PGR pede ao STF condenação de Bolsonaro e mais 7 réus por tentativa de golpe de Estado

PGR pede ao STF condenação de Bolsonaro e mais 7 réus por tentativa de golpe de Estado
A gravidade das acusações, somadas, pode resultar em penas superiores a 30 anos de reclusão/Valter Campanato/Agência Brasil
Publicado em 15/07/2025 às 10:37

Da redação de LexLegal

A Procuradoria-Geral da República (PGR) apresentou na noite de segunda-feira (14) suas alegações finais ao Supremo Tribunal Federal (STF) no processo que investiga a tentativa de golpe de Estado articulada por integrantes do governo Bolsonaro após a derrota eleitoral em 2022. O documento de 517 páginas, assinado pelo procurador-geral Paulo Gonet, pede a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro e de outros sete réus, entre ex-ministros e oficiais das Forças Armadas, pelos crimes de organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado.

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O caso se desenrola no âmbito da Ação Penal 1.050, relatada pelo ministro Alexandre de Moraes, e representa uma das mais relevantes investigações criminais da história política recente do Brasil. A manifestação da PGR reforça a narrativa de que Bolsonaro foi o “principal articulador e maior beneficiário” de um esquema persistente de ataque ao sistema eleitoral, que teria usado estruturas do Estado para tentar reverter o resultado das urnas.

“Com o apoio de membros do alto escalão do governo e de setores estratégicos das Forças Armadas, mobilizou sistematicamente agentes, recursos e competências estatais, à revelia do interesse público, para propagar narrativas inverídicas, provocar a instabilidade social e defender medidas autoritárias. A sua atuação, pautada pela afronta à legalidade constitucional e pela erosão dos pilares republicanos, teve por objetivo último sua continuação ilegítima no comando do país e o enfraquecimento das instâncias públicas, em negação do princípio da alternância democrática, da soberania popular e do equilíbrio entre os Poderes”, escreveu Gonet.

A gravidade das acusações, somadas, pode resultar em penas superiores a 30 anos de reclusão. As sanções estão previstas na Lei 12.850/2013 (organização criminosa armada), no Código Penal (arts. 359-L e 359-M, que tratam da tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito e tentativa de golpe de Estado), e na Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605/1998), no trecho sobre danos ao patrimônio público tombado.

Além de Bolsonaro, a PGR pediu a condenação de Walter Braga Netto (ex-ministro da Defesa e vice da chapa de 2022), do general Augusto Heleno (ex-GSI), de Alexandre Ramagem (ex-diretor da Abin), de Anderson Torres (ex-ministro da Justiça), de Almir Garnier (ex-comandante da Marinha), de Paulo Sérgio Nogueira (ex-ministro da Defesa) e de Mauro Cid (ex-ajudante de ordens da Presidência).

No caso de Mauro Cid, que celebrou acordo de colaboração premiada com a Polícia Federal, a PGR recomenda a suspensão da pena, mas nega o perdão judicial. Embora reconheça a contribuição do militar para o esclarecimento dos fatos, Gonet afirma que ele cometeu omissões relevantes e, por isso, sua pena deve ser reduzida em um terço, mas mantida.

O próximo passo do processo é a apresentação das alegações finais das defesas. Mauro Cid tem 15 dias para protocolar sua manifestação. Em seguida, os demais réus devem apresentar seus argumentos também em um prazo de 15 dias. Concluídas essas etapas, caberá à Primeira Turma do STF marcar o julgamento, que é esperado para o mês de setembro.

A ação penal em curso se desdobra a partir de investigações que apuram os ataques de 8 de janeiro de 2023 e uma ampla trama de deslegitimação do processo eleitoral iniciada ainda em 2021. Segundo a PGR, o grupo liderado por Bolsonaro teria conspirado para minar a confiança nas urnas eletrônicas, incitar a população contra o Supremo e o TSE, e preparar medidas que resultassem na ruptura da ordem constitucional.

Na manifestação, o Ministério Público detalha uma série de episódios que, segundo os procuradores, comprovam a existência da organização criminosa e a atuação coordenada para tentar inviabilizar a posse do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva. Entre os elementos citados estão: reuniões com teor golpista, elaboração de minutas inconstitucionais, uso da Abin para fins políticos, mobilização de militares, disseminação de fake news e articulação para decretar estado de sítio.

Em depoimento recente ao STF, Bolsonaro negou liderar qualquer tentativa de golpe. A defesa sustenta que o ex-presidente apenas exerceu seu direito de opinião e que não houve qualquer ordem concreta para atos contra as instituições. No entanto, o conjunto de evidências reunido pela PGR e pelas investigações da PF aponta para uma conduta sistemática e intencional de desestabilização institucional.

A complexidade do caso, que envolve atores civis e militares, coloca o STF diante de um julgamento com impactos jurídicos e políticos. A eventual condenação de um ex-presidente da República e de altos oficiais das Forças Armadas por tentativa de golpe é um marco inédito na história do país.

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Mais do que os aspectos penais, o processo coloca em pauta o debate sobre os limites do poder presidencial, o papel das instituições militares na democracia e os mecanismos de defesa do Estado Democrático de Direito. O desfecho do caso poderá balizar futuros julgamentos e definir as consequências jurídicas para comportamentos antidemocráticos em contextos eleitorais.

SÃO PAULO WEATHER