O machado e o algoritmo: legaltechs como a nova infraestrutura do mercado financeiro

O machado e o algoritmo: legaltechs como a nova infraestrutura do mercado financeiro
A metáfora do machado ganha novo sentido no mercado jurídico e financeiro: mais do que preparo intelectual, eficiência hoje passa pela infraestrutura tecnológica que sustenta decisões em tempo real/Arte/LexLegal
Publicado em 30/01/2026 às 10:16

Priscila Spadinger*

A máxima atribuída a Abraham Lincoln, presidente americano que liderou o país na Guerra Civil no século 19, é um clássico da eficiência: “Dê-me seis horas para cortar uma árvore e passarei as primeiras quatro afiando o machado”. Há pouco ouvi essa citação numa importante reunião sobre um M&A de uma das nossas LegalTechs e entendi que seria um tema forte, timing perfeito e que cairia como uma luva conceitual, aqui na minha coluna no portal LexLegal Brasil.

No imaginário tradicional do Direito, “afiar o machado” sempre foi sinônimo de estudo doutrinário e preparação intelectual. Entretanto, para o mercado financeiro contemporâneo, habitado por bancos digitais, fintechs e seguradoras, essa metáfora ganhou uma dimensão estrutural. No ecossistema de transações em milissegundos, afiar o machado não é mais um ato preparatório; é a própria construção da máquina que sustenta a floresta.

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A transição do jurídico: de acessório a alicerce

Historicamente, as instituições financeiras trataram seus departamentos jurídicos como áreas de apoio ou uma espécie de “pronto-socorro” acionado para apagar incêndios regulatórios ou validar contratos pontuais. Essa visão operava bem em um mercado de ritmo analógico. Contudo, a digitalização do dinheiro e a explosão do open finance tornaram esse modelo insustentável.

Hoje, vivemos a era das legaltechs como infraestrutura. Não estamos mais falando de softwares de gestão de prazos ou repositórios de documentos, mas de sistemas jurídicos integrados diretamente ao “core” operacional das empresas. Bancos e fintechs perceberam que não é possível escalar finanças sem escalar o Direito. O risco jurídico não surge após a operação; ele nasce intrínseco a ela, em cada linha de código de um novo produto financeiro.

O machado que se afia em tempo real

Quando Lincoln falava em afiar o machado, ele se referia ao preparo antes da execução. No mercado financeiro, as Legaltechs permitem que esse preparo seja contínuo e automatizado. Elas atuam como a tradução necessária entre a norma legal e a regra de negócio.

Imagine o desafio de conformidade de uma seguradora que processa milhares de apólices por hora. Sem uma infraestrutura de Legaltech, cada ajuste regulatório do órgão fiscalizador exigiria meses de revisão manual. Com sistemas integrados, a norma é convertida em dados estruturados que atualizam automaticamente a validação contratual e a gestão de riscos.

Aqui, o “custo” de investir em tecnologia jurídica deve ser lido como investimento em infraestrutura crítica. Operar sem essa base é como tentar derrubar uma sequoia com um canivete: você pode até fazer um entalhe, mas a escala do mercado acabará por soterrar a sua capacidade de entrega.

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O risco da inovação sem infraestrutura

Muitos players do setor financeiro ainda cometem o erro estratégico de focar toda a sua energia no front-end, ou seja, a interface com o cliente, enquanto mantêm um jurídico artesanal nos bastidores. O resultado é o que chamamos de “gargalo invisível”. A empresa cresce rápido, mas acumula um passivo regulatório e operacional que, cedo ou tarde, cobrará seu preço em multas, suspensões ou perda de confiança dos investidores.

A infraestrutura jurídica provida pelas Legaltechs oferece algo que o marketing não consegue entregar sozinho: a sustentabilidade do crescimento. Ela permite:

  • Velocidade de onboarding: validação imediata de conformidade e KYC (Know Your Customer).
  • Redução da judicialização: filtros inteligentes que identificam falhas operacionais antes que elas se tornem processos.
  • Previsibilidade de passivo: dados estruturados que permitem ao CFO entender exatamente o risco financeiro da base jurídica.

O mercado financeiro moderno não perdoa o improviso. Como Lincoln bem pontuou, a vitória pertence a quem dedica a maior parte do tempo à eficiência da ferramenta. As legaltechs deixaram de ser uma tendência estética para se tornarem a condição sine qua non da operação bancária e securitária.

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Aqueles que entenderem que o jurídico deve ser desenhado como uma API aberta, integrada e ágil serão os que cortarão as árvores com precisão cirúrgica. Os demais, presos a machados cegos e processos manuais, descobrirão que o tronco do mercado é grande demais para ser vencido apenas com força bruta. No mundo digital, o melhor advogado é aquele que ajuda a construir o sistema que previne o conflito, e não apenas aquele que o resolve.

*Priscila Spadinger é CEO da Aleve LegalTech Ventures S/A. Lidera iniciativas de inovação jurídica e acompanha de perto a jornada de dezenas de legaltechs brasileiras.

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