Termina prazo para empresas enviarem relatório de transparência salarial

Termina prazo para empresas enviarem relatório de transparência salarial
Empresas têm até hoje para publicar relatórios de salários sob risco de multas e fiscalização/Freepik
Publicado em 06/04/2026 às 12:49

Da redação de LexLegal

Empresas que não divulgaram os Relatórios de Transparência Salarial passam agora a enfrentar risco imediato de fiscalização e multas, em meio a uma disputa jurídica que será analisada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O prazo para publicação do documento, exigido de companhias com mais de 100 funcionários, terminou nesta segunda-feira (6).

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Em 6 de maio, daqui um mês, a corte julgará ações que podem derrubar ou manter as regras de fiscalização e as multas pesadas previstas na Lei nº 14.611/2023. O cenário coloca o compliance trabalhista — o conjunto de regras para andar na linha com a lei — sob pressão máxima, já que os dados agora são públicos e acessíveis a qualquer interessado no portal Emprega Brasil.

Ações no Supremo e o risco de inconstitucionalidade

O julgamento marcado pelo ministro Alexandre de Moraes para o início de maio analisa a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) nº 7.631 e a Ação Declaratória de Constitucionalidade (ADC) nº 92. Na prática, o tribunal vai dizer se o governo pode ou não obrigar as empresas a abrirem suas folhas de pagamento dessa forma.

O partido Novo e entidades empresariais argumentam que a norma fere princípios como a livre iniciativa e a proteção à privacidade. Eles alegam que, mesmo com dados anonimizados (quando não se cita o nome do funcionário), é possível identificar indiretamente salários de executivos em estruturas enxutas. Por outro lado, sindicatos e o governo defendem que a transparência é o único remédio eficaz contra a histórica desigualdade de gênero no mercado de trabalho brasileiro.

O impacto da transparência na governança corporativa

Para as empresas, o relatório deixou de ser apenas um formulário burocrático para se transformar em uma vitrine de reputação. O material reúne dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) de 2025 e informações complementares enviadas pelos empregadores.

Especialistas apontam que a exposição desses números influencia diretamente a relação com investidores e a percepção de mercado, especialmente em companhias que seguem critérios de ESG (governança ambiental, social e corporativa).

A obrigação de divulgação nos canais institucionais, como sites e redes sociais das próprias empresas, acelera o monitoramento social e facilita a fiscalização por parte do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

Multas e sanções administrativas no horizonte de 2026

O descumprimento da entrega ou da publicação do relatório não sai barato. A lei estabelece multa administrativa de até 3% da folha de salários, respeitando o teto de 100 salários mínimos. Além da punição pelo “silêncio” da empresa, existem sanções adicionais caso a fiscalização encontre discriminação direta.

“A transparência salarial se consolidou como um vetor regulatório com impacto econômico direto. Empresas que não estruturarem critérios objetivos de remuneração e comunicação clara dos dados estarão mais expostas a autuações e a questionamentos internos e externos”, afirma Willian Oliveira, especialista em Relações do Trabalho do Bruno Freire Advogados.

A estratégia de fiscalização contínua do governo

Diferente de anos anteriores, em que a fiscalização ocorria de forma pontual, o MTE agora utiliza o cruzamento de dados em escala. Através da Dataprev, o governo consegue verificar em tempo real se o que a empresa declarou condiz com a realidade dos tributos pagos. Esse monitoramento contínuo transforma a transparência salarial em um item fixo de auditoria.

“O governo sinaliza que a transparência salarial deixou de ser uma obrigação declaratória e passou a integrar a lógica de fiscalização contínua, com efeitos diretos sobre compliance trabalhista e governança corporativa”, diz Oliveira. A mudança de postura do poder público sinaliza que 2026 será um ano de intensa aplicação de penalidades para quem ignorar os prazos.

Controvérsias jurídicas e o papel da OAB

O julgamento no STF também conta com a participação do Conselho Federal da OAB como amicus curiae — expressão em latim para “amigo da corte”, que designa uma entidade que fornece subsídios técnicos para a decisão dos ministros.

O ponto central da discussão é se a lei exige demais das empresas ao pedir a divulgação de “critérios remuneratórios”, o que poderia expor segredos de negócio e estratégias de competitividade. A Procuradoria-Geral da República (PGR) já deu um parecer indicando que a norma pode ser parcialmente inconstitucional por conflitar com a livre concorrência. O mercado aguarda a decisão de 6 de maio para saber se haverá uma “recalibragem” na aplicação da lei.

O relatório como instrumento de gestão de risco

O maior perigo para o empresário hoje não é necessariamente a existência de uma diferença de salário entre um homem e uma mulher, desde que ela seja explicada por critérios técnicos como tempo de casa ou produtividade. O risco real reside na falta de justificativa e na inconsistência dos dados apresentados.

“O relatório funciona como uma vitrine. A omissão ou inconsistência de dados pode gerar não apenas sanções administrativas, mas impacto reputacional relevante, inclusive em ambientes de alta exposição pública”, afirma Oliveira.

A gestão desse risco agora faz parte da agenda estratégica de qualquer diretoria, uma vez que a desigualdade salarial virou um passivo jurídico e um problema de imagem pública difícil de remediar após a publicação dos dados.

Expectativas para o desfecho no STF

A decisão de Alexandre de Moraes de pautar o tema indica a urgência institucional de pacificar a regra. Com o país dividido entre a necessidade de políticas afirmativas e o direito à privacidade empresarial, o veredito do STF servirá como bússola para o Ministério do Trabalho.

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Até lá, as empresas precisam seguir a lei vigente e publicar seus números. A ideia de que o tema era periférico ou apenas uma promessa política ficou para trás. Hoje, a igualdade de salários é uma engrenagem central da regulação econômica nacional, com olhos atentos de auditores, juízes e do próprio público consumidor.

SÃO PAULO WEATHER