Por que Putin invadiu a Ucrânia? As justificativas da Rússia e o impacto global quase três anos depois

José Renato Ferraz da Silveira*

Vale a pena recordar as justificativas de Putin para invasão da Ucrânia. Afinal, qual ou quais foram as razões da Rússia invadir a Ucrânia? Putin justificou a partir de 4 elementos.
1. Proteção dos russos vivendo em Donbass e outras regiões separatistas e pró Rússia que sofrem perseguição e abusos do governo ucraniano;
2. A luta contra o “neonazismo ucraniano”: essa referência a nazistas e neonazistas se tornou muito proeminente na mídia russa por volta de dezembro de 2013, porque, na época dos protestos da Praça Maidan, alguns dos manifestantes faziam coisas como hastear uma bandeira de (Stepan) Bandera, um nacionalista ucraniano que, temporariamente, durante a Segunda Guerra Mundial, cooperou com os nazistas para tentar buscar a independência ucraniana.
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A Rússia retaliou a derrubada de Yanukovych tomando a Crimeia e desencadeando uma rebelião no leste ucraniano liderada por separatistas apoiados pela Rússia — o confronto contra as forças ucranianas já custou 14 mil vidas. Nesse período, algumas milícias de extrema-direita passaram a atuar para repelir os separatistas russos.
São grupos como o Pravy Sektor e o Azov Battalion, que costumam empunhar bandeiras de Bandera, a quem Putin chama de “cúmplice de Hitler” e que hoje detém status de “herói nacional ucraniano”. Nenhum desses grupos extremistas, no entanto, jamais conseguiu eleger parlamentares para o Congresso Nacional ucraniano nem tem representantes no Executivo.
3. A limitação da expansão da OTAN: como ilustrado pela professora Bárbara Motta de Relações Internacionais da Universidade Federal de Sergipe (UFS) para o presidente da Rússia, Vladimir Putin, o Ocidente descumpriu a promessa feita após o fim da Guerra Fria (1947-1989) de que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) não iria se expandir para o Leste Europeu.
“O que percebemos nos últimos anos foi uma contínua expansão em vários países: Lituânia, Estônia, Polônia. E, agora, a promessa feita em 2014 da possibilidade da Ucrânia entrar, fazendo com que a Otan literalmente fosse vizinha da Rússia”.
4. A existência de um governo ilegítimo na Ucrânia: Putin chamou o governo de Zelensky de ‘gangue de viciados em drogas e neonazistas’ e sugeria que o exército ucraniano tome o poder.
Quase três anos depois
Quase três anos se passaram do início do conflito (24 de fevereiro de 2022) – com muitas perdas humanas e materiais – e podemos concluir dois aspectos:
A tradição histórica da política externa russa de buscar uma zona de proteção frente ao Ocidente. Lembremos que a Rússia tem um território enorme (duas vezes a do Brasil), mas se sente extremamente vulnerável na sua parte ocidental. Ali é onde se concentra a maioria de sua população…e é ali onde a Rússia foi invadida 3 vezes nos últimos 2 séculos.
O custo humano dessa vulnerabilidade sempre foi imensurável. Para lidar com este temor permanente, os russos sempre buscaram uma “zona de proteção” a oeste. Durante a Guerra Fria, contavam com os países do Pacto de Varsóvia e com as repúblicas soviéticas, que os mantinham relativamente afastados de um confronto terrestre com os Estados Unidos, a maior potência militar do século XX.
Portanto, a situação atual revela que como toda grande potência e com uma tradição história em sua política externa – e cabe ressaltar que a Rússia é a maior potencial continental do globo, mas seus interesses estratégicos – à primeira vista – limitam-se, em larga medida, ao seu entorno geográfico. Sendo assim, ela não hesita em sacrificar a soberania dos vizinhos mais fracos para garantir a sua própria.
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Outro ponto que considero essencial é que o autor dissidente e ganhador do Prêmio Nobel Aleksandr Solzhenitsyn diz que Putin há muito indica o desejo de restaurar o reino cristão ortodoxo da Rus – a base da civilização russa – construindo uma União Russa, que engloba a própria Rússia, Ucrânia, Bielo-Rússia e os países étnicos e as áreas russas do Cazaquistão. Neste interim, a Rússia ainda abriga o desejo secular de ser o defensor dos povos eslavos e, eventualmente, dos cristãos ortodoxos que estão fora de suas fronteiras. A ideia da Terceira Roma.
E por fim, o desejo de Putin de celebrar uma conferência como Yalta e Potsdam, onde ele e seus colegas líderes de grandes potências, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente chinês, Xi Jinping, dividem o mundo entre si. Lá, Putin e seu aliado Xi presumivelmente uniriam forças para reduzir o domínio do Ocidente – e expandir drasticamente o da Rússia.
*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-2).
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