Qual o futuro da indústria de aço brasileira depois das taxas impostas pelos EUA?

José Renato Ferraz da Silveira*

Segundo dados do Instituto Aço Brasil, em 2022, os EUA compraram 49% do total do aço exportado pelo país. Em 2024, apenas o Canadá superou o Brasil na venda de aço aos Estados Unidos. No ano passado, o Brasil vendeu US$ 11,4 bilhões no setor de ferro e aço para o mundo, sendo 48% desse valor apenas para os Estados Unidos.
Depois de ameaças, Trump confirmou que taxará em 25% o aço proveniente do Brasil. E não só do Brasil. A medida, que pode atingir em cheio o setor de siderurgia de países como México e Canadá, faz parte de uma das principais promessas de campanha de Trump: aumentar impostos de produtos estrangeiros para priorizar a indústria norte-americana.
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A notícia é péssima para as metalúrgicas brasileiras que exportarão menos. A diplomacia brasileira entrará em ação para negociar. E disse o ex-embaixador em Washington e Londres, Rubens Barbosa, a “única saída é o diálogo (…) Brasil tem de ir devagar e não reagir politicamente”.
Balança comercial Brasil e Estados Unidos (2024)
Em 2024, a balança comercial entre Brasil e Estados Unidos registrou US$ 74,6 bilhões, segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex). Este foi o segundo melhor resultado da história. No mesmo ano, as importações brasileiras dos Estados Unidos totalizaram US$ 40,6 bilhões, o que corresponde a 15,5% do total importado pelo Brasil. É uma parceria comercial histórica e lucrativa para ambos países. O Brasil tem elementos para convencer e dar uma reviravolta nessas taxações.
De acordo com a reportagem da Folha de São Paulo, “a cúpula do governo brasileiro acredita que (…) por meio de suas representações diplomáticas, seja encontrada uma alternativa para manter o cenário de cotas de exportação que está em vigor desde 2018, isentando o Brasil da cobrança extra”.
O governo está bem alinhado com empresas de aço e alumínio. E acredita negociar condições favoráveis nas próximas semanas para manter o cenário de cotas que vigora desde 2018.
Copo meio cheio ou meio vazio
É possível projetar – caso as negociações fracassem – que as metalúrgicas brasileiras exportarão menos em 2025. Por outro lado, as taxações dos Estados Unidos obrigarão as empresas a prospectar novos mercados e buscar soluções a curto e médio prazo. E uma delas é o mercado interno. Lembrando que o aço é um dos principais insumos e é provável (pelo menos provisoriamente) que fique mais barato. Especialistas apontam que o Brasil vive o “oligopólio do aço”, com poucos fornecedores dominando todo o mercado.
As maiores empresas de aço do Brasil
As maiores empresas de aço do Brasil são a Gerdau, a AncelorMittal, a CSN, a Usiminas e a Villares Metais. A Gerdau é a maior empresa brasileira produtora de aço. É uma das principais fornecedoras de aços longos na América. Vale destacar que 94% do aço produzido no país e a maior concentração de empresas que atuam no setor estão na região Sudeste (Espírito Santo, Minas Gerais. Rio de Janeiro e São Paulo). O estado de Minas Gerais é o maior produtor de aço bruto do Brasil.
O “oligopólio do aço” e a falta de concorrência
Um aprendizado básico da economia é que todo setor que não tem concorrência, quem o domina, define preços. É o que acontece com o “oligopólio do aço”.
Por exemplo, durante a pandemia, tivemos reajuste de 100% nos preços do aço longo usado em obras por uma demanda internacional alta e evidente que esse “oligopólio nacional” aproveitou a oportunidade para aumentar a margem de lucro.
Ou seja, enquanto as metalúrgicas brasileiras bateram recordes de lucro nos anos da pandemia, diversas construtoras tiveram prejuízos significativos nas obras por aumento repentino nos custos. E somado a isso, o cenário de aumento do preço do aço em 2020/2021, o oligopólio do aço fez lobby para o governo barrar importações do aço da Turquia e China. Isso obrigou as construtoras a pagarem o preço que eles desejavam, sem poder buscar novos fornecedores.
Subsídios do governo?
Em matéria do Bora Investir, o professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Luiz Carlos Delorme Prado afirmou que a taxação deve ter impacto nos setores atingidos, mas não deve causar maiores problemas para o conjunto da economia.
“Embora a taxação seja muito importante para essas indústrias, para o conjunto da economia brasileira o impacto não é tão grande assim. O Brasil vai ter que redirecionar essas exportações, ou então, o que eu acho mais importante, tentar aumentar o consumo doméstico de aço. O Brasil tem alternativas. É diferente do México e do Canadá, que são muito mais dependentes do mercado americano”, explicou Prado.
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Já o economista, doutor em relações internacionais e CEO da Amero Consulting, Igor Lucena afirma em entrevista à Agência Brasil: “No Brasil, você vai ter uma diminuição da fornalha, diminuição da cadeia produtiva e essa diminuição termina gerando queda da produção, que significa dispensa dos funcionários, queda do faturamento e até mesmo impacto na nossa balança comercial, com reflexos sobre o PIB”.
Como ocorre com “certa frequência”, as empresas brasileiras que passam por dificuldades e crises no setor, pedem subsídios ao governo para “manter margens e empregos”. E, normalmente, o governo cede. E uma das medidas adotadas é reduzir impostos no setor (o que é sempre bom).
Por fim, aguardemos as negociações – nas próximas semanas – para reverter o tarifaço de Trump e projetar novos cenários.
*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-2).
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