Países tiveram visto de imigração para os EUA suspensos concentram crises, pobreza e desalinhamento político

Da redação de LexLegal
A suspensão da emissão de vistos de imigrante pelos Estados Unidos para cidadãos de 75 países, anunciada pelo Departamento de Estado, vai além de uma medida administrativa de controle migratório. A lista revela um recorte que combina critérios econômicos, sociais e políticos, transformando a política de imigração em um instrumento de política externa e de sinalização diplomática.
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Quando observados em conjunto, os países atingidos pela decisão formam blocos bem definidos. Um deles reúne nações marcadas por guerras, conflitos armados ou colapso institucional, como Afeganistão, Síria, Iraque, Irã, Iêmen, Sudão, Sudão do Sul, Somália, Líbia, República Democrática do Congo e Eritreia. São regiões tradicionalmente associadas a fluxos de refugiados e pedidos de asilo, o que pressiona sistemas de acolhimento social e políticas de imigração nos países de destino.
Outro grupo é formado por países da América Latina e do Caribe que possuem histórico de migração econômica para os Estados Unidos. Nesse conjunto aparecem Brasil, Colômbia, Guatemala, Nicarágua, Haiti, Cuba, Jamaica, Dominica, Granada, Santa Lúcia, São Vicente e Granadinas, Antígua e Barbuda, Bahamas e Belize. O fator comum não é a guerra, mas a desigualdade social, a instabilidade econômica e a busca por melhores oportunidades de trabalho, o que frequentemente leva à tentativa de conversão de vistos temporários em permanência definitiva.
Há ainda um bloco expressivo de países africanos com baixo índice de desenvolvimento econômico e forte pressão demográfica, como Senegal, Serra Leoa, Gana, Nigéria, Gâmbia, Togo, Tanzânia, Uganda, Ruanda, Etiópia, Camarões, Costa do Marfim, Marrocos, Tunísia, Cabo Verde e Libéria. Nesse caso, o critério se aproxima diretamente do argumento central apresentado pelo governo americano, que é evitar a entrada de imigrantes que possam recorrer a programas de assistência social e se tornar “encargo público”.
Um quarto conjunto reúne países da Ásia, do Leste Europeu e do Cáucaso, como Bangladesh, Paquistão, Nepal, Mianmar, Camboja, Laos, Tailândia, Mongólia, Uzbequistão, Quirguistão, Azerbaijão, Armênia, Geórgia, Moldávia, Belarus, Kosovo, Macedônia do Norte e Montenegro. Essas nações combinam renda média baixa, instabilidade política ou econômica e histórico de migração laboral para países ocidentais.
A presença da Rússia na lista tem um caráter distinto. Nesse caso, o critério é essencialmente político e estratégico, refletindo a deterioração das relações diplomáticas com os Estados Unidos e a leitura de risco associada à segurança nacional.
No conjunto, a lista indica que os EUA estão fazendo uma separação explícita entre dois modelos de imigração. De um lado, a imigração considerada desejável, ligada a países ricos, aliados estratégicos ou capazes de fornecer profissionais altamente qualificados. De outro, a imigração classificada como de “alto risco social”, vinda de países pobres, politicamente instáveis ou com grande potencial de dependência de políticas públicas.
A ausência da Argentina chama atenção nesse contexto. Do ponto de vista econômico, o país enfrenta dificuldades semelhantes às de Brasil e Uruguai, que foram incluídos na lista. A diferença é política. O governo argentino, liderado por Javier Milei, mantém alinhamento ideológico com Donald Trump, o que reforça a leitura de que a política migratória também passou a funcionar como instrumento de premiação a aliados e de pressão sobre governos menos alinhados.
Esse aspecto transforma a suspensão de vistos em um mecanismo de diplomacia indireta. Não se trata apenas de regular fluxos migratórios, mas de enviar sinais claros sobre quais países são considerados parceiros estratégicos e quais passam a ser enquadrados como fontes potenciais de problemas sociais ou econômicos.
No caso do Brasil, o impacto é particularmente simbólico. O país não vive guerra, não enfrenta colapso institucional e não é historicamente classificado como produtor de imigração de massa irregular em direção aos Estados Unidos. Ao ser incluído na lista, acaba colocado no mesmo grupo de países em situação humanitária crítica, o que tende a gerar ruído diplomático e desconforto político.
A decisão também reforça a centralidade do conceito de “encargo público” na política migratória americana. Em termos simples, trata-se da avaliação de que o imigrante deve comprovar capacidade financeira suficiente para não depender de benefícios sociais, como assistência médica subsidiada, programas de alimentação ou auxílio à renda. Esse critério favorece perfis de alta renda e elevada escolaridade, tornando a imigração permanente cada vez mais seletiva.
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No plano geral, a lista dos 75 países expõe que a política migratória dos Estados Unidos passou a operar sobre três eixos principais: capacidade econômica média da população de origem, risco de dependência de programas sociais e grau de alinhamento político-diplomático com o governo americano. O resultado é uma combinação de critérios técnicos com decisões de forte conteúdo ideológico e geopolítico.