Pesquisa AtlasIntel mostra eleição aberta e risco real para Lula no segundo turno

Pesquisa AtlasIntel mostra eleição aberta e risco real para Lula no segundo turno
O levantamento revela que a polarização segue como a força dominante do tabuleiro político brasileiro/Agência Brasil
Publicado em 25/02/2026 às 11:30

André Pereira César – Brasília

A mais recente pesquisa AtlasIntel, realizada entre 19 e 24 de fevereiro em todo o país, reforça uma sensação que já circula nos bastidores da política e do mercado: a eleição presidencial de 2026 está longe de ser resolvida. O cenário segue incerto, a polarização permanece dominante e, pela primeira vez de forma mais clara, a reeleição do presidente Lula aparece sob ameaça concreta.

Durante anos, Lula operou com a vantagem simbólica de quem venceu a eleição anterior, recompôs pontes institucionais e retomou protagonismo internacional. Essa condição, no entanto, começa a perder força à medida que o calendário avança e que os efeitos econômicos e sociais do terceiro mandato passam a ser julgados com mais rigor pelo eleitorado. A pesquisa não indica uma virada consolidada da oposição, mas aponta algo igualmente relevante: o lulismo já não é mais um porto seguro eleitoral.

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Os números da pesquisa

Os números do primeiro turno ajudam a entender esse movimento. Lula segue liderando todas as simulações, com intenções de voto que variam entre 43,3% e 47,1%. Ainda é um patamar elevado, mas inferior ao observado em levantamentos anteriores, quando o piso do presidente era de 48%. A queda não é abrupta, mas é consistente. Em política, tendência vale mais do que fotografia isolada.

Do outro lado, a direita começa a se organizar de forma mais nítida. Flávio Bolsonaro desponta como o nome mais competitivo do campo bolsonarista. No cenário mais apertado do primeiro turno, ele aparece com 39,1%, contra 45,1% de Lula. Não é uma distância pequena, mas já é uma diferença administrável para quem ainda está em fase de pré-campanha. O dado mais relevante, porém, não está no primeiro turno, e sim no segundo.

Na simulação de segundo turno, o AtlasIntel registra um empate técnico rigoroso: Flávio Bolsonaro tem 46,3% e Lula 46,2%. A diferença é mínima, dentro da margem de erro, mas carrega forte simbolismo. É a primeira vez que o senador aparece numericamente à frente do presidente em um cenário direto. Em eleições, símbolos importam. Eles moldam discursos, alianças, estratégias e expectativas.

Esse dado muda o jogo. Até aqui, o discurso governista se apoiava na ideia de que Lula venceria qualquer adversário identificado com o bolsonarismo. A pesquisa quebra essa certeza e obriga o Planalto a rever estratégias. A eleição deixa de ser vista como uma recondução quase automática e passa a ser tratada como uma disputa real, dura e incerta.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, enfrenta um desafio complexo. Para consolidar sua candidatura, precisará resolver uma equação delicada. De um lado, manter mobilizado o eleitorado bolsonarista mais fiel, que rejeita qualquer sinal de moderação excessiva. De outro, convencer o eleitor de centro, mais pragmático e menos ideológico, além do mercado, de que não representa um salto no escuro. Radicalismo mobiliza a base, mas assusta quem decide eleições apertadas.

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Esse equilíbrio não será simples. Flávio carrega o sobrenome Bolsonaro como ativo e passivo ao mesmo tempo. Ele herda votos, mas também rejeição. Sua capacidade de ampliar o eleitorado dependerá de discurso econômico, postura institucional e habilidade de se diferenciar do pai sem romper com ele. É uma travessia estreita.

Sem plano B, governo terá de disputar o eleitor fora da base

Do lado governista, o problema é outro, mas não menos grave. O PT não tem plano B. Lula segue sendo o único nome competitivo do campo governista. Fernando Haddad, apesar de reconhecido tecnicamente e bem avaliado em setores do mercado, não demonstra força eleitoral suficiente para liderar uma disputa presidencial. Isso significa que qualquer desgaste adicional de Lula não encontra válvula de escape partidária.

Diante disso, o governo terá de ajustar sua comunicação e sua estratégia política. Não basta mais falar para a base. Será necessário disputar o eleitor que está no meio do caminho, aquele que não é ideologicamente fiel a nenhum dos polos, mas decide com base em percepção de resultados concretos. Economia, emprego, inflação, serviços públicos e sensação de estabilidade serão decisivos.

Além disso, a campanha governista terá de lidar com um desafio adicional: desconstruir Flávio Bolsonaro sem reforçar a polarização ao ponto de alimentar ainda mais o antipetismo. É um jogo de equilíbrio fino, em que o ataque excessivo pode ser tão ineficaz quanto a complacência.

Outro ponto que chama atenção na pesquisa é a ausência, mais uma vez, de uma terceira via competitiva. O centro político segue fragmentado, sem liderança clara e sem narrativa mobilizadora. Esse vazio reforça a lógica plebiscitária da disputa, concentrando forças nos dois polos e tornando a eleição ainda mais imprevisível. Sem uma alternativa viável, a decisão tende a se dar nos detalhes, nos humores do eleitorado e nos fatos que ainda virão.

É importante lembrar que pesquisas são retratos do momento. A campanha oficial ainda não começou, alianças não estão fechadas e eventos inesperados sempre podem alterar o cenário. Ainda assim, pesquisas não servem apenas para medir intenções de voto, mas para indicar tendências. E a tendência apontada pelo AtlasIntel é clara: a eleição de 2026 está completamente aberta.

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Lula ainda lidera, mas já não sobra. A direita ainda não venceu, mas já encostou. O jogo sucessório entrou em uma nova fase, menos previsível e mais competitiva. Quem apostar em vitória fácil, de qualquer lado, corre sério risco de errar a leitura do país.

*André Pereira César é cientista político e sócio da Hold Assessoria Legislativa.

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