Por que bons fundadores fazem legaltechs sobreviverem além da ideia inicial

Priscila Spadinger*

Sábado à noite, sofá, o segundo café que eu jurava não ia tomar. Reabri um vídeo antigo que guardo salvo há anos: Simon Sinek falando sobre jogos finitos e jogos infinitos. Já tinha assistido um punhado de vezes, mas dessa vez bateu diferente, talvez porque, na mesma semana, eu estava terminando “China: Tradição e Modernidade na Governança do País”, do Evandro Menezes de Carvalho. Um vídeo de liderança americano e um livro sobre milênios de governo chinês me levaram exatamente ao mesmo lugar: quem joga para vencer, perde. Quem joga para durar, fica.
Ninguém vence o jogo infinito
A ideia de Sinek é simples de enunciar e difícil de praticar. Existem jogos finitos: futebol, uma eleição, uma rodada de investimento. Jogadores conhecidos, regras fixas, apito final. E existem jogos infinitos: sem fim combinado, com jogadores que mudam ao longo do caminho e regras que se ajustam sempre. Neles, o único objetivo possível é continuar jogando. Empresa é jogo infinito. Carreira é jogo infinito. Ecossistema de legaltech também.
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A maioria de nós, porém, foi treinada para jogar de modo finito mesmo dentro de um jogo infinito. Quer fechar o trimestre, ganhar o prêmio de inovação, levantar a rodada, sair na mídia. Tudo isso importa, mas nada disso é o jogo: é só um lance dentro dele. Quando o founder confunde o lance com o jogo inteiro, ele comemora a vitória errada e some do mapa assim que o lance seguinte fica difícil.
600 legaltechs, poucas décadas de sobrevida
No ecossistema brasileiro, a AB2L já mapeia mais de 600 legaltechs. A maioria nasceu com uma ideia boa. Poucas vão comemorar dez anos de operação, e olha que o direito brasileiro segue sendo, teimosamente, um oceano de ineficiência à espera de solução, então não é falta de mercado. É falta de fôlego para o jogo infinito.
“Quem joga para vencer, perde. Quem joga para durar, fica.”
Aposto no founder, não na ideia
É por isso que, na Aleve, quando avaliamos uma legaltech para construir, a primeira pergunta nunca é se a ideia é boa. É se aquele founder aguenta trocar de ideia sem trocar de causa. Sinek chama isso de flexibilidade existencial: a capacidade de mudar de estratégia inteira para continuar servindo a um propósito maior. A ideia é só o primeiro protótipo da causa. Founder casado com a ideia quebra no primeiro pivô. Founder casado com a causa atravessa qualquer pivô e ainda agradece o aprendizado.
Isso muda, inclusive, como eu converso com quem compra legaltech, seja diretor jurídico, CFO ou diretor de RH. A pergunta certa nunca é só “essa ferramenta resolve hoje”. É “esse time por trás dela ainda vai estar aqui, incomodando o mercado, daqui a dez anos”.
O que a China me ensinou sobre durar
Foi aí que o livro do Evandro Menezes de Carvalho se encaixou. Ele descreve uma China que não pensa em mandatos de quatro anos: pensa em dinastias, em séculos, num fio de continuidade civilizatória que atravessa guerras e reformas sem se romper. A China não escolhe entre tradição e modernidade, ela faz as duas coisas ao mesmo tempo, com a paciência de quem sabe que vencer um ciclo não significa nada se a civilização não sobreviver ao século seguinte.
Não preciso concordar com todas as escolhas de governança chinesas, e não concordo, para reconhecer o valor da lição: quem pensa em gerações, e não em trimestres, toma decisões diferentes. Investe diferente. Contrata diferente. Prefere o founder que ainda vai estar lá, chato e presente, daqui a vinte anos, ao founder que promete a saída mais rápida.
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Se você está avaliando uma legaltech para contratar, troque a pergunta. Não pergunte só se a ferramenta resolve hoje. Pergunte se o time por trás dela tem estômago para o jogo infinito. E se você é founder, a pergunta é ainda mais desconfortável: você está jogando para vencer o próximo pitch, ou para durar décadas?
Eu escolhi durar. Recomendo.
*Priscila Spadinger é Idealizadora e CEO e Founder da Aleve Legaltech Ventures, advogada especializada em M&A e Mercado de Capitais e Advogada especialista em M&A e Venture Capital.
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