Pesquisa mostra avanço do racismo religioso contra terreiros no Brasil

Pesquisa mostra avanço do racismo religioso contra terreiros no Brasil
© Tomaz Silva/Agência Brasil
Publicado em 07/12/2025 às 17:42

Da redação de LexLegal

Ataques físicos, invasões, intimidação policial e violência digital seguem atingindo terreiros de religiões de matriz africana em diversas regiões do país, segundo a pesquisa Respeite o meu terreiro, divulgada em 2025. O levantamento expõe a dimensão do racismo religioso no Brasil e reforça a urgência de políticas públicas específicas.

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Em Aracaju, o terreiro Ìlé Àṣé Ìyá Ọṣún foi invadido há quase dois meses. O espaço religioso teve objetos furtados — entre eles geladeira, fogão e máquina de costura — e itens sagrados destruídos. Em São Paulo, no fim de novembro, um simples desenho infantil da orixá Iansã motivou a ida de policiais armados a uma escola pública, após o pai de uma aluna se incomodar com a atividade.

Os episódios ilustram um padrão: o racismo religioso, conceito recente que evidencia o componente racial das agressões contra religiões afro-brasileiras, ultrapassando a noção de intolerância religiosa.

A pesquisa ouviu lideranças de 511 terreiros no país e aponta que 80% foram alvo de racismo religioso nos últimos dois anos. Entre os casos relatados estão agressões verbais, xingamentos, ataques diretos e abordagens policiais discriminatórias. O estudo também revela que 76% das casas religiosas sofreram algum tipo de violência, e 74% foram ameaçadas, depredadas ou destruídas — cenário semelhante ao vivido pelo terreiro Ìlé Àṣé Ìyá Ọṣún.

No ambiente digital, a violência também se manifesta: 52% dos terreiros relataram assédio ou ataques nas redes sociais, mesmo utilizando plataformas como Facebook e Instagram apenas para divulgar atividades religiosas.

Apesar da gravidade, a busca por apoio policial ainda é baixa. Menos de 30% registraram boletim de ocorrência. O levantamento foi produzido pela Rede Nacional de Religiões Afro-brasileiras e Saúde (Renafro) e pelo Ilê Omolu Oxum, em parceria com o Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania, e apresentado na ONU, na quinta-feira (4), na Suíça.

Na publicação, Mãe Nilce, responsável pela pesquisa, afirma que a violência não cessou ao longo das décadas. Ela recorda que terreiros continuam sendo invadidos, destruídos, e líderes religiosos seguem sendo assassinados e perseguidos “apenas por fazer parte de uma religião não cristã”. Ela reforça também o impacto da ação de grupos religiosos, muitas vezes ligados ao pentecostalismo, e que, segundo a pesquisa, em alguns casos possuem vínculos com o narcotráfico e milícias.

“Se no passado, nossos algozes eram as autoridades policiais, atualmente temos sido vítimas de uma campanha orquestrada por grupos religiosos, muitas vezes de origem pentecostal, que em alguns casos são associados ao narcotráfico e milícia”, destacou.

A pesquisa sugere que políticas públicas específicas e conscientização social são essenciais para enfrentar o problema. “Somente a partir do respeito dos modos destas comunidades, haverá garantia de direitos”, concluíram os pesquisadores.

Respeite o meu terreiro chega à segunda edição e deve ser repetida a cada dois anos, com o objetivo de mapear a violência baseada no racismo religioso e identificar formas de resistência das comunidades afro-religiosas.

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O racismo religioso é crime no Brasil, punido com prisão de dois a cinco anos ou multa. A Polícia Militar deve ser acionada em situações de flagrante, pelo número 190. As denúncias também podem ser registradas em delegacias ou pelo Disque 100, canal gratuito e anônimo do governo federal para violações de direitos humanos. Com informações da Agência Brasil.

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