O Vale do Silício falou e eu ouvi daqui do Brasil! Você também deveria ter ouvido…

O Vale do Silício falou e eu ouvi daqui do Brasil! Você também deveria ter ouvido…
"O produto mais sofisticado não ganha se não resolve o problema certo. E o problema certo, no Direito brasileiro, exige um nível de especificidade que só quem está dentro do setor consegue enxergar"/Reprodução
Publicado em 23/04/2026 às 11:00

Priscila Spadinger*

Fiquei no Brasil. Mas graças a quem foi e teve o trabalho de registrar cada painel, cada frase e cada dado, eu acompanhei o Brazil at Silicon Valley, um evento internacional criado por estudantes brasileiros da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, que reúne líderes de tecnologia, negócios, governo e academia para discutir inovação e o futuro do Brasil. Vi de camarote, sem sair do escritório.

Nessa semana recebi as transcrições completas do BSV 2026. Horas de conteúdo de painéis com o CEO da ServiceNow, o cofundador do Instagram, o VP de Produto do Google DeepMind, o CEO da Qualcomm, professores de Stanford e Berkeley e alguns dos fundadores mais relevantes do ecossistema brasileiro no Vale. Li tudo. E sabe o que senti?

A mesma sensação de quem está construindo há anos num território que o mundo acaba de descobrir. Porque e exatamente isso que está acontecendo com a interseção entre direito e inteligência artificial no Brasil.

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A pergunta não e mais se a IA vai transformar a advocacia. A pergunta e quem vai estar do lado que constrói essa transformação.

De buscador a revolvedor: o salto que o Direito precisa dar

Um dos painéis que mais me chamou atenção foi o do Marcelo Alcantara, CPO do JusBrasil. Ele descreveu um movimento que eu chamo de o salto de 100x: a transição de entregar links para entregar respostas. Durante décadas, plataformas jurídicas mostravam ao advogado uma lista de decisões relevantes. Hoje, com IA generativa, a plataforma consegue raciocinar sobre esse acervo e entregar diretamente o argumento que o profissional precisa.

A frase que ficou nas transcrições: e possível fornecer raciocínio legal especifico para advogados, economizando semanas de trabalho. Semanas. Não horas.

Quando li isso, não senti ameaça. Senti confirmação. Porque e exatamente esse o território que as startups do portfolio da Aleve buscam endereçar, ou seja, não substituir o advogado, mas fazer com que o conhecimento do advogado escale de um jeito que nunca foi possível antes.

Dados são o novo petróleo – e o Direito nada neles sem saber

Jessica Leao, parceira da Decibel Partners, foi direta num dos painéis: o valor dos dados aumentou exponencialmente com a IA. Antes, empresas tinham dados e não sabiam bem o que fazer com eles. Agora, esses dados são o diferencial mais defensável de qualquer negócio.

Pense no escritório de advocacia médio. Dezenas de contratos, centenas de pareceres, milhares de petições, todos arquivados em pastas ou em sistemas que nunca conversam entre si. Isso e um ativo dormindo. A pergunta que a IA coloca na mesa e: e se você conseguisse aprender com toda essa experiência acumulada em segundos?

Outro dado do painel sobre IA aplicada aos negócios: o Itaú implementou o ChatGPT Enterprise com 300 usuários-piloto de áreas diversas e, em apenas três semanas, esses usuários criaram quase 500 ferramentas internas. Sem time de TI. Sem código. Apenas pessoas que entenderam o problema e usaram a ferramenta. Se isso acontece dentro de um banco, imagina o que acontece dentro de um escritório que realmente conhece seu próprio acervo.

Outros artigos: Service as a software: a revolução da IA que está transformando o Direito

Regulação não é obstáculo: é o seu fosso competitivo

Darren Cook, da UC Berkeley, trouxe um framework que todo empreendedor de mercados regulados precisa conhecer: os cinco P’s — paciente, provider, payer, partner e permitter. No mercado jurídico, o permitter não é a OAB ou o CNJ como burocracia chata. E um dos seus parceiros estratégicos mais valiosos, porque e quem garante que o que você constrói vai poder existir.

E foi o Mike Krieger, cofundador do Instagram e hoje no Anthropic Labs, quem entregou a frase mais importante para quem constrói legaltechs no Brasil. Ele disse que os insights regionais específicos são os mais distantes das capacidades atuais dos modelos de IA e, portanto, os mais defensáveis. Decorei.

A complexidade do processo civil brasileiro, as nuances do direito do consumidor aqui, a lógica do sistema tributário nacional, atenção: nada disso está no treinamento de nenhum modelo americano. Quem conhece esse território profundamente tem um ativo que nenhuma Big Tech vai copiar facilmente. A questão é saber usar isso como vantagem, não como desculpa.

O que o Pedro Franceschi me ensinou sem saber

No painel sobre o Brex, o Pedro Franceschi, co-CEO e cofundador da empresa, falou algo que ressoa muito com o momento que vivo na Aleve. Ele disse que nunca foi tão possível ir longe sem precisar levantar fundos massivos logo de início. Que o primeiro MVP pode ser construído com ferramentas de IA que democratizaram o desenvolvimento. Que o diferencial real continua sendo o mesmo de sempre: entender profundamente o cliente e o mercado.

Cinco anos construindo startups legaltechs me ensinaram exatamente isso. O produto mais sofisticado não ganha se não resolve o problema certo. E o problema certo, no Direito brasileiro, exige um nível de especificidade que só quem está dentro do setor consegue enxergar.

Pedro também falou sobre o momento de fazer mudanças enquanto a empresa está forte, não em posição de pânico. Isso também ressoa. Quando você constrói com clareza de proposito desde o início, a hora de evoluir chega de um lugar de solidez, não de urgência.

A lição que fica

Não precisei pegar um avião para o Vale do Silício para entender o que aquelas horas de painel estavam dizendo. A mensagem chegou clara, através das transcrições, através dos dados e atravésdas histórias de quem está na linha de frente da transformação tecnológica global:

O mercado jurídico brasileiro é uma das maiores oportunidades de aplicação de IA no mundo. Não apesar da sua complexidade, mas por causa dela.

Veja também: Legaltech e IA jurídica: como venture building gera valor na advocacia?

E enquanto o Vale do Silício descobre isso, nós que já estamos aqui temos uma vantagem que não se compra: conhecemos o terreno. Falta, em muitos casos, a coragem de usar esse conhecimento como ponto de partida para construir e não como justificativa para esperar.

Eu escolhi construir. Sigo nessa!

*Priscila Spadinger é CEO Aleve LegalTech Ventures |  Professora de M&A e Venture Capital | Investidora Anjo | Mãe do Arthur e da Isadora.

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SÃO PAULO WEATHER