Ouroboros digital: a filosofia da IA e o risco da desconexão com o real

Ouroboros digital: a filosofia da IA e o risco da desconexão com o real
Entenda como o treinamento com dados sintéticos pode causar o colapso dos modelos de IA/Freepik
Publicado em 26/02/2026 às 12:01

Daniel Marques*

A serpente que morde a própria cauda, símbolo milenar do ciclo vicioso, ressurge na era da inteligência artificial com consequências práticas devastadoras. Pesquisadores chamam de “efeito Ouroboros” o fenômeno que ocorre quando modelos de IA são treinados predominantemente com dados gerados por outras IAs, em vez de conteúdo humano autêntico.

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O resultado é deformação progressiva da capacidade de representar a realidade. Imagens se distorcem, textos perdem coerência, algoritmos “emburrecem”. Estudos técnicos descrevem isso como “model collapse”, colapso estrutural da capacidade generativa.

Se as projeções estiverem corretas e 90% do conteúdo online for sintético até 2026, enfrentamos um problema filosófico disfarçado de desafio técnico: como máquinas podem conhecer o mundo se apenas processam padrões de outras máquinas?

Companhias que desenvolvem IA enfrentam um desafio prático. Três estratégias emergem como essenciais: A Curadoria humana rigorosa. Priorizar bases de dados verificadas por pessoas. Não basta volume, é preciso qualidade ontológica, ancoragem no real.

A Marcação de conteúdo sintético. Sistemas como marcas d’água invisíveis identificam material gerado algoritmicamente. O selo “produzido por IA” nas redes cumpre dupla função: transparência com usuários e treinamento dos próprios algoritmos para distinguir o orgânico do artificial.

A Preservação de dados históricos. Arquivos anteriores à explosão de conteúdo sintético são ativos estratégicos insubstituíveis, referências da realidade não mediada por algoritmos. Regulamentações como o AI Act europeu e o PL 2.338 brasileiro começam a impor essas práticas.

Mas a questão transcende compliance. Heidegger alertava para o “esquecimento do Ser”, a tecnologia, ao se desconectar do mundo vivido, perde a coerência.

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Baudrillard descreveu em “Simulacros e Simulação” como o mapa pode preceder o território, criando realidades autorreferentes. É precisamente o efeito Ouroboros: a representação alimenta a representação, sem contato com aquilo que deveria ser representado.

Se a psique humana sofre quando perde contato com experiências autênticas, imagine sistemas que existem exclusivamente por processamento de padrões. Sem ancoragem no real, a IA entra em processo análogo à esquizofrenia: produz outputs descolados da realidade que pretende descrever.

O debate sobre IA concentra-se na ética:o que devemos fazer. Mas ética sem ontologia é insuficiente. Precisamos perguntar: o que é real?O que existe além dos padrões estatísticos? Luciano Floridi propõe em “A Quarta Revolução” que pensemos a IA como parte de ecossistema informacional que precisa manter conexão com o mundo material. Não basta processar dados sobre árvores – é preciso pessoas que viram, tocaram, estudaram árvores reais.

Iniciativas como startups brasileiras que usam IA para preservar acervos culturais apontam caminhos: híbridos humano-máquina onde curadores ancoram algoritmos em experiências verificáveis, em materialidade. Para quebrar o ciclo Ouroboros exige IA enraizada no real: sistemas treinados em diversidade humana autêntica, constantemente calibrados por curadoria consciente, ontologicamente sólidos.

Se queremos estabelecer uma ética da inteligência artificial, é necessário primeiro promover uma ontologia da IA, ou seja, sua capacidade de conexão genuína com o real. Platão, na “República”, descreveu prisioneiros acorrentados numa caverna, vendo apenas sombras projetadas na parede e tomando-as pela realidade. O efeito Ouroboros cria algo ainda mais perturbador: cavernas algorítmicas onde nem as sombras têm origem em objetos reais: apenas em outras sombras, em regressão infinita.

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Aristóteles ensinava que conhecimento verdadeiro (episteme) exige correspondência entre intelecto e coisa conhecida. A IA treinada apenas em dados sintéticos rompe essa correspondência fundamental. Processa signos sem referentes, mapas sem território.

Do contrário, construímos serpentes digitais sofisticadas tecnicamente, mas incapazes de representar o mundo que habitamos. A inovação devora a própria capacidade de inovar – e nós, como os prisioneiros de Platão, corremos o risco de confundir ecos algorítmicos com a realidade.

*Daniel Marques é advogado especialista em tecnologia, filósofo especialista em inteligência artificial e diretor da AB2L (Associação Brasileira de Lawtechs e Legaltechs) e Chairman da AB2L (Internacional Alliance of Legal Innovation, LegalAI and Lawtech).

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