Os desafios jurídicos para a regulação das Big techs no Brasil

Os desafios jurídicos para a regulação das Big techs no Brasil
O Brasil, como um dos maiores mercados digitais do mundo, busca equilibrar inovação, concorrência e proteção aos direitos dos usuários/Freepik
Publicado em 07/02/2025 às 7:58

Da redação de LexLegal

O governo brasileiro anunciou a criação de um grupo de trabalho para discutir a regulação das big techs, reunindo representantes do Ministério da Justiça, Ministério da Fazenda, Advocacia-Geral da União (AGU) e da Secretaria de Comunicação da Presidência da República. O objetivo é estabelecer regras para o funcionamento de redes sociais e plataformas digitais, abordando tanto a responsabilidade pelo conteúdo publicado quanto os impactos concorrenciais dessas empresas no mercado nacional.

A movimentação ocorre em meio a crescentes preocupações com a disseminação de desinformação e a concentração de mercado pelas gigantes da tecnologia. Um dos gatilhos para o avanço da discussão foi a recente polêmica sobre o PIX: o Ministério da Fazenda planejava ampliar a fiscalização sobre transações financeiras, mas durante o debate circularam informações falsas sobre uma suposta taxação do sistema de pagamentos. Além disso, a decisão da Meta de reduzir a moderação de conteúdo ofensivo aumentou a pressão para que o governo atue.

Os desafios regulatórios e a resistência das big techs

A regulação das big techs não é um desafio exclusivo do Brasil. Em diversos países, governos têm enfrentado dificuldades para criar um arcabouço normativo eficaz que imponha limites às plataformas sem sufocar a inovação. A União Europeia, por exemplo, aprovou recentemente a Lei de Serviços Digitais (DSA) e a Lei de Mercados Digitais (DMA), que estabelecem regras mais rígidas para a transparência de algoritmos e a competição no setor. Nos Estados Unidos, Google, Amazon e Meta enfrentam processos antitruste movidos pelo Departamento de Justiça e pela Comissão Federal de Comércio (FTC).

No Brasil, uma das principais barreiras para a regulação é a resistência das próprias big techs. Quando o Congresso Nacional discutiu o Projeto de Lei das Fake News, por exemplo, o Google utilizou sua página inicial para exibir mensagens contrárias à proposta, o que gerou forte reação do Supremo Tribunal Federal (STF) e do governo, forçando a empresa a recuar.

As empresas argumentam que qualquer tipo de regulação pode afetar a liberdade de expressão e prejudicar o ambiente digital.

A posição do STF e os impasses jurídicos

Enquanto o governo discute a criação de um marco regulatório, o Supremo Tribunal Federal já analisa a questão da responsabilização das plataformas digitais por conteúdos ilícitos. Em dezembro, o ministro Dias Toffoli apresentou um voto no qual defende que as empresas sejam obrigadas a remover conteúdos ofensivos ou ilícitos mediante notificação extrajudicial, sem necessidade de decisão judicial. Segundo Toffoli, essa medida garantiria maior proteção às vítimas de crimes digitais. “O que se discute aqui não é censura, mas sim a garantia de que as vítimas de crimes digitais tenham mecanismos eficazes para proteção de seus direitos”, declarou o ministro.

A tese divide os ministros do STF. Enquanto Luís Roberto Barroso, Gilmar Mendes e Cármen Lúcia apoiaram a posição de Toffoli, Alexandre de Moraes votou contra, argumentando que a decisão sobre remoção de conteúdos deve ser feita caso a caso. O ministro André Mendonça pediu vista do processo, suspendendo o julgamento.

Regulação econômica: o Cade e a defesa da concorrência

Além do debate sobre moderação de conteúdo, a regulação das big techs também passa pela questão concorrencial. O Ministério da Fazenda encomendou um estudo para avaliar os impactos econômicos das grandes plataformas e sua atuação no mercado brasileiro. O documento, produzido pela Secretaria de Reformas Econômicas, concluiu que os atuais mecanismos de defesa da concorrência são insuficientes para lidar com o domínio de mercado exercido por essas empresas.

O Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) já investiga práticas consideradas anticompetitivas, como o favorecimento de produtos próprios por mecanismos de busca e o bloqueio de concorrentes menores. Segundo especialistas, as plataformas operam ecossistemas fechados, nos quais algoritmos determinam quais produtos e serviços têm maior visibilidade, dificultando a concorrência.

O grupo de trabalho coordenado pela Casa Civil deve apresentar as primeiras propostas de regulação ainda no primeiro semestre deste ano. Há expectativa de que o governo adote um modelo híbrido, inspirado nas legislações europeias, combinando regras de moderação de conteúdo com medidas para evitar abusos de poder econômico.

No entanto, qualquer avanço legislativo enfrentará forte resistência política e jurídica. As big techs já indicaram que pretendem recorrer ao Judiciário para contestar regras que considerem excessivas. Além disso, o Congresso precisará debater e aprovar eventuais mudanças na legislação, um processo que pode levar anos.

O Brasil, como um dos maiores mercados digitais do mundo, busca equilibrar inovação, concorrência e proteção aos direitos dos usuários. O desfecho desse debate pode ter impacto significativo não apenas para as empresas de tecnologia, mas também para a sociedade como um todo.

SÃO PAULO WEATHER