Ordem mundial em 2026: o fim da estabilidade e a gestão permanente do conflito

Ordem mundial em 2026: o fim da estabilidade e a gestão permanente do conflito
Em 2026, a política internacional se organiza menos pela busca de estabilidade e mais pela gestão contínua de tensões entre potências globais e regionais/Arte/LexLegal
Publicado em 13/02/2026 às 11:30

José Renato Ferraz da Silveira*

A política internacional de 2026 já não cabe nas categorias herdadas do século XX sem perda de precisão. Falar em ordem estável, blocos fixos ou cooperação estruturante tornou-se insuficiente para explicar como o mundo funciona hoje. O sistema internacional não entrou em colapso, mas também não se reorganizou em um novo arranjo claro. O que existe é um cenário de tensão contínua, no qual a estabilidade deixou de ser um estado desejável e passou a ser um processo frágil, negociado dia após dia.

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O mundo atual não vive uma ruptura súbita, mas um desgaste constante. A política internacional opera menos pela busca de consenso e mais pelo gerenciamento de fricções. Governos já não trabalham com a expectativa de harmonia, mas com a necessidade de previsibilidade mínima. Não se trata de alinhar interesses, e sim de conter danos. O objetivo central deixou de ser a construção de uma ordem cooperativa e passou a ser a administração permanente do conflito.

Esse ambiente pode ser descrito como um equilíbrio inquieto. Não é uma nova Guerra Fria, mas também não é um sistema multipolar clássico. Duas grandes potências continuam a estruturar o tabuleiro global, sobretudo em tecnologia, defesa, cadeias produtivas e influência estratégica. Ao mesmo tempo, potências médias ganharam margem de manobra e deixaram de atuar apenas como coadjuvantes. Elas formam alianças flexíveis, muitas vezes temporárias e temáticas, que se reorganizam conforme o tema em disputa.

O resultado é um sistema híbrido. Não é plenamente bipolar, porque o poder não está concentrado apenas em dois polos rígidos. Também não é verdadeiramente multipolar, porque a assimetria entre os atores continua grande. Não é cooperativo, já que a confiança entre Estados é baixa. E tampouco é caótico, pois ainda existem mecanismos de contenção, interdependência econômica e freios institucionais que impedem rupturas totais.

A competição estratégica entre as grandes potências é o eixo mais visível desse cenário. Ela não se expressa principalmente por confrontos militares diretos, mas por disputas tecnológicas, controle de cadeias globais, influência regulatória e presença geopolítica indireta. É uma rivalidade menos ideológica e mais funcional. O conflito não precisa ser declarado para produzir efeitos reais.

Ao redor desse eixo, as potências médias se movem com pragmatismo. Países que antes orbitavam blocos fixos agora constroem alianças seletivas, negociando interesses caso a caso. Energia, comércio, segurança regional, clima e tecnologia tornaram-se campos de cooperação pontual e disputa simultânea. O poder deixou de ser exercido apenas por posição hierárquica e passou a circular em redes.

Os conflitos armados também mudaram de natureza. Eles deixaram de ser episódios concentrados no tempo e passaram a assumir a forma de processos prolongados, com intensidade variável. Guerras híbridas, uso de atores indiretos, ataques cibernéticos e disputas informacionais tornaram-se parte do cotidiano internacional. A paz, nesse contexto, já não significa ausência de guerra, mas capacidade de evitar escaladas descontroladas.

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A economia global reflete e reforça essa instabilidade. Volatilidade financeira, disputas comerciais, rearranjo de cadeias produtivas e pressões inflacionárias criam um ambiente em que decisões econômicas são, cada vez mais, decisões geopolíticas. Segurança econômica virou sinônimo de segurança nacional. Investimento, tecnologia e acesso a mercados passaram a ser tratados como instrumentos estratégicos, não apenas como variáveis de crescimento.

A esse quadro somam-se riscos globais que nenhum país consegue resolver isoladamente. Mudanças climáticas, pandemias, crises alimentares, fluxos migratórios e disrupções tecnológicas afetam todos os Estados, ainda que de forma desigual. A interdependência é real, mas a cooperação é limitada. Todos sofrem os efeitos, poucos assumem responsabilidades proporcionais.

As instituições internacionais, criadas para oferecer previsibilidade e mediação, enfrentam desgaste. Bloqueios decisórios, disputas de poder internas e questionamentos de legitimidade reduziram sua capacidade de resposta. Em vez de fóruns universais fortes, proliferam arranjos paralelos, coalizões temporárias e acordos ad hoc. O multilateralismo não desapareceu, mas perdeu centralidade.

O espírito dominante de 2026 pode ser resumido em uma lógica simples: competir sem romper. Estados disputam espaço, influência e recursos, mas evitam cruzar linhas que levem a colapsos sistêmicos. Coopera-se quando necessário, de forma limitada e instrumental. A regra não é integração profunda, mas contenção calculada.

Se o século XX foi marcado pela tentativa de construir ordens internacionais relativamente definidas, o início de 2026 revela algo diferente. Não vivemos a ausência de ordem, mas a convivência de múltiplas ordens parciais, sobrepostas e constantemente contestadas. A incerteza deixou de ser um efeito colateral e passou a ser um método de funcionamento do sistema internacional.

Nesse ambiente, poder não se mede apenas pela capacidade de impor decisões, mas pela habilidade de administrar tensões sem permitir que elas se transformem em rupturas irreversíveis. Vencer deixou de ser o objetivo central. Sobreviver ao conflito, mantendo o tabuleiro em pé, tornou-se o verdadeiro consenso silencioso da política internacional contemporânea.

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O mundo de 2026 não caminha para uma paz duradoura nem para um confronto total. Ele se estabiliza na instabilidade. Competir é regra, cooperar é exceção estratégica, e evitar o colapso é o limite comum que todos parecem dispostos a respeitar. Talvez essa seja a marca mais clara do nosso tempo: não a vitória definitiva de um polo sobre outro, mas a consolidação de uma era em que administrar o conflito é mais importante do que vencê-lo.

*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-2).

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