Por que parte da advocacia brasileira ainda resiste ao uso da inteligência artificial?

Por que parte da advocacia brasileira ainda resiste ao uso da inteligência artificial?
Resistência cultural e falta de investimento ainda dificultam a modernização dos escritórios brasileiros/Freepik
Publicado em 24/10/2025 às 8:50

Priscila de Oliveira Spadinger*

Se você ainda acha que a Inteligência Artificial é “coisa de escritório grande” ou um luxo distante, prepare-se para ouvir o que ninguém tem coragem de dizer: você já está ficando para trás. Nas últimas semanas, mergulhei em discussões intensas sobre inovação, governança e tecnologia jurídica. E o contraste entre o que está sendo debatido nos palcos e o que ainda vejo no cotidiano de muitos escritórios é, no mínimo, um atestado de miopia profissional.

Advogados de pequenos e médios escritórios – e departamentos jurídicos de menor porte – especialmente aqueles focados no contencioso de massa (trabalhista, consumidor, bancário), continuam presos a uma estrutura de custos e a uma mentalidade operacional que beiram o anacronismo.

Leia também: Advogados, deixem de barrar negócios! Acordos de confidencialidade não podem travar oportunidades

Tenho presenciado, com espanto, escritórios médios que ainda mantêm um exército de três secretárias e dez estagiários com uma missão primária: retornar andamentos processuais. Essa é a sua “entrega de valor” central. Enquanto isso, ferramentas de IA generativa e automação jurídica acessíveis já poderiam resolver essa tarefa de forma integral, com custo quase nulo e entregas instantâneas.

É preciso ser polêmico para ser honesto: essa estrutura é um fardo financeiro desnecessário e uma falha estratégica grotesca. O custo de manter uma equipe inteira focada em tarefas repetitivas é, hoje, o preço que você paga por ignorar a IA. É como insistir em iluminar o escritório com velas, quando o mundo já funciona à base da eletricidade.

A eletricidade chegou. A IA também. E, assim como a luz elétrica, ela não terá volta. Tudo se adequará ao seu redor. Quem não se adequar, será substituído – e não pela máquina, mas pelo colega que souber usá-la.

O perigo do “fazer de conta”

De outro lado, há escritórios que contratam automações ou plataformas de IA apenas para dizer que “estão inovando”. Criam fluxos automáticos para envio de andamentos a clientes, mas cometem o erro mais infantil e perigoso: acreditam que a tecnologia é autônoma. Delegam à IA o que é indelegável – a responsabilidade humana.

Já presenciei clientes recebendo retornos automáticos com mensagens do tipo: “O advogado perdeu o prazo e foi declarado revel”. O sistema apenas replicou o que leu, sem interpretação. O cliente, leigo, entra em pânico. O advogado corre para explicar o mal-entendido. E o relacionamento de confiança – o ativo mais valioso da advocacia – se perde.

A inovação não é simplesmente usar tecnologia; é implantar governança exponencial. É compreender que a IA resolve o trabalho braçal, mas o papel intelectual, ético e consultivo continua sendo do advogado. Prompts precisam ser revisados. Resultados precisam ser interpretados. A IA é a ferramenta – e não o substituto – da inteligência humana.

Outras notícias: Tokenização de carteiras de processos judiciais: uma nova dimensão dos ativos jurídicos

Do contencioso de massa à estratégia de valor

Enquanto alguns advogados ainda contam estagiários, outros já contam oportunidades. A revolução da consultoria jurídica está em curso: a IA generativa analisa contratos em segundos, identifica riscos de compliance antes invisíveis, cria padrões de governança e reduz custos de forma exponencial. E isso não é “futuro”: é presente.

Se antes o valor do jurídico estava em responder “o que aconteceu”, agora o valor está em antecipar “o que pode acontecer”. É a era do jurídico que gera valor, em que o advogado deixa de ser operador de processos para se tornar estrategista de negócios.

E esse é justamente o ponto: o desafio da montagem das equipes jurídicas hoje não é cortar pessoas, mas deslocar pessoas. Deslocar secretárias e estagiários de tarefas braçais para funções intelectuais, de apoio estratégico, de análise preditiva, de uso inteligente da IA.

O estagiário que “puxa andamento” deveria estar, munido de IA, fazendo jurimetria preditiva do escritório. A secretária que agenda audiências deveria estar aprimorando fluxos automatizados e revisando comunicações de clientes.

A nova eletricidade

A Inteligência Artificial é a nova eletricidade. No início, também houve quem dissesse que a luz não era necessária, que o candeeiro resolvia. Mas a eletricidade não apenas iluminou: ela redefiniu o mundo. Mudou as fábricas, o comércio, o transporte, o lazer – e, inevitavelmente, o trabalho. É exatamente isso que a IA está fazendo agora com o Direito. E, assim como no passado, quem insistir em permanecer no escuro será simplesmente esquecido.

Advogado, a IA não é seu inimigo. Ela é a ferramenta que vai libertar você das tarefas tediosas e permitir que você exerça o que há de mais humano e insubstituível na advocacia: o raciocínio estratégico, a empatia, o julgamento ético e a criatividade.

Veja também: Do zero ao cashout: a jornada de construção de uma legaltech e o papel vital dos founders e da venture builder

Mas se você insistir em se agarrar às tarefas que a IA já faz melhor, prepare-se: ela não vai roubar o seu emprego. Vai roubar a sua relevância. E, no Direito, relevância é o que define quem fica e quem some da história.

*Priscila de Oliveira Spadinger é CEO da Aleve LegalTech Ventures S/A e colunista do Portal Lex Legal Brasil. Lidera iniciativas de inovação jurídica e acompanha de perto a jornada de dezenas de LegalTechs brasileiras.

Outros artigos de Priscila Oliveira (Spadinger) em LexLegal:

O papel das venture builders na construção de startups legaltechs: modelo de apoio estratégico à inovação no Direito

Liderança skin in the game: você é o porco ou a galinha na revolução das legaltechs?

Como escritórios e departamentos jurídicos podem mapear dores internas e desenvolver soluções com legaltechs

SÃO PAULO WEATHER