14/11/2025 às 14:54

Da redação de LexLegal

O quadro das desigualdades urbanas no Brasil volta ao centro do debate internacional com a apresentação do relatório “Sem Moradia Digna, Não Há Justiça Climática”, elaborado pela ONG Habitat para a Humanidade Brasil. O estudo, lançado durante a COP30 em Belém, revela que 66,58% das pessoas que vivem em áreas de risco no país são negras — um recorte que reforça como a crise climática se cruza com a crise habitacional e aprofunda vulnerabilidades históricas.

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A publicação alerta para um dado que permanece à margem das discussões globais: apenas 8% das metas climáticas voluntárias apresentadas pelos países incluem questões relacionadas às cidades, favelas e comunidades. Segundo a ONG, ignorar o aspecto urbano significa desconsiderar a ponta mais frágil dos impactos ambientais — onde moradias são destruídas, infraestrutura colapsa e as famílias mais pobres sofrem perdas recorrentes.

Os números reunidos pelo relatório abrangem 129 cidades brasileiras. Entre 2013 e 2022, o país registrou cerca de 2,1 milhões de casas danificadas por desastres climáticos e 107 mil moradias totalmente destruídas. E novamente o recorte racial e de gênero aparece: as famílias chefiadas por mulheres negras são as mais atingidas.

Desigualdade, clima e território

O estudo propõe uma análise em três dimensões — adaptação, perdas e danos, e reconstrução — para entender por que determinados grupos estão sempre mais expostos. A partir de perguntas diretas, como “quem ‘escolhe’ morar em área de risco e por quê?”, o relatório evidencia que a permanência nessas regiões está ligada à ausência de alternativas, ao preço da terra e à negligência histórica do poder público.

Entre os pontos mais críticos, a publicação destaca a confusão crescente entre adaptação climática e remoções forçadas. Em várias cidades, governos locais têm retirado comunidades inteiras sob o argumento de proteção ambiental, prática conhecida como “remoções verdes”. A ONG afirma que essas medidas ocorrem sem participação popular, sem transparência e sem garantia de moradia digna em áreas bem localizadas.

Em outros casos, as falhas na resposta emergencial obrigam famílias a retornar às mesmas áreas de risco, por não existirem políticas duradouras de reconstrução e reassentamento. O resultado é a repetição do ciclo de desastre-perda-retorno, que transforma eventos extremos em rotina.

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Os dados apresentados em Belém reforçam um diagnóstico recorrente de urbanistas e especialistas: a crise climática, quando combinada com desigualdades raciais, territoriais e socioeconômicas, não só destrói casas, mas também impede que milhões de brasileiros tenham acesso ao direito básico à cidade. Para a Habitat Brasil, enfrentar o problema exige incorporar a pauta urbana nas políticas climáticas e abandonar a lógica de soluções paliativas.

SÃO PAULO WEATHER