O preço do engajamento digital: seguidores perdem US$ 3,8 bi com moedas de Trump

O preço do engajamento digital: seguidores perdem US$ 3,8 bi com moedas de Trump
Relatório expõe assimetria entre ganhos milionários do presidente americano e prejuízos massivos de pequenos compradores de criptoativos/Magnific
Publicado em 08/07/2026 às 6:00

Da Redação de LexLegal

Quase um milhão de investidores amargaram prejuízos após apostar na memecoin lançada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Segundo relatório da empresa especializada Nansen, 988.905 carteiras digitais registravam perdas até o fim de junho de 2026, acumulando um prejuízo estimado em US$ 3,81 bilhões.

O levantamento coloca em evidência os riscos jurídicos e econômicos de ativos digitais altamente especulativos que dependem, essencialmente, da força de uma marca ou de uma figura pública para atrair compradores. 

Leia também: Stablecoins dominam mercado de criptomoedas e entram na mira da Receita Federal

Os dados ganharam ainda mais repercussão depois da divulgação da declaração financeira anual de Trump. O documento aponta que o presidente recebeu US$ 636 milhões ligados ao negócio envolvendo criptomoedas, parcela de um patrimônio superior a US$ 2,2 bilhões obtido em 2025 com diferentes empreendimentos. A situação desperta questionamentos sobre conflitos de interesse, deveres de transparência e os limites entre promoção política e incentivo financeiro.

Sob a ótica jurídica, o caso chama atenção porque o modelo de remuneração do projeto não dependia da valorização da moeda. Trump obtinha receitas sempre que havia negociação dos tokens, independentemente da cotação do ativo. Esse mecanismo fez com que o ganho financeiro do empreendimento permanecesse preservado mesmo durante a forte queda do preço da memecoin.

Esse aspecto ganha relevância porque o próprio presidente utilizou diversas vezes sua rede social Truth Social para incentivar a compra do ativo. A estratégia comercial se apoiava na mobilização de sua base de apoiadores e ampliou a discussão sobre até onde uma autoridade pública pode utilizar sua influência para estimular investimentos privados sem que isso gere responsabilidade futura perante os investidores.

A aproximação de Trump com o mercado de ativos digitais ocorreu durante a campanha presidencial de 2024. Depois de anos demonstrando ceticismo em relação às criptomoedas, ele e seus filhos passaram a investir no setor por meio da startup World Liberty Financial, responsável pela emissão do token $WLFI, que também sofreu forte desvalorização após seu lançamento.

Poucos dias antes da posse presidencial, Trump apresentou outro projeto vinculado à sua imagem: a memecoin $TRUMP. Diferentemente de criptomoedas desenvolvidas para solucionar problemas tecnológicos ou financeiros específicos, memecoins costumam ter caráter promocional e baseiam seu valor na repercussão pública e no engajamento dos investidores.

“É hora de celebrar tudo aquilo que defendemos: VENCER!”, escreveu Trump nas redes sociais. “Junte-se à minha comunidade Trump muito especial. COMPRE SUA $TRUMP AGORA!”.

O desempenho do ativo, entretanto, ficou muito distante da expectativa criada pelas campanhas de divulgação. A tecnologia blockchain, utilizada pelas criptomoedas, registra publicamente todas as operações realizadas, permitindo que empresas especializadas acompanhem o comportamento dos investidores. Foi justamente por meio dessa base de dados que a Nansen identificou que aproximadamente dois terços dos compradores terminaram o período analisado no prejuízo.

As informações também mostram que grande parte dessas perdas ainda não foi efetivamente realizada. Muitos investidores continuam mantendo os tokens em suas carteiras digitais, registrando perdas apenas contábeis. Isso significa que o prejuízo existe em razão da queda do preço da moeda, mas só será definitivamente concretizado caso o ativo seja vendido.

Nesta quarta-feira (8), a memecoin $TRUMP era negociada em torno de US$ 1,69, acumulando uma desvalorização próxima de 98% em relação ao pico histórico de US$ 75,35 registrado logo após o lançamento.

O episódio reacende uma discussão recorrente entre especialistas em direito do mercado financeiro: até que ponto ativos de elevado risco devem receber mecanismos adicionais de proteção para investidores de varejo, que normalmente possuem menor acesso a informações técnicas e menor capacidade de avaliar riscos complexos.

A Casa Branca rejeitou qualquer interpretação de que Trump tenha obtido ganhos às custas de seus apoiadores. Desde o retorno do republicano à Presidência, a administração americana também reduziu a intensidade da supervisão regulatória sobre parte do mercado de ativos digitais, incluindo iniciativas relacionadas às chamadas memecoins.

A concentração dos ganhos também chamou atenção da Nansen. Embora quase um milhão de investidores tenham acumulado prejuízos, um grupo muito menor conseguiu obter retornos expressivos. Segundo o relatório, pouco menos de 500 mil carteiras digitais registraram lucro, totalizando aproximadamente US$ 4 bilhões.

O comportamento acompanha um padrão conhecido no mercado de memecoins. Investidores mais experientes utilizam sistemas automatizados para identificar lançamentos com potencial de forte valorização nos primeiros minutos de negociação.

