O retorno da realpolitik: Trump, tarifaço e o enfraquecimento das regras internacionais

O retorno da realpolitik: Trump, tarifaço e o enfraquecimento das regras internacionais
O tarifaço de Trump expõe o enfraquecimento das regras internacionais e coloca o Brasil em um cenário de incertezas econômicas e geopolíticas/Freepik
Publicado em 30/08/2025 às 3:00

José Renato Ferraz da Silveira*

As mudanças recentes na política internacional deixam claro que estamos vivendo um momento de ruptura. O tarifaço de 50% imposto pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros é apenas a face mais visível de uma estratégia de poder que ignora acordos multilaterais, tratados internacionais e até mesmo princípios clássicos das relações internacionais, como soberania e igualdade jurídica entre os Estados. A lógica agora é a da realpolitik, em que os mais fortes impõem suas vontades e os demais se ajustam.

Leia também: Bolsonaro “viking tupiniquim”: o símbolo global da resistência democrática

O historiador grego Tucídides já havia resumido esse cenário séculos atrás: “aqueles que são preeminentes alcançam o que é possível e os fracos concordam com isso”. Na prática, é exatamente o que o presidente Donald Trump deixou evidente ao ser questionado sobre as tarifas contra o Brasil: “faço porque posso”.

O tarifaço e seus impactos imediatos

O Brasil, vale destacar, não é um país que historicamente acumula superávits na balança comercial com os EUA. Pelo contrário, os norte-americanos mantêm um superávit consistente com o Brasil desde 2009, que em 2024 chegou perto de US$ 30 bilhões. Mesmo assim, Trump justificou as medidas afirmando que “o Brasil tem sido um péssimo parceiro comercial”.

Os efeitos das tarifas já são sentidos. Segundo o vice-presidente Geraldo Alckmin, o tarifaço impacta diretamente 3,3% das exportações brasileiras, atingindo setores como siderurgia, agroindústria e bens de consumo. A curto prazo, o país vê suas cadeias produtivas ameaçadas e as empresas forçadas a buscar novos mercados.

O custo global da política americana

O Brasil não está sozinho. A nova onda protecionista dos Estados Unidos atingiu também China, União Europeia e Japão, todos alvos de sobretaxas. De acordo com dados da ONU, compilados pela consultoria TINA e pela Fundação Hinrich, as tarifas de Trump devem custar US$ 450,1 bilhões (cerca de R$ 2,5 trilhões) em perdas comerciais globais, reduzindo o PIB real dos EUA em 0,8% na próxima década.

As maiores perdas recaem sobre a China (-US$ 156,6 bilhões), seguida pela União Europeia (-US$ 92,6 bilhões) e pelo Japão (-US$ 27,7 bilhões). O movimento, além de abalar as cadeias de fornecimento, projeta um ambiente de incerteza para investidores e coloca em xeque o sistema multilateral de comércio baseado em regras.

O colapso das regras de Vestfália

Como observou o professor Wilson Gomes, vivemos um tempo de paradoxos. Em meio ao caos provocado por Trump, regimes autoritários como o da China parecem, aos olhos da opinião pública, menos disruptivos do que o dos EUA. A lógica vestfaliana — que desde o século XVII estabeleceu princípios de soberania, não-intervenção e igualdade formal entre os Estados — mostra sinais claros de desgaste.

A visão do próprio Trump reforça essa ruptura. Na prática, ele age como se as leis americanas se sobrepusessem a qualquer decisão de organismos internacionais, do Tribunal Penal Internacional (TPI) a cortes constitucionais estrangeiras. Essa postura, descrita por analistas como a “constituição trumpista”, cria um ambiente em que o único tribunal relevante é o arbítrio da Casa Branca.

Repercussões políticas no Brasil

A força desse discurso atravessa fronteiras. No Brasil, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, declarou sem constrangimento: “Estaríamos mortos se Donald Trump não tivesse sido eleito. E agora ele é a única saída que temos”. Para setores bolsonaristas, Trump não apenas representa uma saída política, mas também uma possível proteção jurídica ao ex-presidente Jair Bolsonaro, alvo de processos por tentativa de golpe de Estado.

Esse alinhamento, no entanto, revela contradições. Pesquisa da Quaest mostrou que 19% dos brasileiros apoiam o tarifaço de Trump, especialmente entre eleitores de Bolsonaro e segmentos mais à direita. Ou seja, parte da população apoia medidas que prejudicam diretamente a economia nacional, em nome de afinidades ideológicas e políticas.

O imperador americano

Na prática, o “imperador Trump” exerce uma influência que ultrapassa as fronteiras norte-americanas. Como descreveu um analista, “decisão inquestionável, sanções imediatas, e só uma pessoa no planeta pode arbitrar a dosimetria”. O resultado é um cenário em que tribunais nacionais e organismos multilaterais perdem força, e a lógica de poder substitui a lógica da lei.

Veja também: Trump intensifica guerra contra a imprensa nos EUA

Com esse movimento, os Estados Unidos reforçam sua posição de ator central, mas ao custo de fragilizar a confiança no sistema internacional e gerar instabilidade econômica global. O Brasil, inserido nesse tabuleiro, precisa repensar sua estratégia: diversificar mercados, fortalecer alianças regionais e rediscutir sua posição em negociações multilaterais.

*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-2).

Mais análises de José Renato Ferraz da Silveira:

Do Regime de Vichy ao Brasil: como a colaboração com o inimigo enfraquece a nação

Gaza: quando a morte é negócio, a paz é prejuízo

Tornozeleira, dinastia e poder: o colapso do clã Bolsonaro e a lógica das famílias na política brasileira

SÃO PAULO WEATHER