Portugal rejeita populismo e reafirma limites da democracia

José Renato Ferraz da Silveira*

Há momentos em que uma eleição deixa de ser mera contagem de votos e se transforma em um exame público de maturidade institucional. Portugal atravessou um desses momentos. O que se viu nas urnas não foi apenas a escolha de um presidente, mas a reafirmação de um limite — uma linha invisível que separa o debate político legítimo do risco de erosão democrática.
Quando o eleitorado responde de forma tão nítida, não é só a aritmética que fala; é a memória histórica, é o instinto de preservação das regras do jogo, é a recusa coletiva em banalizar aquilo que sustenta a própria convivência cívica.
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Portugal acaba de dar uma resposta que ecoa muito além de Lisboa. A eleição presidencial não foi um duelo normal entre esquerda e direita; foi um teste de estresse da democracia — e isso precisa ficar claro desde a primeira linha.
O que estava em jogo não era alternância de poder nem “pluralismo saudável”; era a tentativa explícita de normalizar uma direita iliberal, hostil às regras do jogo democrático, desconfortável com a separação de poderes, agressiva com a imprensa e obcecada por inimigos internos. Não é conservadorismo clássico, não é liberalismo, não é direita democrática; é outra coisa.
A vitória de António José Seguro, com margem esmagadora, não foi apenas eleitoral; foi um veto político e moral a essa deriva autoritária. Foi um recado direto: Portugal não esqueceu o que acontece quando se flerta com soluções fáceis, líderes messiânicos e discursos de purificação nacional.
Isso importa porque Portugal não é exceção. A extrema direita cresce na Europa, ganha assentos, cargos, respeitabilidade midiática. Aprende a falar baixo, veste terno, troca a suástica por gráficos e “sondagens”, mas o projeto é o mesmo: esvaziar a democracia por dentro, mantendo a casca eleitoral.
O adversário derrotado, André Ventura, não representava uma direita liberal inconformada com políticas públicas; representava um movimento que trata direitos como concessões, tribunais como obstáculos e minorias como problema. Isso não é opinião; é padrão: repete-se de Budapeste a Roma, de Washington a Brasília.
Quando chamam isso de “direita”, fazem um favor indevido. Direita democrática existe, sempre existiu, e sabe perder eleição sem ameaçar o sistema. O que vimos em Portugal foi outra disputa: democracia liberal versus populismo autoritário com capa eleitoral.
O resultado foi claro, sonoro, quase pedagógico. Não por acaso, causou silêncio constrangido onde antes havia bravata. Portugal disse não. A pergunta é quem mais, na Europa e fora dela, ainda terá fôlego institucional para dizer o mesmo.
Mais do que celebrar um vencedor ou lamentar um derrotado, o episódio português recorda algo essencial: democracias não se esgotam no ato de votar, mas na disposição contínua de defendê-las contra atalhos sedutores e simplificações perigosas.
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O recado que ecoa não é partidário; é institucional. Portugal mostrou que a normalização do inaceitável encontra resistência quando a sociedade reconhece o valor das suas próprias salvaguardas. Resta saber quem, diante de pressões semelhantes, terá igual clareza para distinguir alternância de poder de erosão de princípios — e coragem suficiente para escolher o caminho mais difícil e mais necessário: preservar a democracia antes que seja tarde.
*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-2).
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