Eles compram grandes volumes ainda nas fases iniciais e vendem rapidamente quando o interesse do público cresce. Em muitos casos, quem entra depois acaba adquirindo o ativo próximo do pico de valorização e absorve a maior parte das perdas quando ocorre a correção dos preços.

O próprio relatório resume esse movimento ao afirmar que esse resultado “reflete um pequeno grupo de compradores iniciais capturando ganhos enormes, enquanto a ampla maioria do varejo absorveu as perdas”. 

Sob o aspecto jurídico, especialistas observam que esse tipo de estrutura não é necessariamente ilegal. Entretanto, quanto maior a influência exercida por quem promove o ativo, maiores tendem a ser os questionamentos sobre transparência, dever de informação e eventual conflito de interesses.

A memecoin $TRUMP integra um conjunto mais amplo de iniciativas ligadas ao universo das criptomoedas desenvolvidas por Trump e seus aliados. Segundo sua declaração financeira, a World Liberty Financial gerou aproximadamente US$ 799 milhões em receitas em 2025.

Parte relevante desse montante decorreu da venda do token $WLFI, cuja estrutura societária também garantia receitas à organização ligada ao presidente independentemente do comportamento futuro do mercado.

Do ponto de vista contratual, modelos que remuneram empresas pela comercialização de um ativo, sem vincular os ganhos ao desempenho posterior do produto, são comuns em diferentes setores da economia.

O debate surge quando essa lógica é aplicada a ativos altamente especulativos direcionados a milhões de investidores de varejo atraídos principalmente pelo prestígio político de quem promove o investimento.

As perdas relacionadas ao token $WLFI são mais difíceis de mensurar porque grande parte das negociações passou a ocorrer em plataformas privadas, cujos dados não são totalmente públicos. Inicialmente, a moeda foi vendida diretamente aos investidores por US$ 0,015 e US$ 0,05. Atualmente, é negociada em torno de US$ 0,057, acumulando queda de aproximadamente 82% desde que passou a circular de forma mais ampla no mercado. 

“Esse ativo é uma memecoin que não tem fundamento nenhum. Os investidores compraram uma ideia que o Trump pudesse criar narrativas ou um volume de atenção o suficiente para que ela decolasse e não aconteceu assim. De qualquer jeito, quem investiu uma boa parte nessa moeda eram especuladores que sabiam os riscos, que acabou se tornando um prejuízo alto”, diz André Franco, CEO da Boost Research, especialista em cripto. .

O especialista explica que todo mundo que estava investindo nessa tese acreditava que, basicamente, era o Trump que poderia mover esse ativo para cima e isso não aconteceu. “Então, acho que não tem nada muito crítico de verdade, diferente de um ativo que deveria ter algum lastro. Nesse caso aí, não tem lastro nenhum, a não ser o Trump”, afirma Franco.

O conceito de lastro corresponde à existência de um bem, direito ou fluxo financeiro que sustente economicamente determinado ativo. Memecoins normalmente não possuem essa característica, dependendo exclusivamente da confiança do mercado e do interesse dos compradores.

O episódio também reacendeu discussões sobre a regulação brasileira dos ativos virtuais. Nos últimos meses, o Banco Central publicou as Resoluções nº 519, 520 e 521, que estabeleceram novos parâmetros para funcionamento das prestadoras de serviços de ativos virtuais, incluindo exigências de governança, controles internos e critérios para listagem de criptomoedas.

“A memecoin $TRUMP é um ativo listado nas principais corretoras do mundo, vinculado ao presidente de uma das maiores potências econômicas globais, o que atende a critérios de relevância e demanda de mercado que justificam sua disponibilização em plataformas sérias. No Brasil, a evolução regulatória trazida pelas Resoluções do Banco Central (BCB nº 519, 520 e 521) eleva o nível de exigência sobre as exchanges no processo de análise para listagem e deslistagem de criptoativos, o que é positivo para a maturidade do setor”, avalia Jorge de Almeida, CEO da Brasil Bitcoin, especialista em cripto

Corretoras institucionalizadas no mercado brasileiro já adotavam práticas de governança antes dessas obrigações formais. Por outro lado, explica o especialista, o comprador de um criptoativo também carrega uma parcela importante de responsabilidade.

“Antes de qualquer aquisição, é preciso consultar portais especializados, analisar o white paper do projeto, compreender como funciona a distribuição e liberação dos tokens e avaliar se se sente confortável com o risco envolvido. A regulação cria proteções institucionais importantes, mas não substitui o cuidado individual. É esse equilíbrio entre um ambiente regulado e a consciência de quem opera nele que sustenta a confiança de longo prazo no mercado cripto”, diz Almeida. 

Veja também: Execução e criptoativos: o desafio da penhora digital no Judiciário brasileiro

O chamado white paper funciona como um documento técnico do projeto. Ele apresenta os objetivos da criptomoeda, sua tecnologia, regras de emissão dos tokens, mecanismos de funcionamento e riscos envolvidos. Embora seja uma referência importante para investidores, especialistas alertam que sua existência não representa garantia de rentabilidade nem elimina a possibilidade de perdas.

SÃO PAULO WEATHER