Quando o advogado para de crescer: o risco de ignorar mudanças, críticas e pessoas

Priscila Spadinger*

A advocacia brasileira carrega consigo uma história de grande prestígio. Desde o Império, juristas ocupam posições de poder, influenciam políticas públicas, formam opinião e moldam as bases da sociedade. Esse respeito social fez com que o Direito se tornasse, por décadas, a profissão dos filhos que “deram certo”, daqueles que conheceriam as leis como um superpoder capaz de resolver qualquer conflito humano.
Essa herança, que tanto nos honra, tem um efeito colateral: criamos uma cultura de advogados resistentes ao novo, intolerantes a erros e críticos demais para aceitarem ser criticados. Fomos treinados a enxergar riscos antes de oportunidades. Aprendemos que admitir falhas era sinal de fraqueza. E crescemos dentro de um ecossistema que premia quem domina a lei, mas raramente valoriza quem compreende a vida. O resultado? Um mercado onde muitos se sentem confortáveis no pedestal do “saber jurídico”, mas desconfortáveis ao perceber que esse pedestal está ruindo.
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O peso da tradição e a aversão à mudança
O foco primário na identificação e mitigação de riscos, embora vital para nossos clientes, torna-se perigoso para a saúde do nosso próprio negócio. Essa mesma autoridade histórica é a mãe de uma certa autossuficiência profissional, dificultando a aceitação de que o mundo, e o Direito, estão em constante e acelerada mutação.
O paradoxo é claro: somos mestres em inovar soluções para os problemas dos outros, mas frequentemente nos tornamos escravos de métodos antiquados em nossos próprios escritórios. O medo do risco ofusca a visão da oportunidade.
Nos últimos anos, a tecnologia virou de cabeça para baixo a forma de advogar. Startups disruptivas, automações, inteligência artificial e clientes exigindo mais eficiência colocaram o tradicionalismo contra a parede. E aqui está a verdade que custa admitir: o que diferencia profissionais de alta performance não é apenas o conhecimento técnico, mas sim a capacidade de ouvir, melhorar e inovar.
Crítica construtiva não é ataque pessoal, é inteligência de negócio
Um dos maiores obstáculos ao crescimento na advocacia é a aversão à crítica. Muitos colegas interpretam um feedback negativo, seja de um cliente, um colega mais jovem, ou um relatório de desempenho, como um ataque direto à sua competência técnica ou à sua superioridade intelectual.
Na Aleve, ao lado de founders advogados, vivemos isso diariamente. Observamos que o sucesso decola quando há a transição de um mindset defensivo para um proativo. Os que prosperam são os que:
Aceitam a Crítica: Reconhecem que o cliente busca o serviço eficiente e humanizado. A crítica sobre a demora, a linguagem inacessível ou a falta de empatia não é sobre o seu conhecimento jurídico, mas sobre o seu processo de negócio.
Participam do jogo: erram rápido, aprendem mais rápido ainda. Miram o crescimento, não a defesa do ego. Questionam mais: perguntam mais do que afirmam, entendendo que “autoridade jurídica” não é sinônimo de arrogância, mas sim de serviço.
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A nova advocacia: humanidade como diferencial competitivo
O que afasta clientes não é a falta de diplomas. É a falta de humanidade.
O mercado está cansado da postura de superioridade, das respostas duras e da falta de empatia com quem, afinal, é quem paga a conta. O advogado que cresceu exponencialmente e alcançou um sucesso mais sólido e sustentável não foi o que apenas dominava a legislação, mas sim o que foi mais humano e empático.
Profissionais que colocaram as pessoas no centro, sejam elas clientes, parceiros ou seus times, estão crescendo como nunca. Grandes escritórios nasceram quando seus sócios deixaram o medo de lado para se conectarem verdadeiramente com as pessoas, escutarem suas dores e adaptarem a forma de atuar. Humanidade virou diferencial competitivo.
A era do advogado inatingível acabou. A era do advogado acessível e colaborativo começou.
O Impacto drástico de não mudar
A recusa em crescer e se adaptar tem um impacto direto e catastrófico no negócio. A estagnação da receita e a perda de market share são apenas o começo.
Um advogado que não aceita críticas, não evolui. Não entende o mercado, perde clientes. Não enxerga pessoas, perde relevância. Não se atualiza, perde o próprio negócio. E muitas vezes… perde também a vida que sonhou construir. Porque quando o orgulho nos impede de mover, o mundo não espera.
O futuro pertence aos que descendem do pedestal
Ser advogado não significa ser superior. Significa ser útil. Significa transformar realidades. Significa conectar leis com humanidade. O Direito não pode continuar preso ao passado se o seu papel é preparar a sociedade para o futuro.
A advocacia que cresce é a que:
✔ Reconhece vulnerabilidades.
✔ Pensa em oportunidades, não apenas riscos.
✔ Aceita ser ensinada pelo cliente.
✔ Trabalha com tecnologia, não contra ela.
✔ Se vê como parte do ecossistema, não como o centro do mundo.
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Se há algo que aprendi como advogada e como CEO é que crescer exige coragem emocional. Coragem para ouvir o que não queremos. Coragem para mudar hábitos que funcionaram até ontem. Coragem para admitir que ninguém está acima de ninguém.
Aos colegas de profissão: aceitar críticas não diminui quem somos. Ignorá-las, sim. E você, qual crítica está ignorando que poderia impulsionar o seu próximo passo?
*Priscila de Oliveira Spadinger é CEO da Aleve LegalTech Ventures S/A e colunista do Portal Lex Legal Brasil. Lidera iniciativas de inovação jurídica e acompanha de perto a jornada de dezenas de LegalTechs brasileiras.
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