Por que jornalismo institucional não é endosso político

José Renato Ferraz da Silveira e Pedro Bandeira Soares*
Instituições são formadas por seres humanos diferentes. As instituições são compostas por indivíduos com diversas origens, crenças, experiências e habilidades. Essa diversidade de perspectivas e características contribui para a complexidade e a dinâmica das organizações.
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Reconhecer e valorizar essas diferenças é fundamental para a inclusão, diversidade e a eficácia das instituições na sociedade. Como afirma a pensadora Anna Flávia Schimtt:”as instituições são feitas de homens bons e maus. Conviver com críticas dirigidas as instituições ou as parcelas que compõem as instituições faz parte do processo civilizatório”.
Na mesma linha de raciocínio, o escritor austríaco Peter Drucker (1909-2005) afirmou: “Nenhuma instituição pode sobreviver se precisar de gênios ou super-homens para a administrar. Ela deve estar organizada de forma a ser capaz de seguir em frente com uma liderança composta de seres humanos medianos”.
Dessa forma, desde quando um evento institucional, de lançamento de um canal de jornalismo, deve excluir representantes do Estado com base em ideologia? Jornalismo sério pressupõe pluralidade, diálogo e respeito às instituições. Convidar autoridades não significa endossar suas ideias, mas reconhecer os cargos que ocupam.
Essa lógica do “ou está comigo ou é inimigo” revela uma mentalidade sectária, incapaz de conviver com a diversidade política. O SBT, desde sua origem, sempre manteve diálogo com diferentes governos e correntes ideológicas. Basta lembrar que Silvio Santos entrevistou presidentes de diferentes espectros políticos, sem jamais transformar a emissora em instrumento partidário.
Cancelar uma emissora por cumprir um protocolo institucional é mais do que incoerência: é um ataque direto à liberdade de imprensa e à própria democracia. Quando a política vira torcida organizada, a razão desaparece e o que sobra é apenas intolerância travestida de militância.
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Na atualidade, a extrema-direita não está acostumada com a institucionalidade, não aceitam que você possa conviver de – forma republicana – com quem pensa diferente de você em eventos sociais e políticos. Só se admite o ódio a quem pensa diferente. E foi assim que chegamos onde estamos. É fundamental lembrar que emissoras de televisão não operam em um vácuo político ou jurídico.
Elas existem por meio de concessões públicas outorgadas pelo governo federal, o que impõe, por definição, uma relação institucional contínua com o Estado. Essa relação não decorre de alinhamento ideológico, mas de uma exigência estrutural do próprio modelo democrático e regulatório brasileiro. Exigir que uma emissora rompa protocolos institucionais em nome de afinidades políticas é ignorar a natureza pública do serviço que ela presta.
A teoria democrática de Schumpeter ajuda a compreender esse funcionamento. Para o autor, a democracia moderna não se organiza em torno de grandes convicções ideológicas, mas como um método competitivo de disputa por apoio. Ideias, discursos e programas deixam de ser fins em si mesmos e passam a funcionar como instrumentos de persuasão, moldados conforme interesses estratégicos. Aplicada à mídia, essa lógica revela que posicionamentos públicos não expressam, necessariamente, compromissos ideológicos profundos, mas cálculos institucionais, econômicos e de sobrevivência.
Essa percepção é explicitada de forma contundente pelo cineasta Michael Moore ao comentar sua presença em grandes redes de televisão. Segundo ele: “Eles me colocam no ar porque não acreditam em nada. Fazem isso porque sabem que há milhões de pessoas que querem assistir, e assim vão ganhar dinheiro.” A fala desmonta a narrativa de que grandes emissoras são movidas por princípios ideológicos sólidos; o critério central é audiência, rentabilidade e manutenção de espaço no mercado.
Portanto, a cobrança por uma suposta coerência ideológica da mídia ignora sua lógica real de funcionamento. Emissoras precisam preservar relações institucionais, dialogar com diferentes governos e adaptar seus discursos a contextos variáveis. A ideologia, quando aparece, opera muitas vezes como linguagem de mercado, recurso simbólico ou estratégia de legitimação, e não como orientação normativa rígida.
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Nesse cenário, a indignação seletiva contra gestos institucionais não representa defesa da democracia, mas incompreensão de seus mecanismos. Confundir jornalismo com militância é negar o pluralismo que sustenta a vida democrática. A mídia não atua para afirmar verdades morais absolutas, mas para permanecer relevante, viável e operante dentro de um sistema político e econômico complexo, No fim do dia a ideologia da mídia brasileira é o lucro.
*José Renato Ferraz da Silveira é professor titular do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Especialista em Humanidades pela PUC-RS. Bacharel em História pela ULBRA. João Pedro Bandeira Soares é graduando em Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Membro do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).
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