Relatório denuncia tortura e más condições em manicômios judiciários do Brasil

Relatório denuncia tortura e más condições em manicômios judiciários do Brasil
Inspeções do CFP e CNJ apontam violações, racismo e práticas abusivas em instituições de custódia psiquiátrica no país/Rovena Rosa/Agência Brasil
Publicado em 10/08/2025 às 15:30

Da redação de LexLegal

 Inspeções realizadas pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) em manicômios judiciários de diferentes regiões do país revelaram práticas como aplicação de choque elétrico, medicalização forçada, violência física e psicológica, isolamento punitivo e outras formas de tortura. Os resultados integram o Relatório de Inspeção Nacional: Desinstitucionalização dos Manicômios Judiciários, apresentado pelo CFP, em parceria com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Durante o lançamento do documento, a presidenta do CFP, Alessandra Almeida, classificou o material como “uma denúncia pública e técnica que escancara o que o Brasil insiste em esconder através dos muros e grades dos estabelecimentos de custódia e tratamento psiquiátricos: a continuidade de práticas de tortura, abandono, medicalização forçada e o encarceramento que pode equivaler, na prática, com prisões perpétuas”.

Os manicômios judiciários, destinados a pessoas com transtorno mental ou deficiência psicossocial em conflito com a lei, estão no centro das mudanças previstas pela Resolução nº 487/2023 do CNJ, que instituiu a Política Antimanicomial do Poder Judiciário e recomendou o fechamento dessas unidades. Segundo Alessandra, o levantamento constatou violações sistemáticas e recorrentes, incluindo contenções físicas e químicas sem respaldo clínico, agressões verbais e físicas, afastamento compulsório de familiares e inexistência de canais seguros para denúncias.

O relatório identificou 2.053 pessoas com deficiência psicossocial ainda institucionalizadas nessas unidades, caracterizadas por uma lógica de exclusão e isolamento. “São práticas que contrariam frontalmente a prescrição de cuidado e atenção à saúde que devem ser direcionadas à essa população, conforme o que estabelece a Lei 10.216/2001 [Lei da Reforma Psiquiátrica], Convenções Internacionais das quais o Brasil é signatário e uma série de dispositivos e normativas que orientam a política de saúde mental no país”, destacou a dirigente.

Entre janeiro e março de 2025, equipes do CFP estiveram presencialmente em 42 instituições localizadas em 21 unidades federativas, abrangendo as cinco regiões do Brasil. Dez anos após o primeiro levantamento da entidade, a nova inspeção concluiu que esses locais mantêm práticas que combinam “o pior da prisão com o pior do hospício”. Conforme o documento, “a negligência, a lógica do castigo, a violação e o abandono estatal que chega a resultar em prisões perpétuas são marcas dessas instituições”.

Além das denúncias de maus-tratos, o relatório aponta problemas estruturais como prédios degradados, restrições severas de circulação, ausência de acessibilidade, superlotação, fornecimento irregular e insalubre de água e alimentação, falta de itens básicos de higiene e roupas de cama, além de condições precárias de trabalho para os profissionais da área.

Outro ponto destacado foi o impacto do racismo e do capacitismo nas decisões e práticas dessas instituições. “Quando olhamos para os manicômios judiciários, vemos pessoas que não são punidas pelo que fizeram mas pelo que se teme que possam fazer. Esse é o conceito de periculosidade, uma noção subjetiva e frequentemente enviesada, racializada e capacitista”, afirmou Alessandra Almeida. Ela citou o pensamento de Franz Fanon para lembrar que a psiquiatria, quando usada como instrumento de opressão, transforma indivíduos em problemas a serem corrigidos e não em pessoas a serem compreendidas.

“No Brasil, essa colonialidade se expressa de forma aguda na vida das pessoas negras, pobres, periféricas e com sofrimento psíquico. Ana Flauzina [doutora em Direito] afirma que o sistema prisional brasileiro é um sistema de desaparecimento de corpos negros, uma tecnologia de morte lenta e silenciosa”, acrescentou. Ao mencionar Carla Akotirene, autora da obra Interseccionalidade, a presidenta do CFP enfatizou a importância de considerar raça, gênero, classe e deficiência na análise e enfrentamento das desigualdades. “Isso nos faz reafirmar que, pelo menos, para as análises, investigações e práticas psicológicas, já não é possível — diante das complexidades sociais impostas — que não utilizemos a interseccionalidade como um elemento importante da nossa práxis”, concluiu.

SÃO PAULO WEATHER